Debate do split payment traz à tona receio do comércio com redução do capital de giro

O arcabouço tributário atual permite que parte relevante do imposto embutido no preço fique no caixa por um período que pode variar, em geral, de 30 a 90 dias, até a apuração e o recolhimento

•

Publicidade

Mecanismo da reforma tributária que separa e recolhe automaticamente os impostos no momento da transação, o split payment (pagamento fracionado) virou tema do debate eleitoral e trouxe à tona a preocupação de empresários do comércio e especialistas em tributação sobre o potencial de o mecanismo reduzir o capital de giro das empresas ao antecipar o repasse ao Fisco.

A crítica é vocalizada pelo assessor econômico da FecomércioSP, Fábio Pina. Para ele, o split payment cria um “mega problema” ao reduzir o fôlego de caixa das empresas, sobretudo em cadeias nas quais prazos comerciais são relevantes e o imposto hoje permanece temporariamente no caixa até o recolhimento.

“Hoje as empresas têm 15 a 30 dias entre venda e recolhimento, com apurações mensais e trimestrais e poucos descontos na fonte. Com a separação imediata do imposto, haveria pressão no capital de giro e corrida a crédito bancário”, afirma, ao criticar o que chama de controle “abusivo”, já que as falhas na cadeia seriam do fisco.

Continua depois da publicidade

O arcabouço tributário atual permite que parte relevante do imposto embutido no preço fique no caixa por um período que pode variar, em geral, de 30 a 90 dias, até a apuração e o recolhimento.

Com o split payment, que está previsto legalmente desde janeiro de 2025, mas com previsão de funcionamento a partir de 2027, a parcela do tributo seria destacada e transferida automaticamente ao governo no ato do pagamento, encurtando o fôlego de caixa e, segundo críticos, empurrando empresas para crédito bancário num momento de condições financeiras ainda bastante restritivas, com a Selic a 13,75% ao ano.

A discussão sobre o tema ganhou tração nesta semana. Na terça-feira, 7, a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, afirmou que um eventual governo do candidato acabaria com o instrumento por “asfixiar o capital de giro do pequeno”. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu dizendo que ser contra o avanço do split payment é “favorecer quem frauda”, porque o mecanismo fecharia o cerco contra empresas noteiras e reduziria a sonegação.

Continua depois da publicidade

Na quinta-feira, 8, Flávio Bolsonaro voltou a defender publicamente o fim do split payment, afirmando que a ferramenta “inviabiliza o capital de giro para as empresas”. No mesmo dia, o deputado Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR), um dos idealizadores da reforma no Congresso, relativizou a possibilidade de revogação e sustentou que o split payment é peça necessária do novo IVA por viabilizar o modelo de “crédito financeiro”.

Segundo Hauly, a principal preocupação da campanha de Flávio estaria nas operações com consumidor final (B2C), enquanto a implementação da reforma prevê, primeiro, transações entre empresas (B2B).

O pagamento fracionado começa de forma opcional e faseada no segundo semestre de 2027, restrito a transações entre empresas. A obrigatoriedade geral foi adiada pela Receita Federal e deve ficar para 2028, em função do tempo necessário de adaptação tecnológica de bancos, instituições de pagamento e demais arranjos.

Continua depois da publicidade

Durigan disse ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) no domingo, após votar em um colégio tradicional dos Jardins, em São Paulo, que o governo está disposto a reunir o empresariado, ouvi-lo e manter a porta aberta para ajustes no instrumento e até para discutir prazos. Não indicou, porém, intenção de abandonar a proposta.

“O empresário não precisa ter medo. Ele precisa entender que o split payment vai acabar com a sonegação. O governo está disposto a sentar, ouvir os empresários, fazer ajustes no mecanismo e discutir prazos”, disse.

O presidente da Associação Brasileira de Advocacia Tributária (Abat), Halley Henares Neto, também vê riscos. Para ele, há dois pontos centrais: o desafio tecnológico e a experiência internacional, com exemplos de adoções acompanhadas de revisões e ajustes. “Não é um sistema de fácil implementação”, disse, acrescentando que o modelo tem custos para meios e arranjos de pagamento e instituições financeiras.

Continua depois da publicidade

“Obviamente vão repassar esse custo para o contribuinte”, emendou. Segundo Henares, o split payment tende a retirar capital de giro sobretudo de pequenas e médias empresas, que hoje ficam com o valor recebido até o momento de recolher tributos. “Geralmente há 40, 45 dias entre o recebimento e o fato gerador do tributo e depois o recolhimento desse tributo.”

O economista-chefe da Reach Capital, Igor Barenboin, alerta para o efeito colateral do split payment sobre o caixa das empresas e o potencial de encarecer o crédito, sobretudo para companhias menores e mais dependentes de capital de giro bancário. “Vai tirar dos empresários o capital de giro.”