Com genéricos, pacientes capazes de pagar por GLP-1 deve subir de 28% para 45%

Estimativa foi uma das conclusões da pesquisa “Percepção médica em relação aos medicamentos GLP-1 no Brasil”, que ouviu mais de mil médicos de quatro especialidades em todo o país

Maria Luiza Dourado

Ativos mencionados na matéria

Foto: Divulgação
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Medicamentos GLP-1, conhecidos como canetas emagrecedoras — com Ozempic e Wegovy entre os principais exemplos — ganharam espaço nos consultórios brasileiros pelos resultados no tratamento da perda de peso e do diabetes tipo 2, mas seu custo ainda trava a expansão desses tratamentos no país. Segundo médicos, essa realidade deve mudar com a chegada dos genéricos ao mercado brasileiro, o que pode elevar de 28% para 45% a parcela de pacientes com condições financeiras para arcar com a terapia.

É o que mostra a pesquisa “Percepção médica em relação aos medicamentos GLP-1 no Brasil”, realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estudos para o Consumo (IFEPEC), da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar). Segundo o levantamento, 65% dos pacientes que iniciam o tratamento com medicamentos GLP-1 não conseguem manter a posologia recomendada ou acabam abandonando o uso por razões financeiras.

O estudo ouviu 1.067 médicos em todo o país, tem nível de confiança de 95% e margem de erro máxima de 3%. Os entrevistados foram distribuídos proporcionalmente entre as cinco regiões brasileiras e entre as quatro especialidades consideradas mais relevantes na prescrição de medicamentos GLP-1: clínica médica, cardiologia, medicina de família e comunidade e endocrinologia.

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Segundo o estudo, os médicos estimam que apenas 28% dos pacientes aptos a utilizar esses medicamentos têm condições financeiras de aderir ao tratamento. Em um cenário hipotético de redução de 35% nos preços dos GLP-1, essa fatia subiria para 45%, segundo os entrevistados.

Isso porque a diferença de preço entre as canetas da Novo Nordisk, dona dos originais Ozempic e Wegovy, e os genéricos é expressiva. O primeiro medicamento brasileiro do tipo, o Ozivy, nome da caneta da farmacêutica EMS, chegou ao mercado em junho custando entre R$ 452 e R$ 498, valores muito inferiores à faixa de R$ 800 a R$ 1.400, a depender da dose, dos medicamentos fabricados pela Novo Nordisk.

Comunidade médica desconfiada?

Os resultados do estudo sugerem que a ampliação do uso desse tipo de medicamento não dependerá apenas da redução dos preços, mas também da capacidade dos fabricantes de genéricos — como a EMS e, mais recentemente, a Hypera — de construir credibilidade junto à comunidade médica.

A expectativa dos médicos em relação à chegada de biossimilares, genéricos e similares da classe GLP-1 é predominantemente positiva: 72% dos entrevistados se declaram otimistas (44%) ou muito otimistas (28%) em relação à entrada desses produtos no mercado brasileiro. Os neutros são 24%, e os pessimistas, 4%.

Contudo, a disposição para prescrever os similares de GLP-1 deve enfrentar uma barreira de confiabilidade. Entre os médicos consultados, 23% afirmam que prescreveriam os novos produtos, enquanto 36% dizem que fariam isso desde que confiassem na indústria responsável pela fabricação. Outros 27% afirmam que pretendem conhecer melhor os medicamentos antes de adotá-los, e 14% preferem aguardar mais tempo.

A força das marcas de genéricos também será relevante. Segundo a pesquisa, 78% dos médicos afirmam que, no caso dos similares de GLP-1, tendem a prescrever uma marca específica, enquanto apenas 22% priorizariam a indicação da molécula.

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Pacientes pedem

A pesquisa mostra ainda que a procura pelos medicamentos já se tornou parte da rotina dos consultórios, com metade dos pacientes pedindo pelas canetas logo de cara.

Segundo os médicos entrevistados, 18% dos pacientes pedem o GLP-1 logo no início da consulta, enquanto 33% manifestam o desejo de usar a medicação no início da conversa e perguntam a opinião do médico. A parcela dos pacientes que perguntam sobre a viabilidade do medicamento só no fim da consulta é de 23%, enquanto 26% não se manifestam sobre a medicação.

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Fins estéticos

Outro dado que chama atenção é o avanço do uso desses medicamentos para além do tratamento do diabetes tipo 2. De acordo com os entrevistados, 77% das prescrições atualmente estão relacionadas à obesidade e a objetivos estéticos — a pesquisa não discriminou a fatia de cada situação. Enquanto isso, 23% das prescrições permanecem vinculadas ao tratamento do diabetes.

Uso sem prescrição

Os médicos respondentes estimam que, em média, 7% dos pacientes chegam à primeira consulta relatando que já utilizam ou utilizaram medicamentos GLP-1 sem indicação médica.

Efeitos adversos e reclamações

Os efeitos adversos mais frequentemente relatados pelos pacientes são gastrointestinais. Náusea, constipação intestinal, vômitos, diarreia, dispepsia, azia (refluxo), flatos e arrotos com gosto de enxofre aparecem entre as principais queixas mencionadas pelos médicos.

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Também foram citados sintomas como cefaleia (dor de cabeça), fadiga, tontura, alterações de humor e aversão à comida (anedonia alimentar).

Entre os efeitos de longo prazo, foram citados perda de massa magra (sarcopenia) e envelhecimento facial.

Benefícios além da perda de peso

Embora a perda de peso seja o benefício mais conhecido da classe, os médicos destacam uma série de efeitos positivos associados aos medicamentos. Entre eles estão o controle glicêmico no diabetes tipo 2, a redução da compulsão alimentar, o aumento da saciedade, a proteção cardiovascular, a diminuição do risco de infarto e AVC, a melhora dos indicadores de colesterol e triglicerídeos, a prevenção da doença renal crônica e o tratamento da gordura no fígado.

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Os entrevistados também relataram melhora de condições associadas à obesidade, como apneia do sono e dores articulares.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.