Casar ou “juntar”? O que você precisa saber sobre direitos em cada tipo de união

Uniões consensuais já são maioria no Brasil especialistas explicam que há efeitos legais mesmo para casais que optam por viver juntos sem formalização  

Anna França

(Pixabay/PIRO4D)
(Pixabay/PIRO4D)

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O Brasil vive uma transformação profunda e silenciosa na forma de constituir família. O crescimento do número de uniões consensuais, aquelas em que casais vivem juntos sem formalização civil ou religiosa, indica uma reconfiguração social que desafia as normas do Direito de Família e pode ter consequências, segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney.

Segundo dados divulgados pelo Censo do IBGE nesta quarta-feira (5), entre 2000 e 2022, o percentual de casamentos formais caiu de 49,4% para 37,9%, enquanto as uniões informais saltaram de 28,6% para 38,9%, ultrapassando pela primeira vez o modelo tradicional.

O movimento reflete mais do que uma mera mudança de comportamento. De acordo com advogados, questões econômicas, culturais e de autonomia pessoal se entrelaçam nesse redesenho das formas de convivência, redefinindo o próprio conceito de matrimônio.

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“Esse fenômeno representa uma mudança de mentalidade na sociedade, em que o casamento deixou de ser pré-requisito para a vida a dois e deu lugar a parcerias mais livres e igualitárias, desvinculadas do simbolismo religioso e da burocracia”, afirma o advogado Ricardo Luiz Jacopucci, do Benício Advogados Associados.

Ele destaca que o custo elevado de cerimônias e a instabilidade econômica têm levado muitos casais a adiar ou abandonar a formalização. “Hoje, morar junto é muitas vezes uma decisão racional, e econômica.”

Essa flexibilização de valores também se reflete no campo jurídico. “O Direito de Família se pauta cada vez mais pelo princípio da dignidade da pessoa humana, pelo afeto e pelo cuidado mútuo, mais do que pela formalidade”, afirma Jacopucci.

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Por isso, ele lembra que o Projeto de Lei nº 04/2025, em tramitação no Congresso, já busca modernizar o Código Civil para reconhecer justamente essa diversidade das configurações familiares, reforçando a tendência que já está na sociedade.

União estável

O advogado Caio Inácio, especialista em Direito Civil, explica que o próprio conceito de união estável nasceu para reconhecer uma prática social que já existia, e que antes era tratada com preconceito. “A Lei da União Estável, de 1996, veio para regular um hábito social. Hoje, a convivência pública, contínua e duradoura com intenção de constituir família já é suficiente para gerar efeitos legais como partilha de bens, pensão e sucessão”, explica.

Ele alerta, contudo, que muitos casais “juntados” ainda acreditam estar fora das regras do Direito de Família. “Na prática, se o relacionamento atende aos requisitos, ele é reconhecido como união estável sim, mesmo sem papel assinado.”

A advogada Laísa Santos, especialista em Direito de Família e Sucessório, concorda. Para ela, a ausência do “papel” não significa falta de proteção jurídica, mas exige cautela. “O essencial é compreender as consequências legais de cada modelo. A escritura pública de união estável, por exemplo, garante previsibilidade quanto ao regime de bens e assegura segurança patrimonial e sucessória”, destaca.

Segundo a advogada, o fenômeno também traduz uma busca por autonomia, flexibilidade e racionalização de custos, especialmente entre casais jovens e mulheres economicamente independentes.

Já o advogado Fábio Botelho Egas, do Botelho Galvão Advogados, vê na tendência um sinal de contratualização crescente das relações. “Fazer contratos particulares em vez de casar-se em cartório mostra um desejo de simplificação da vida e de facilitar eventuais rompimentos, inclusive com economia de custos.”

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Os especialistas também apontam fatores sociais que moldam essas transformações: a pluralidade religiosa, que reduziu o peso do casamento religioso, o reconhecimento da união homoafetiva pelo STF em 2011, e o avanço da participação feminina no mercado de trabalho formal, que conferiu às mulheres maior autonomia e liberdade de escolha.

Com famílias menores, casais mais velhos e jovens menos dispostos a gastar com cerimônias, o país consolida um novo modelo de afetividade: menos ritualístico, mais pragmático, mas nem por isso menos comprometido.

Mas Laísa Santos lembra que economizar para casar pode fazer sentido financeiramente. “Mas o mais importante é compreender que toda união, formal ou não, gera consequências jurídicas. O amor pode ser livre, mas o Direito continua atento”.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro