Canadá e Ásia redesenham mapa do intercâmbio e reduzem peso dos EUA

Intercâmbio deixa de ser só curso de idioma: cresce a busca por graduação, pós e especializações em IA, tecnologia verde e agro, com foco em empregabilidade e apelo a profissionais com mais de 30 anos

Anna França

Avião da Azul decola do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro
17/01/2025
REUTERS/Ricardo Moraes
Avião da Azul decola do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro 17/01/2025 REUTERS/Ricardo Moraes

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O mapa da educação internacional está começando a mudar. Destinos tradicionais, como os Estados Unidos, começam a perder espaço, enquanto países como Canadá e nações asiáticas ganham protagonismo, impulsionados por custo, políticas migratórias e novas demandas de formação profissional.

Um levantamento do STB, especializado em estudos no exterior, mostra que o número de estudantes brasileiros enviados ao Canadá cresceu 48% em 2025, enquanto os Estados Unidos registraram queda de 11% no mesmo período. Ao mesmo tempo, programas na Ásia avançaram 30%, refletindo uma diversificação inédita nos destinos.

Para Christina Bicalho, vice-presidente da STB, a mudança marca um ponto de inflexão em um mercado historicamente dominado pelos Estados Unidos. “Durante décadas, eles responderam por cerca de 40% dos embarques. Essa liderança nunca havia sido tão pressionada como agora”, afirma.

Do idioma ao planejamento de carreira

Mais do que uma mudança geográfica, o setor vive uma transformação também de perfil. O intercâmbio deixou de ser apenas uma etapa para jovens e adolescentes aprenderem inglês e passou a integrar o planejamento de carreira, com foco em graduação, pós-graduação e até especializações.

Segundo a STB, programas de educação superior no exterior — que incluem graduação, mestrado e doutorado — cresceram 21% em 2025. A demanda reflete um movimento de profissionais mais experientes, que buscam requalificação ou transição de carreira em áreas emergentes.

“Hoje vemos engenheiros, profissionais de tecnologia e até executivos buscando especialização em inteligência artificial, tecnologia verde e agronegócio. O intercâmbio virou estratégia de vida”, diz Bicalho.

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Essa mudança também ampliou a faixa etária dos estudantes. Se antes o público predominante tinha entre 14 e 25 anos, agora o intervalo vai de 18 a 35 anos, com casos que ultrapassam essa faixa.

Canadá avança

O crescimento do Canadá está diretamente ligado a fatores econômicos e institucionais. O país adotou políticas mais abertas para estudantes internacionais, incluindo facilidades para levar familiares e maior previsibilidade para permanência após os estudos.

“Há um pacote completo: custo mais baixo, política migratória clara e possibilidade de integração da família. Isso pesa na decisão”, explica a executiva.

Além disso, o investimento necessário para estudar nos Estados Unidos pode chegar a US$ 80 mil por ano, o que passou a ser questionado especialmente diante de incertezas regulatórias, como mudanças nas regras de permanência pós-formação.

Leia Mais: Intercâmbio de curta duração: vale a pena? E como escolher o ideal para você?

Ásia emerge

Se o Canadá cresce por previsibilidade, a Ásia avança pelo apelo de inovação e novas oportunidades acadêmicas. Universidades de países como China, Japão, Coreia do Sul e Singapura vêm ampliando a oferta de cursos em inglês, especialmente em áreas como inteligência artificial, engenharia, arquitetura sustentável e agronegócio.

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“A Ásia reúne excelência acadêmica, inovação e segurança. Isso passou a pesar muito na decisão das famílias”, afirma Bicalho. Outro fator relevante é o custo: na média, estudar na região pode ser cerca de 15% mais barato que nos Estados Unidos, embora ainda acima de destinos europeus.

Além disso, há um componente cultural crescente. O interesse por idiomas como mandarim, japonês e coreano aumentou, impulsionado tanto por questões profissionais quanto pela influência cultural da região.

Um mercado mais diverso

A decisão sobre onde estudar deixou de ser apenas acadêmica ou financeira. Segurança e estabilidade geopolítica passaram a influenciar diretamente o fluxo de estudantes. “Hoje, a principal preocupação dos pais é segurança. Isso mudou completamente a lógica de escolha”, afirma Bicalho. Esse fator tem favorecido destinos considerados mais estáveis, como Canadá e países asiáticos, ao mesmo tempo em que reduz o apelo de regiões com maior percepção de risco.

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Apesar das mudanças, os Estados Unidos seguem como principal destino em números absolutos. A diferença é que o domínio já não é absoluto. Austrália, Nova Zelândia e alguns países europeus também ganham espaço, especialmente entre estudantes que buscam equilíbrio entre custo e qualidade acadêmica.

Para o setor, o que emerge é um mercado mais pulverizado e estratégico, no qual o estudante avalia retorno do investimento, empregabilidade e segurança com muito mais rigor. “O intercâmbio deixou de ser uma experiência pontual e passou a ser uma decisão estruturada, pensada com antecedência e alinhada ao futuro profissional”, resume Bicalho.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro