Brasileiros no limite: pesquisa mostra que maioria vive na “corda bamba financeira”

Improviso e estresse dão o tom nas contas da maioria da população, como mostra estudo encomendado pelo Banco Inter

Anna França

Foto: Unsplash
Foto: Unsplash

Publicidade

Uma pesquisa feita pelo Banco Inter em conjunto com a consultoria Consumoteca acaba de confirmar o que os altos números de inadimplência no Brasil já mostravam na prática: o brasileiro vive “numa corda bamba financeira”, sempre a um imprevisto de distância do caos por não saber administrar seu dinheiro.

Segundo o levantamento, menos de 30% das pessoas dizem estar com as contas “em ordem” e, pior, apenas 23% consegue guardar dinheiro com regularidade. Ou seja, a maioria vive equilibrando seus gastos sem conhecimento de como gerir suas finanças. Nesse cenário, o crédito pode se tornar tanto uma boia como onda gigante, pronta para afogar o usuário.

De acordo com a pesquisa “Acrobacia Financeira”, 60% dos brasileiros pediram algum tipo de crédito neste ano. Metade deles já teve um pedido negado sem entender o motivo, e só 17% afirmam saber o que é preciso para ter crédito aprovado. Não por acaso, 60% acham que os bancos não são transparentes nesse processo.

Continua depois da publicidade

Ao mesmo tempo, o brasileiro quer aprender: nove em cada dez dizem que precisam saber mais sobre educação financeira. Mas, como mostrou Gabriela Mello, líder de insights da Consumoteca, isso esbarra em dois fatores: 1) falta de tempo; e 2) excesso de estresse. “Quem está mal das finanças não consegue parar para ‘assistir aula’ de finanças. Ele precisa de ajuda prática, no fluxo do dia a dia”, explica.

Leia Mais: Está no vermelho? Confira dez dicas para limpar o nome para as compras de fim de ano

Saindo do improviso

Um dos pontos centrais da pesquisa mostra que nessa “corda bamba financeira”, o brasileiro fica entre a tensão da urgência financeira e a falta de condições de fazer qualquer tipo de planejamento. Em vez de pensar em aposentadoria ou reserva, o brasileiro passa a tomar decisões quase sempre de curtíssimo prazo do tipo “como eu pago esta conta hoje?”.

Nessa lógica da sobrevivência do dia a dia, as alternativas mais óbvias são parcelar no cartão, usar PIX parcelado, empurrar a fatura para o mês seguinte ou recorrer ao limite do cheque especial. “Não é falta de inteligência. É improviso com as armas disponíveis”, explica Gabriela.

O problema é que, sem informação e sem visão de conjunto, os truques de sobrevivência  podem virar armadilhas: rolagens de dívida caras, juros de dois dígitos ao mês e um nível de estresse que, segundo a pesquisa, atinge o pico justamente para quem vive “no limite”.

“Para as pessoas, educação financeira significa ter controle e aprendizado, duas coisas que exigem tempo e estabilidade, justamente o que falta para quem está aflito com as contas. O resultado é um descompasso entre a urgência da dor e o longo prazo para resolver”, explica a responsável pela pesquisa

Continua depois da publicidade

Como resolver?

Diante de números tão robustos, o Banco Inter decidiu concentrar o foco na área de crédito, que deve encerrar o ano com crescimento médio de 30% na sua carteira, o que equivale a três vezes o ritmo do mercado, segundo o CEO do Inter no Brasil, Alexandre Riccio. “Este foi um ano forte em crédito para nós e avançamos muito em linhas mais baratas, como home equity, financiamento imobiliário, consignado privado e antecipação de saque-aniversário do FGTS, além de manter um volume anualizado de R$ 62 bilhões em transações com cartão de crédito”, afirma.

A leitura do Inter sobre crédito é que o problema não é apenas o acesso, mas a relação com o crédito. O mesmo produto que ajuda a “ganhar 30 dias” pode virar uma espiral de juros se for usado sem orientação, num exemplo clássico do pagamento mínimo do cartão e do rotativo, com taxas em torno de 15% ao mês.

Na ocasião, a empresa também anunciou um novo serviço que vai explicar ao cliente as razões para eventuais negativas de crédito dentro do app. A instituição financeira também listará ações concretas que os clientes podem fazer para melhorar a avaliação ao longo do tempo. “Vamos usar linguagem simples, frases curtas e uma interface que tenta caber na rotina do cliente, ao invés de pedir que o usuário sente para ‘estudar’, se acoplando a interações que ele já tem com o banco”, explica Mauro Rangel, diretor de Crédito e Recuperação.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro