Apesar de queda na renda, brasileiros consumiram mais

Constatação foi feita com base nos dados do Censo 2000, que indicam um aumento do consumo de bens duráveis entre os brasileiros

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SÃO PAULO – A afirmação certamente parece contraditória, mas esta foi a constatação feita com base nos dados do Censo 2000, publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Contudo, ao que parece, isto só foi possível graças a maior facilidade de acesso ao crédito por parte da maioria dos brasileiros, assim como ao aumento do número de trabalhadores informais, que ficam fora das estatísticas do IBGE.

Consumo de bens duráveis aumentou

De acordo com dados do Censo, houve um aumento de 174,5% no número de casas com telefone fixo, decorrência clara do processo de privatização do sistema de telefonia do país, que permitiu uma queda significativa não só nos preços das tarifas, mas principalmente no custo de instalação de linhas. Outro item que passou a ser mais freqüente entre os domicílios do país foi o automóvel, com o número de casas com carros subindo quase 82,1%.

Em contrapartida, o Censo constatou uma queda no poder aquisitivo do brasileiro, visto que mais da metade dos brasileiros, que trabalhavam em 2000, ganhavam menos do que dois salários mínimos. Além disso, deste total, cerca de 24,4% não ganhavam mais do que um salário mínimo. Vale lembrar que em 2000 o salário mínimo era de apenas R$ 151, cerca de 24,5% abaixo do salário atual que é de R$ 200,00.

Informalidade dificulta análise dos dados

Dentre os fatores que podem ter contribuído para o aumento do consumo, apesar da redução da renda, deve-se ressaltar a falta de informação sobre os trabalhadores informais, isto é, aqueles que trabalham sem registro.

Muitas famílias complementam seus orçamentos com bicos, o rendimentos dos filhos, que ainda menores de idade, fazem bicos para ganhar um extra no final do mês. Este dinheiro não está incluído na renda da família, pois não é salário, mas certamente permite um aumento do poder aquisitivo da família.

Crédito mais fácil

A maior facilidade de acesso ao crédito, certamente é outro fator que contribuiu para esta tendência, pois se o brasileiro não aumentou sua renda, ele certamente ficou mais endividado. Quando o assunto é financiamento, cresceram as vendas através de crediário, que embutem juros da mesma forma, e acabaram levando muitos brasileiros a chegar a uma situação de inadimplência.

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Vale lembrar que no censo anterior a inflação ainda era excessivamente alta no Brasil, e a maioria dos comerciantes evitava vender a prazo, mesmo com cobrança de juros, que eram ainda mais exorbitantes. Por sua vez, os bancos tinham melhores formas de aplicar seus recursos, e ao invés de emprestar aplicavam boa parte de seus ativos no mercado financeiro, cujo retorno era mais alto e o risco bem menor.

Esta tendência se reverteu com a queda da inflação, pois os juros começaram a baixar, e para os bancos aplicar no mercado financeiro já não era tão interessante como antes. Por sua vez, o aumento do poder aquisitivo dos assalariados, obtido com a queda da inflação, permitiu um aumento da demanda por parte do consumidor.

Esta demanda só pode ser atendida à medida que os bancos começaram a facilitar o acesso aos créditos pessoais. Se a renda caiu, as dívidas aumentaram e foi assim que boa parte dos bens foi comprada. Além disso, houve uma certa substituição de bens, com o consumidor deixando de comprar alguns produtos para ficar com outros.