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O mercado automotivo brasileiro teve um desempenho mais sólido em 2025 do que o projetado no início do ano, com crescimento de 10% na comercialização de veículos usados. Isso ocorreu apesar da Selic elevada, da desaceleração global e do aperto no crédito causado pelo aumento da inadimplência, conforme mostram os dados do setor analisados pelo Banco BV.
O movimento indica que o segmento de usados segue resiliente, sustentado pelo ritmo da economia e dando sinais de expansão moderada para 2026.
Segundo Jamil Ganan, diretor de Negócios de Varejo do Banco BV, a instituição encerrou o terceiro trimestre com R$ 92 bilhões em carteira, dos quais R$ 45 bilhões correspondem ao financiamento de veículos usados, sua principal linha de negócio. Apesar da comercialização ter ficado 10% acima do resultado de 2024, apenas 30% dessas vendas foram financiadas devido à maior seletividade na concessão de crédito.
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Ganan destaca que este foi o ano com maior quantidade de veículos usados comercializados na série recente, acompanhados por uma valorização dos preços ligeiramente acima do IPCA. “Para 2026, a projeção é de valorização moderada, evemente abaixo da inflação”.
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Ganan destaca que 2025 foi o ano com o maior volume de veículos usados comercializados na série recente, acompanhados por uma valorização dos preços ligeiramente acima do IPCA: “Para 2026, a projeção é de valorização moderada, levemente abaixo da inflação”.
O economista-chefe do BV, Roberto Padovani, explica o descompasso entre vendas e financiamentos, afirmando que, embora a demanda por veículos tenha crescido em dois dígitos, os bancos adotaram postura mais conservadora na concessão de crédito. “A Selic alta reduziu a capacidade de pagamento das famílias. Um cliente que antes aceitava uma parcela X passou a não suportar, o que levou o sistema financeiro a ajustar suas políticas de crédito”, afirma.
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Esse freio foi mais evidente no primeiro semestre, mas já mostra sinais de reversão. No terceiro trimestre, a originação de crédito do BV aumentou 16% em relação ao segundo trimestre, apoiada na melhora da renda, desaceleração da inflação e estabilidade do risco de crédito. “A inadimplência acima de 90 dias no mercado está um pouco acima de 5%, nível considerado administrável pelo banco”, disse ele.
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Para Padovani, o cenário doméstico permanece positivo. O PIB deve crescer cerca de 2% em 2025, impulsionado por emprego recorde, salários em alta e efeitos das reformas estruturais acumuladas na última década, como as trabalhista, previdenciária e, mais recentemente, a tributária. “Esses fatores sustentam a avaliação de que não há recessão no horizonte relevante no período entre 2026 e 2028”, diz o economista.
Vulnerabilidades
Ao mesmo tempo, o economista alerta para riscos importantes.
O primeiro é a desaceleração global, que combina fraqueza na China, incertezas na Europa e sinais contraditórios nos Estados Unidos, onde a falta de convergência da inflação mantém o Federal Reserve (Fed) cauteloso.
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O segundo é a possibilidade de uma bolha nos mercados acionários norte-americanos, estimulada pela expectativa de cortes de juros e pelo debate sobre os impactos imediatos (ou não) da inteligência artificial na produtividade.
No plano doméstico, a fragilidade fiscal permanece como principal vulnerabilidade. A dívida pública, atualmente em torno de 84% do PIB, segue em trajetória de alta até o fim da década, podendo chegar a 92%.
“Esse cenário aumenta a sensibilidade do Brasil a choques externos. Um estresse global pode pressionar câmbio, inflação e juros, variáveis cruciais para o mercado de crédito, especialmente no setor automotivo”, diz Padovani.
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Apesar dessas incertezas, o BV mantém projeção otimista para 2026. Segundo Ganan e Padovani, a combinação de emprego forte, demanda reprimida por troca de automóvel e gradual melhora nas condições de crédito deve sustentar um novo ciclo de crescimento, ainda que em ritmo mais moderado do que o observado no boom de 2014 ou na reabertura pós-pandemia.
