Vulnerabilidade externa brasileira remonta ao início do século XX

Para se desenvolver, Brasil teve que recorrer à poupança externa, dando início ao processo de endividamento do país

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SÃO PAULO – A vulnerabilidade da economia brasileira não é recente, remontando ao início do século passado, quando as exportações, especialmente de café, ditavam o ritmo do crescimento da economia do país.

Em meados do século, o comércio externo melhorou, com a diversificação da pauta de exportações, enquanto a dívida externa avança, principalmente a partir da década de 70, revelando a necessidade de recurso à poupança externa para alavancar o desenvolvimento do país.

No início do século, preço do café ditava variação do PIB

No início do século passado, a economia do país estava quase que completamente calcada nas exportações do café. Assim, o PIB (Produto Interno Bruto), variava de acordo com o preço da commodity no mercado internacional, alternando bom desempenho em um ano seguido pelo fraco resultado no ano seguinte, com o aumento da safra. Enquanto isso, as importações representavam a base da estrutura de consumo do Brasil.

Da década de 30 até os anos 70, o país passou por uma forte industrialização, promovida pela forte ação do Estado, através da adoção de um modelo de substituição de importações, modelo este dependente do financiamento conseguido com a exportação. Deste modo, a indústria nacional era protegida da concorrência externa e estava focada no mercado interno, o que a levou a não se industrializar para exportar produtos manufaturados, de maior valor agregado.

Deste modo, durante grande parte do século passado, a pauta de exportações brasileira estava praticamente baseada em dois produtos, que representavam cerca de 55% do total exportado – de longe, o principal produto era o café. Somente depois da década de 60, o país começou a abrir seu espectro de exportações, com o surgimento de novos produtos primários, como a soja e o ferro, e a redução da vulnerabilidade externa via balança comercial. Assim, os dois principais produtos primários passaram a representar menos de 10% do total de exportações.

Entretanto, enquanto a balança comercial começa a mostrar sensível melhora, com a diversificação da pauta de exportações, o endividamento externo passa a mostrar trajetória ascendente na segunda metade do século. O coeficiente de vulnerabilidade – expresso pelo número de anos de exportação necessários para o pagamento da dívida externa – variou muito a partir das primeiras décadas do século passado. No início, houve uma aceleração relativa do endividamento e na década de 30 houve problemas sérios com as dificuldades enfrentadas com as exportações, em razão da crise gerada pela quebra da bolsa de Nova York.

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Dívida externa ganha impulso a partir de 1968

Mas é a partir de 1968 que a dívida externa brasileira ganha impulso, refletindo a necessidade do recurso de poupança externa para viabilizar as altas taxas de crescimento do país que o governo militar planejava. Entre 1968 e 1973 ocorre o primeiro grande impulso da dívida, tendo em vista a elevada liquidez existente no mercado de eurodólares e a ação mais agressiva da indústria bancária em busca de novos clientes.

A partir da primeira crise do petróleo em 1973, houve um forte aumento no preço da commodity, elevando muito as receitas dos países Árabes. Assim, estes países começaram a inundar o mercado com recursos, que ficaram conhecidos como petrodólares, ampliando de sobremaneira a liquidez no sistema financeiro mundial.

Maior liquidez favorece endividamento

Simultaneamente, diante da crise de competitividade enfrentada pela indústria norte-americana, sobretudo dos produtos japoneses com o advento da produção enxuta, e dos altos déficits externos decorrentes dos altos custos da guerra do Vietnã, o Federal Reserve começou a estabelecer uma série de restrições à atuação dos bancos norte-americanos. Assim, o setor bancário do país começou um processo de internacionalização, dando o primeiro passo na criação do chamado euromercado, ampliando a oferta de crédito e levando à queda das taxas de juros, normalmente flutuantes, das operações de crédito.

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Deste modo, o setor privado, notadamente os bancos estrangeiros e as empresas multinacionais, foi o grande responsável pelas captações. Já a partir de 1974, o governo brasileiro lança um projeto de investimentos centrados nas empresas estatais, dando início à estatização da dívida externa brasileira.

Assim, de um padrão baseado no crescimento do setor de bens de consumo duráveis com alta concentração de renda, a economia deveria passar a crescer com base no setor produtor de meios de produção – bens de capital e insumos básicos. A lógica do modelo estava em que, conforme as empresas estatais avançassem, seus projetos de investimento no setor de insumos gerariam demanda que estimularia o setor privado a investir no setor de bens de capital.

Industrialização feita às custas de endividamento externo

A análise permite infererir que o processo de industrialização do Brasil foi feita às custas de pesado endividamento, na medida em que o país não contava com poupança interna para financiar essa modernização. Com grande papel do Estado, a dívida externa brasileira ganhou impulso a partir de 1968, aproveitando a ampla liquidez no mercado financeiro internacional.