Visto como solução nos EUA, protecionismo pode ameaçar recuperação da economia

Olhando desde 1930, economistas mostram que medidas devem aprofundar problemas, gerando uma nova depressão

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SÃO PAULO – As eleições presidenciais dos Estados Unidos geraram comoção mundial, vistas com esperança em diversas questões, inclusive em relação ao combate à crise. Depois do primeiro movimento do governo de Barack Obama – a tentativa de aprovar o pacote de US$ 850 bilhões – uma nova questão incomoda os mercados: o ressurgimento do protecionismo.

“Se você acredita que é preciso um pacote de estímulo para ajudar a economia norte-americana e global, vai ter de engolir, pelo menos temporariamente, a cláusula ‘buy American'”. A declaração do deputado democrata Brian Baird ao jornal O Estado de S.Paulo mostra a visão de muitos políticos dos Estados Unidos em relação a medidas protecionistas.

Presente nas cláusulas do pacote de Obama, as emendas do “buy American” condicionam o financiamento do governo a projetos de infraestrutura à utilização de ferro e aço produzidos no próprio país. Porém, embora tenha sido recebida com euforia pelos deputados democratas, a cláusula incomodou a comunidade internacional.

A oposição surge mesmo dentro dos Estados Unidos. “O protecionismo é o crack da economia”, afirmou o presidente do Federal Reserve de Dallas, Richard Fisher, em entrevista à rede de televisão C-Span. “Ele produz uma euforia imediata que leva à morte econômica”.

Pacote não será aprovado sem protecionismo

Porém, pelas palavras do deputado Baird, é possível perceber que principalmente a deterioração do mercado de trabalho levará os Estados Unidos a continuarem com as medidas. “Eu não vejo isso como retorno ao protecionismo. As pessoas precisam reconhecer que as circunstâncias são únicas. Estamos experimentando perdas de 60 mil, 70 mil empregos por semana”.

Conforme seus argumentos, se o objetivo do pacote de estímulo é criar empregos, eles devem ser prioritariamente nos EUA. “O contribuinte norte-americano não vai apoiar se dissermos que vamos contrair uma dívida enorme para comprar produtos feitos no exterior e criar empregos em outros países”, conclui.

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Esse ponto também pode ser rebatido pelo mercado. De acordo com a avaliação de Tobias Levkovich, analista do Citigroup, “enquanto pode existir um sentimento inicial de defesa e justificativa, o impacto no emprego provavelmente não será positivo”.

Protecionismo no mundo

Mas o apoio e adoção de medidas protecionistas não é prerrogativa apenas dos norte-americanos. As diversas medidas de recapitalização e nacionalização dos bancos tanto nos EUA como na Europa e no Reino Unido sofrem críticas, tendo sido motivo de discussão durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

A tendência de se fechar durante a crise é forte. No Brasil, um exemplo recente foi visto, com o governo exigindo licença prévia para a importação. Porém, aqui a medida foi cancelada apenas alguns dias depois de ter sido adotada, devido à oposição de parceiros comerciais do País e de companhias cujas produções dependem das importações.

“A ameaça de uma recessão mundial e quedas mais fortes de produção está aumentando as pressões protecionistas. Neste entorno delicado, os governos deveriam não só tomar muito cuidado para resistir a essas pressões, mas também ampliar incentivos ao comércio: diminuir tarifas e retirar outras barreiras comerciais”, defendem os economistas do Banco Itaú, Alfredo Binnie e John Welch. “No outro lado, se os governos do mundo não resistirem a este surto natural de protecionismo, estaremos diante da real possibilidade de uma nova grande depressão”.

O exemplo de 1930

As palavras dos economistas encontram apoio nos fatos passados. Observando as medidas norte-americanas durante a Grande Depressão, o consenso é de que o protecionismo adotado como solução acabou por piorar ainda mais a situação. Na época, o país aumentou as tarifas de importação através da legislação Smoot-Hawley Act levando à retaliação de outros governos e a uma onda protecionista mundial, que prejudicou as exportações dos EUA e afundou ainda mais a economia.

“Como foi o caso do ato de 1930, uma legislação protecionista pode se provar desestabilizadora e finalmente custosa para as empresas e empregos dos EUA”, argumenta Levkovich. Para ele, uma onda de protecionismo no país poderia causar pressão inflacionária em bens de baixo custo antes importados, o que prejudicaria as classes de baixa renda, além de levar os mercados emergentes que ainda estão crescendo a se fecharem para companhias norte-americanas.

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Por fim, o analista pede atenção à questão. Segundo ele, o avanço do protecionismo somado ao aumento do temor “poderia facilmente minar algumas das recentes melhoras vistas nos mercados de crédito”.