Venda de “crédito podre” ajuda empresas a reduzir a inadimplência

Iniciativa ainda incipiente no Brasil é bastante conhecida nos EUA; créditos são vendidos por 0,5% a 4% do valor de face

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SÃO PAULO – Apesar da maioria dos empresários brasileiros ainda não estar familiarizada com a prática, em países como os Estados Unidos a venda dos créditos podres é uma prática adotada pelas empresas para diminuir a inadimplência em sua carteira de clientes.

Em geral quando uma empresa tem valores a receber por um prazo acima de 90 dias já considera os valores como créditos podres, e o cliente como inadimplente. O grande problema é que muitas vezes, apesar de juntos estes créditos responderem por um valor significativo das vendas da empresa, em termos individuais são baixos, de forma que não vale a pena correr atrás dos maus pagadores.

Deságio significativo

Nestes casos, pode valer a pena vender esta carteira de créditos duvidosos para uma outra empresa, que passaria a ter o direito de cobrar estas dívidas e receber quaisquer valores eventualmente pagos por estes devedores.

Como era de se esperar, por se tratar de créditos de baixa probabilidade de recebimento, a venda em geral acontece por preços muito abaixo do valor de face das dívidas, mas para as empresas que já haviam considerado os créditos como perdas, é a chance de recuperar pelo menos parte do valor perdido.

Dentre as empresas que já recorreram desta prática está a Credicard, maior operadora de cartões de crédito do Brasil. No final do ano 2000, depois de tentar inutilmente receber créditos que juntos somavam R$ 400 milhões, a operadora decidiu pela sua venda destes créditos ao banco de investimento norte-americano, Goldman Sachs. O deságio foi bem alto e a Credicard recebeu apenas 4% do valor de face das dívidas, ou seja, o equivalente a R$ 16 milhões.

Mercado de R$ 100 bilhões

Nos EUA, existem até mesmo fundos especializados na administração deste tipo de carteira de crédito, mas no Brasil a iniciativa ainda é bastante recente. Em parte, a ausência de operações deve-se ao fato de que existem poucos compradores especializados com dinheiro a vista para comprar este tipo de crédito.

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Ainda assim, a venda de créditos podres pode-se transformar em uma ferramenta poderosa de gerenciamento de risco das carteiras de crédito de bancos, operadoras de cartão, financeiras, prestadoras de serviços e até mesmo varejistas.

O mercado de dívida podre brasileiro é estimado em R$ 100 bilhões, suficiente para atrair algumas empresas especializadas neste tipo de negócio ao Brasil. Este é o caso, por exemplo, da Gramercy, empresa norte-americana que atua no Brasil.

Fundo rendeu 2,1% ao mês

Segundo o administrador da empresa, Renato Mazuchelli, a preferência é por grandes carteiras de crédito. Na hora de analisar a carteira as empresas especializadas analisam o valor de cada dívida, assim como o perfil de risco destes créditos, em geral oferecendo entre 0,5% e 4% do valor de face da carteira vendida. As empresas de recuperação trabalham por resultado de forma que quanto mais recuperam, mais ganham em cima da carteira.

A Gramercy, que compra dívidas públicas, corporativas ou de pessoas físicas em países emergentes como o Brasil, repassa os ganhos obtidos com a recuperação dos créditos para os cotistas de um fundo, que já acumula ganhos de 155% desde abril de 1999, um ganho médio de 2,1% ao mês, muito superior ao retorno da maioria das aplicações no país. Negócio que obviamente não é recomendável às pessoas avessas ao risco!