Venda da CBA expõe disputa global por bauxita; o que muda para acionistas?

Desinvestimento parece consistente com uma estratégia contínua de rebalanceamento de portfólio da Votorantim

Felipe Moreira

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Fábrica da CBA (Imagens : Divulgação)
Fábrica da CBA (Imagens : Divulgação)

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A CBA (CBAV3), cujas ações subiram cerca de 45% no último mês, informou que sua acionista controladora, a Votorantim, concordou em vender sua participação de aproximadamente 69% na companhia para uma joint venture formada pela Chinalco (67%) e pela Rio Tinto (33%) por R$ 4,69 bilhões (US$ 904 milhões), o equivalente a R$ 10,50 por ação. O preço representa um prêmio de apenas 1,5% sobre o fechamento do dia, o que torna a transação neutra para a tese de investimento em ações e está alinhado com a avaliação de que o papel vinha sendo negociado com um prêmio de M&A após subir 100% no último ano. Já na sessão desta sexta-feira (30), às 10h28 (horário de Brasília), as ações CBAV3 caíam 1,26%, a R$ 10,36.

Segundo o UBS BB, o valor total da firma (enterprise value, EV) da operação é estimado em cerca de R$ 10 bilhões (US$ 1,95 bilhão), considerando a dívida líquida do terceiro trimestre de 2025, de R$ 3,3 bilhões, em linha com análises anteriores.

Com o alumínio a US$ 3.200 por tonelada, a estimativa é de que a CBA gere cerca de R$ 2 bilhões em EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) em 2026, o que implica um múltiplo de aproximadamente 5 vezes EV/EBITDA, considerado justo.

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O UBS BB destaca que a governança corporativa da CBA garante direitos de tag along aos acionistas minoritários, o que leva à expectativa de que a empresa seja deslistada da bolsa brasileira em breve, menos de cinco anos após seu IPO (oferta pública inicial).

A XP Investimentos avalia que o anúncio reforça a perspectiva positiva que já previa para as ações. A transação está alinhada com o objetivo mais amplo da China de garantir acesso de longo prazo à bauxita.

De acordo com a XP, Austrália e Guiné continuam sendo os principais centros globais de fornecimento de bauxita e, portanto, essa aquisição oferece à China a oportunidade de diversificar os canais de suprimento e fortalecer o controle upstream dentro do ecossistema global da mercadoria.

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Nesse contexto, a aquisição da CBA pode ser vista como uma medida da Chalco para aprofundar seu acesso a recursos de bauxita de alta qualidade e aumentar a resiliência da cadeia de suprimentos por meio do portfólio da CBA, incluindo o projeto Rodon.

Para a Votorantim, o desinvestimento parece consistente com uma estratégia contínua de rebalanceamento de portfólio. O grupo tem reduzido gradualmente a exposição a commodities cíclicas enquanto realoca capital para infraestrutura e utilidades, principalmente por meio da Motiva e da Auren. A venda de sua participação majoritária no CBA, portanto, se encaixa em uma mudança mais ampla para negócios mais estáveis e com retorno regulado, em nossa visão.

A XP ainda comenta que os compradores podem posteriormente lançar uma oferta obrigatória para adquirir os 31,4% restantes de free float após o fechamento do acordo, implicando um valor total de ações de R$ 6,8 bilhões, EV/EBITDA (valor da firma sobre EBITDA) implícito de 2026 entre 5,5 vezes e 6,0 vezes. Espera-se que o veículo operacional brasileiro seja estruturado como uma joint venture, com a Chalco detendo 67% e a Rio Tinto os 33% restantes.

Já a Genial Investimentos destaca que se trata da maior transação do setor de alumínio no Brasil em anos, realizada em um momento em que a CBA apresenta alavancagem próxima de três vezes o EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e restrições de capex (investimentos) para projetos de crescimento, como o Projeto Rondon.

Para a Chinalco, o negócio marca a entrada na América Latina com um ativo verticalizado e acesso estratégico à bauxita, enquanto para a Votorantim, a venda faz parte do rebalanceamento de portfólio, com redução de exposição a commodities e maior foco em infraestrutura e utilities.