Fato Real

Vazio político e inércia geral

Neste contexto de vazio político, há uma "coisificação" do espírito cívico que confunde o ato de protesto efêmero com o ato duradouro e permanente da mudança de patamar que o Brasil necessita

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Triste a sina de um país que abandona a Política como instrumento de elevação da participação social nas decisões do Estado e como forma de repartição do Poder dentre os grupos que apoiam o governo.

No caso do Brasil não se trata de sina construída pelas pitonisas do belo cenário do Templo de Delfos. De fato, o governo atual e, com efeito, a sociedade colhem os resultados de uma política econômica que pecou em variáveis primárias da administração do Estado, sobretudo na área econômica, na gestão da coisa pública e nas práticas de aliciamento e inclusão política dos partidos políticos na administração governamental, inclusas as empresas estatais. A administração anterior da Presidente Dilma Rousseff careceu de visão estratégica, sem dúvida. Sequer se aproximou desta tarefa. Ademais, nos quatro anos do primeiro mandato errou em matérias primárias da gestão econômica, no respeito às equações e identidades mais básicas de uma política econômica – qual esta fosse.

Agora, o governo e a presidente tentam nortear os rumos do país em bases novas e, em princípio, corretas. Neste tema não há que se atribuir ao governo e seu ministro da Fazenda, especial inteligência governativa. Retomam, tão somente o leito normal da política econômica. Permanece, contudo, a vastidão das necessidades estratégicas permanece, com pouca evolução, nos últimos trinta anos, relativamente às transformações que o mundo registrou. Há, em meio a este contexto, aqueles que creem, como ato de fé medieval, que tais transformações neste país analfabeto, atrasado tecnologicamente, sem indústria competitiva, sem segurança jurídica suficiente à modernidade, sem saúde pública (e privada) à altura da cidadania, sem igualdade regional razoável, sem uma universidade que seja “respaldo crítico” das necessidades sociais, sem segurança pública etc., etc., etc., possam ocorrer sem que o Estado brasileiro atue em novas bases políticas, econômicas e sociais. Refiro-me ao falso liberalismo que esconde as pretensões oligárquicas que mantém a desigualdade de oportunidades e que mina, por sua vez, o verdadeiro e consistente desenvolvimento nacional.

Com efeito, a paralisia atual do Estado, em todas as esferas de Poder, e do governo recém-eleito é verdadeiramente apavorante. Seremos em breve (mais vinte anos) um país envelhecido e pobre.

O vazio político com o qual nos defrontamos ganha força inercial, motivado pelos maus humores (justificados) das multidões que desfilam nas zonas nobres das cidades sem saber para que lugar seguir. Impressiona que a imaginação coletiva, neste momento, possa crer que a Política não é necessária. Não se percebe que as reuniões programadas nas denominadas “redes sociais” exigem fluência nas vias políticas, formais e informais, que resultem em ação transformadora. Há uma “coisificação” do espírito cívico que confunde o ato de protesto efêmero com o ato duradouro e permanente da mudança de patamar que o Brasil necessita.

Neste contexto de vazio político e manifestações infrutíferas das multidões, a presidente da República, vejam só!, sumiu, o Congresso marcha ao som da música tocada por Eduardo Cunha e Renan Calheiros e o Judiciário hesita entre o traço jurídico e a sedição. Prospera, isto sim, um pensamento arcaico e reacionário em relação aos temas públicos mais legítimos. Na economia, a legitimidade da política econômica passa por uma transferência de mais de 6% do PIB em juros para os rentistas e o “financismo” toma forma ideológica para convencer a todos que há “somente um caminho possível”. Sem a Política, os pré-conceitos econômicos tomam forma acabada em nome do “livre mercado”, da “liberdade econômica”, da “eficiência privada e a incompetência pública”. Tudo um quadrante de dogmas em pleno século XXI. Em verdade, acaba o debate que permite que dos “contrários” surja o “novo” que pode levar o país à frente. Está feita a unanimidade, outrora considerada burra, agora o “estado da arte” a ser adotado.

No Brasil de agora, Roosevelt, Churchill, Keynes e o Papa Francisco não poderiam existir porquanto enfrentar barreiras ou é “tarefa inútil” ou é “impossível”. A utopia acabou por força da ideologia vigente.

A presidente Dilma é o símbolo perfeito e odiado destes tempos. Todos dela reclamam, com muita razão, mas na hora de propor algo de novo, ouve-se a mesma ladainha de sempre. E tome ideologia fajuta para a turba se divertir.

Como disse um importante e conhecido advogado a este colunista: “O Brasil não tem jeito. Melhor seria declarar guerra aos EUA e colher a derrota. Seríamos colonizados e, assim, o Brasil se tornaria potência.”

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Prefiro a inquietante e necessária pergunta desta hora difícil: será?