Valor justo: comparando mercado a vista e futuro

A adoção do conceito de valor justo facilita a comparação entre os mercados a vista e futuro, permitindo prever o patamar de abertura do mercado a vista

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SÃO PAULO – Para aqueles que conhecem a utilidade de acompanhar o desempenho dos contratos futuros de S&P 500 e Nasdaq 100 negociados na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CME) para buscar uma orientação quanto à tendência do mercado de ações, é importante conhecer o conceito de valor justo.

Como descrito no artigo Saiba como funciona o mercado norte-americano fora do horário das bolsas, o mercado futuro da CME permite ao investidor acompanhar a tendência de momento do mercado de ações norte-americano, mesmo fora do funcionamento regular das bolsas de valores, como a NYSE e a Nasdaq. Como os contratos futuros são negociados quase que 24 horas ao dia, qualquer evento que ocorra fora do horário de funcionamento das bolsas de valores já é refletido no preço dos futuros, permitindo entender qual é a tendência de abertura dos índices de ações.

Valor justo serve para eliminar distorções entre mercado a vista e futuro

O contrato futuro não é nada mais do que um instrumento que permite a negociação de um determinado ativo em uma data pré-determinada (data de vencimento do contrato) a um preço definido pelo mercado. Neste sentido, ele é muito parecido com o mercado a vista, com a diferença de que no mercado a vista a data é agora e no mercado futuro a data é o vencimento do contrato. Na CME, os contratos de índices têm vencimentos em março, junho, setembro e dezembro.

Desta forma, existem duas diferenças básicas entre comprar no mercado a vista e no mercado futuro. Para montar uma carteira, digamos do Nasdaq 100, você necessitaria comprar as 100 ações que compõem o índice, o que poderia ser feito com dinheiro tomado emprestado junto a um banco. Porém, para tal, você teria que levar em conta o custo de financiamento, o que não ocorre no mercado futuro, onde o valor nominal do investimento não é desembolsado no ato da compra. Assim, a primeira diferença é que nos investimentos no mercado a vista existe um custo financeiro a ser levado em consideração, o que não ocorre (excluindo-se os custos de margens) no mercado futuro.

A segunda grande diferença é que, ao comprar ações, você recebe qualquer dividendo pago por estes papéis, o que não acontece quanto você compra um contrato futuro de qualquer índice de ações que este papel faça parte.

Custo de financiamento e proventos explica valor justo

Deste modo, podemos chegar ao valor justo simplesmente somando o custo do financiamento e subtraindo os custos dos proventos da cotação do mercado futuro. Após este ajuste, a comparação entre o mercado à vista e futuro fica mais precisa, permitindo que o investidor identifique a tendência de abertura do mercado a vista através das cotações dos contratos futuros.

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Este também é o mecanismo básico que explica as transações de arbitragem realizadas por diversos investidores entre mercado à vista e mercado futuro. Como o principal elemento a ser considerado é a taxa de financiamento, em países como o Brasil onde as taxas de juros são elevadas, o ajuste será sempre maior. Nos EUA a taxa usada como referência é geralmente a Libor de 3 meses.

Exemplo prático no mercado norte-americano

Vamos considerar um caso onde o S&P 500 fechou a 1.089,12 pontos na terça-feira, enquanto o futuro (que fecha 15 minutos depois) encerrou o dia a 1.145,78. De acordo com a fórmula acima, o valor justo seria 1.150,75, ou na linguagem dos operadores norte-americanos, mais 5 (1.150,75 – 1.145,78). Já no dia seguinte, o futuro encerrou seu pregão estendido, que começa as 16h45 e termina as 9h15 de Nova York, a 1.157,78, o que indica um ganho de pouco mais que 7 pontos em relação ao valor justo.

Assim, a expectativa é que o mercado a vista, que abre as 9h30, inicie suas atividades como uma alta de cerca de 7 pontos, ou cerca de 0,63%, cotado em torno dos 1.153 pontos. Para quem acompanha também o índice Dow Jones, há uma relação que geralmente funciona, que indica que para cada variação de 1 ponto no S&P 500, o Dow move-se 8 pontos, já levando em consideração os patamares dos dois índices.