Vale (VALE3): transformação maior deve ocorrer em 2026, mas analistas seguem positivos ao olhar para próximo ano

Mesmo com volumes mais baixos de níquel, investimentos mais altos e deflação de custos menor, a abordagem da administração foi vista como positiva

Lara Rizério

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Em um contexto de recuperação dos preços do minério de ferro, mas ainda com incertezas sobre a força da demanda da China, a Vale (VALE3) realizou o seu Investor Day em Londres na última terça-feira (5), trazendo algumas projeções abaixo do esperado sobre produção para 2024, enquanto vê uma inflação desacelerando a ritmo mais lento e investimentos mais altos.

“Destacamos os investimentos, que devem ser maiores para 2024, na ordem de US$ 6,5 bilhões, 8% acima do projetado para 2023. Já os custos continuam elevados em 2024, em linha com o reportado ao longo deste ano”, apontou a Levante Corp em relatório.

Ao mesmo tempo, a mineradora focou no evento em sua visão de negócios até o ano de 2026. Se para o próximo ano a companhia prevê produzir entre 310 milhões e 320 milhões de toneladas de minério de ferro, ante aproximadamente 315 milhões de toneladas estimadas em 2023, para 2026 o objetivo é aumentar a produção de minério de ferro para 350 milhões de toneladas ao ano.

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O aumento da capacidade de produção deve ocorrer através das unidades de Vargem Grande, Capanema e S11D, no Pará.

Com relação aos custos totais de minério de ferro, a empresa estima que fiquem por volta de US$ 55 por tonelada em 2024 e espera atingir um patamar de US$ 45 por tonelada em 2026.

Já os custos de cobre deverão permanecer ao longo dos próximos anos, enquanto os custos do níquel devem apresentar tendência de queda em 2024, e redução de cerca de 25% em 2026.

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Outro tema de grande relevância destacado pela mineradora é a recuperação operacional da Vale Base Metals (VBM).

A Vale estimou produção de 165 mil toneladas de níquel em 2023, ante meta de 160-175 mil toneladas para o ano. Para 2024, a companhia estimou intervalo também entre 160 mil e 175 mil toneladas.

Já para o cobre, a mineradora estimou produção de 325 mil toneladas em 2023, ante meta de 315-325 mil toneladas para o ano, enquanto para 2024 prevê intervalo entre 320 mil e 355 mil toneladas em 2024.

Recentemente, a companhia realizou um spin off de sua unidade de metais básicos, em iniciativa que visa trazer mais ferramentas para destravar valor de seus ativos.

A companhia tem boas perspectivas para o crescimento da demanda por esses metais para a fabricação de baterias para carros elétricos, enquanto o mundo busca formas de eletrificar os transportes, rumo à transição energética.

Segundo analistas do RBC, as metas de produção para metais básicos ficaram “bem abaixo” de suas projeções e do consenso de analistas e “sugerem que a tão esperada recuperação ainda demorará um pouco mais”.

Durante o evento, o presidente da Vale, Eduardo Bartolomeo, afirmou que quer deixar como legado uma companhia com mais segurança e citou diversas iniciativas nessa linha. Além disso, afirmou que a empresa quer assinar acordo de reparação sobre rompimento de barragem da Samarco em Mariana, ocorrido em 2015, em termos similares ao alcançado em Brumadinho.

A estimativa fornecida sobre desembolsos relacionados a Brumadinho/Samarco deve permanecer em cerca de US$ 3 bilhões até 2025, e ser gradualmente reduzida até 2028, quando deverá atingir uma média anual de US$ 400 milhões (2028-35). Para 2026, a projeção é de US$ 1,9 bilhão.

A Vale também reforçou sua abordagem disciplinada de alocação de capital; desde 2020 já pagou yield de dividendos de 46%.

Em relatório, a XP destacou os três pontos principais sobre o evento: (i) um guidance atualizado para diversas métricas, com números um pouco piores em relação às suas estimativas no curto prazo (principalmente em custos mais elevados, menores volumes de cobre e maiores investimentos); (ii) mais detalhes sobre seus projetos de expansão para alcançar aumento de produção de minério de ferro, cobre e níquel esperado até 2026; e (iii) mais detalhes sobre o processo de reparação de Mariana e Brumadinho.

“Por fim, embora o guidance atualizado tenha sido um pouco mais fraco em relação às nossas estimativas, acreditamos que os fundamentos da indústria siderúrgica na China deverão apoiar os preços do minério de ferro (e, portanto, as ações da Vale) em níveis mais elevados no curto prazo, refletindo indicações recentes mais expressivas de estímulos do governo na China e uma perspectiva restrita de oferta e demanda para o minério de ferro”, destacam os analistas da casa.

Na mesma linha, o Bradesco BBI também vê que a dinâmica dos preços do minério de ferro deve permanecer forte, com a demanda chinesa resiliente e a demanda global (ou seja, excluindo a China) melhorando em 2024.

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“Do lado negativo, a orientação de volume não atingiu nossas estimativas, enquanto os volumes de médio prazo de metais básicos (2026) também foram revistos em baixa”, pontua.

Além disso, a orientação de Custo dos Produtos Vendidos (CPV) caixa para o negócio de metais básicos também ficou acima do que se esperava, enquanto os custos C1 (que é o custo de produção e frete da mina até o porto) para o minério de ferro ficaram em linha com o esperado (em torno de US$ 22,25/tonelada para 2024, considerando o ponto médio do guidance).

Para o BTG Pactual, apesar das projeções fornecidas pela companhia poderem resultar em “fontes marginais de decepção”, levando em conta volumes mais baixos de níquel, investimentos pouco mais altos e uma deflação de custos possivelmente menos agressiva para 2024, a abordagem da administração é positiva. Isso por evitar o dilema de “promessas excessivas” e de entregas abaixo das expectativas posteriormente.

“Acreditamos que as metas de longo prazo parecem altamente factíveis (somente depende da execução da empresa). Embora acreditemos que a administração está falando sobre um caminho para 2026, vemos espaço limitado para progresso material nos principais KPIs [indicadores de desempenho] até 2024 (volumes e custos de minério de ferro amplamente estáveis ano a ano)”, aponta a equipe de análise.

O banco ressalta assim que o avanço na história do equity da Vale (numericamente) deverá ocorrer em 2026, e acredita que houve um progresso tangível no estabelecimento dos fundamentos para uma empresa muito mais lucrativa no futuro. “Entretanto, considerando que os mercados de minério de ferro estão apertados (o mercado transoceânico está em déficit) e os preços estão ajudando – acreditamos que os lucros da Vale deverão acelerar até 2024 e esperamos que as ações
‘recuperem’ os fundamentos”, reforça.

Visões em geral positiva para as ações

Assim, enquanto as projeções para o curto prazo ainda parecem mornas para a empresa, analistas destacam no geral uma visão positiva para as ações, apesar de cortarem algumas estimativas.

O Goldman Sachs cortou o preço-alvo do ADR (recibo de ações, na prática os ativos negociados da empresa nos EUA) de US$ 19,50 para US$ 18,50 de forma a incorporar as novas projeções de produção, custos e investimentos para os próximos anos após o evento, mas manteve recomendação de compra. Com o novo preço-alvo, o potencial de valorização da mineradora brasileira é de 25% em relação ao fechamento da véspera.

“Não houve surpresa nas projeções para minério de ferro – a produção e o custo ficarão estáveis em 2024, mas reduzimos o preço-alvo em 5% devido a uma produção pior do que esperávamos, além da expectativa de custos para metais básicos em 2024 e 2026, que permanecerá instável e pode queimar caixa, além desembolso acima do esperado relacionado ao acidente da Samarco”, apontou o banco.

A Levante segue com visão positiva, ressaltando que, mesmo com a companhia esbarrando em problemas operacionais, a fortaleza da Vale segue sendo o minério de ferro de elevada pureza, que continua garantindo à mineradora uma alta rentabilidade.

“A gestão espera aumentar a diversificação do seu faturamento, através dos negócios de metais ligados à transição energética, predominantemente níquel e cobre, isso deve ocorrer com maior intensidade entre 2026 a 2030, por meio de projetos que ainda estão em fase de execução”, aponta ainda.

A casa de research avalia que, em linhas gerais, a Vale segue negociando com um valuation atrativo e com boas perspectivas para os próximos anos, sendo impulsionada pelas metas de crescimento de PIB (Produto Interno Bruto) da China que atualmente giram em torno de 5% ao ano. Por conta das pretensões de crescimento do governo chinês, o minério de ferro, principal produto da companhia, continua com demanda elevada no mercado internacional.

O Bradesco BBI mantém a VALE3 como principal recomendação no setor. “Acreditamos que a forte dinâmica do minério de ferro deverá continuar a impulsionar os resultados da Vale, enquanto a empresa continua a buscar medidas de eficiência nas divisões de minério de ferro e de metais básicos”, avalia, ressaltando ainda o valuation atrativo.

A Vale continua sendo a principal tese no setor de mineração & siderurgia também para o BTG. Assim como a Levante, o banco lembra que a Vale passou por uma série de contratempos operacionais nos últimos trimestres, o que tem impactado o sentimento sobre a tese. Mas a equipe de análise avalia estar cada vez mais confiante de que o pior momento operacional da empresa ficou para trás e que a produção/volumes e o desempenho dos custos deverão continuar a melhorar gradualmente no futuro.

“Acreditamos que há muito pouco benefício micro (execução) precificado nas ações neste momento”, aponta. Assim, prevê que o 4T melhorará em todas as frentes: volumes, preços e custos – melhor momentum de resultados dentro da sua cobertura.

“A Vale também continua sendo um dos nossos nomes preferidos para exposição à reaceleração da economia chinesa, à medida que o governo se esforça para atingir sua meta de crescimento de aproximadamente 5% para o ano (as medidas de estímulo deverão continuar a ser desencadeadas). Os preços do minério de ferro continuam se mantendo bastante atraentes (já em cerca de US$ 130 a tonelada), com perspectivas de demanda saudável por parte da indústria siderúrgica chinesa”, aponta.

Já para a XP, o evento atenua parcialmente as preocupações com custos para a Vale, com o anúncio recente de dividendos de US$ 2,0 bilhões refletindo o conforto da empresa na geração de fluxo de caixa e na conclusão da transação da Vale Metais Básicos, em nossa opinião. Porém, dadas (i) expectativas mais baixas para os preços do minério de ferro no futuro e (ii) a Vale já está precificando preços mais baixos do minério de ferro, a casa reitera visão neutra sobre as ações.

(com Reuters)

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.