Vale (VALE3) divide analistas após rali: momento de otimismo ou de cautela?

Ações da mineradora subiram mais de 24% no ano e investidores se questionam sobre a continuidade do rali

Felipe Moreira

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Logotipo da mina Brucutu, propriedade da mineradora brasileira Vale, em São Gonçalo do Rio Abaixo - 04/02/2019 (Foto:  REUTERS/Washington Alves)
Logotipo da mina Brucutu, propriedade da mineradora brasileira Vale, em São Gonçalo do Rio Abaixo - 04/02/2019 (Foto: REUTERS/Washington Alves)

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Apesar da recente valorização das ações da Vale (VALE3), com os ADRs (recibos de ações negociados nos EUA) acumulando alta de 24% no ano, o Itaú BBA acredita que a empresa continuará se beneficiando de um momento positivo, sustentado pela tese de desvalorização das moedas, com investidores buscando ativos reais, além de tendências operacionais favoráveis.

O BBA reiterou recomendação de outperform (desempenho acima da média, equivalente à compra) e elevou o preço-alvo para US$ 19,00 por ação, contra US$ 14,00 anteriormente. Na última terça-feira (2), as ações VALE3 subiram 4,92%, a R$ 88,99, com salto de 23% somente em 2026.

O BBA espera que o bom momento persista, impulsionado por fortes melhorias operacionais, pela tendência de desvalorização das moedas e pela entrada de capital estrangeiro no Brasil.

Viva do lucro de grandes empresas

O interesse dos investidores pela mineradora aumentou de forma relevante, refletindo não apenas as melhorias operacionais, mas também o impulso macroeconômico mais amplo, especialmente a retomada da demanda por exposição a ativos reais e a mercados emergentes.

Nesse ambiente, segundo o BBA, a Vale naturalmente se destaca como uma das principais beneficiárias da entrada de recursos no país, dado seu peso significativo no mercado acionário local (cerca de 11,7% do Ibovespa) e sua forte aderência à narrativa de ativos reais e desvalorização cambial.

Com o posicionamento local ainda relativamente baixo e a participação estrangeira em tendência de alta, analistas acreditam que a dinâmica de fluxos deve continuar favorável, permitindo a extensão da recente valorização dos papéis.

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Além disso, o Itaú BBA elevou as projeções de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2026 e 2027 para incorporar preços mais altos dos metais básicos, que mais do que compensam as revisões negativas na divisão de ferrosos, em função de menores volumes.

O Ebitda deve atingir US$ 18 bilhões em 2026, 7% acima da projeção anterior, principalmente em função do impacto de marcação a mercado da recente alta dos preços dos metais básicos. Para metais básicos, o Ebitda esperado é de US$ 5,1 bilhões em 2026, um aumento de 57% em relação à estimativa anterior. Para 2027, a estimativa é de EBITDA de US$ 18,6 bilhões, 4% acima da projeção anterior.

O BBA ainda espera que o ritmo de desalavancagem se acelere a partir deste ano, abrindo espaço para dividendos extraordinários. O banco prevê que a Vale encerrará 2026 com dívida líquida expandida de US$ 15,7 bilhões. Considerando apenas pagamentos mínimos de dividendos (com yield, ou rendimento, médio de 6%), o banco projeta que a dívida líquida expandida recue para US$ 14,5 bilhões em 2027 e US$ 12,5 bilhões em 2028, abaixo da meta da companhia, criando assim espaço para distribuições extraordinárias.

Por outro lado, a Genial tem uma visão mais cautelosa para mineradora, com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 90, pois vê que a forte valorização recente já eliminou o desconto anterior nos papéis e deixou a companhia negociando próxima ao que consideram seu valor justo.

Segundo o relatório, após uma alta de cerca de 55% em seis meses – com aproximadamente dois terços desse movimento concentrados nos últimos 60 dias, impulsionada por fortes fluxos estrangeiros para a bolsa brasileira e pela reprecificação do minério de ferro -, o chamado equity catch up estaria concluído.

Na avaliação da Genial, o valor de mercado da companhia encontra-se hoje alinhado ao valor justo. O FCF yield (retorno do fluxo de caixa livre em relação ao valor da ação) projetado para 2026 recuou para 9%, ante 14% anteriormente, o que representa uma compressão de cinco pontos percentuais em apenas dois meses.

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Em termos de múltiplos, o EV/Ebitda (valor da empresa em relação ao Ebitda) estimado para 2026 está em 5,3 vezes, levemente acima da média histórica de 5 vezes, indicando que o desconto observado anteriormente foi eliminado. Já o dividend yield (retorno em dividendos ao acionista) projetado para 2026 caiu para cerca de 8%, ante 12% antes.

Além das questões de valuation, os analistas da Genial ponderam que os recentes episódios de extravasamento de água ocorridos em 25 de janeiro nas operações de Fábrica (MG) e Viga (MG) geraram ruído de curto prazo, mas não justificam, por ora, uma revisão estrutural da tese de investimento.

Segundo o relatório, os eventos foram causados por chuvas intensas e se originaram em cavas de mineração, e não em barragens de rejeitos. Não houve envolvimento de rejeitos, vítimas ou impactos a comunidades locais, o que torna exageradas as comparações com os desastres de Mariana e Brumadinho.

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Embora o episódio ambiental seja visto como incomparável às tragédias passadas, a Genial Investimentos avalia que ele representa um risco marginal adicional e, combinado com a forte alta recente e a compressão dos indicadores de retorno, reforça a decisão de manter postura cautelosa com a ação neste momento, sustentando a recomendação neutra.

De acordo com os analistas que cobrem a ação da VALE3, segundo compilação da LSEG, 9 possuem recomendação de compra, enquanto 6 possuem recomendação neutra. O preço-alvo, por sua vez, é de R$ 78,10 em sua média, valor 12,2% menor frente o fechamento da véspera, mostrando a forte alta recente dos ativos – e as revisões não conseguiram acompanhar.