Perspectivas

Vale (VALE3), CSN (CSNA3), Suzano (SUZB3): commodities sobem, mas é hora de investir em companhias desses setores?

Apesar boom atual, quem quer aportar em companhias do setor deve se atentar à dinâmica dos preços e às margens das companhias

Por  Vitor Azevedo -

Nos últimos meses, as commodities tiveram alta generalizada dos seus preços, com algumas delas recuperando-se das baixas do ano passado. A guerra na Ucrânia e o fato de a China ter sinalizado e realizado estímulos à sua economia estão entre os fatores que impulsionam os custos dessas desses produtos não manufaturados para cima. 

Isso não quer dizer, no entanto, as companhias que produzem produtoras de commodities estejam totalmente confortáveis – analistas ainda continuam a monitorar algumas questões que podem pesar do outro lado da balança. 

Apesar das altas, quem quer aportar em companhias que trabalham com commodities precisa entender a dinâmica desses produtos. Apesar de o preço da maioria vir subindo, isso não quer dizer que as altas se estenderão ou que o maior faturamento com vendas necessariamente se tornará lucro.

Para minério de ferro, cenário para os preços é negativo

Para o minério de ferro, por exemplo, o Bank of America ouviu especialistas do setor que apontaram um cenário que exige cautela. Para vários deles, assim como o início da guerra no leste europeu impulsionou aquilo que é pago pela tonelada da commodity em grande velocidade, o seu fim pode causar o movimento reverso. 

“Os investidores estão preocupados com a natureza binária de alguns desses fatores exógenos – particularmente o conflito Rússia-Ucrânia, visto que o fim desta crise deve deflacionar os preços das commodities”, explicam em relatório Caio Ribeiro, Guilherme Rosito and Leonardo Neratika. 

Segundo os analistas do BofA, a maioria dos especialistas ouvidos pela casa não vê muitos motivos para permanecer comprado em minério no momento e também não vê os preços atuais se sustentando por muito tempo – na véspera, o preço do minério spot com 62% de pureza negociado no porto de Qingdao ultrapassou os US$ 160 a tonelada, um avanço de mais de 30% no acumulado do ano. 

“A maioria dos investidores não vê razões fundamentais para justificar os preços atuais do minério de ferro”, afirmam Ribeiro, Rosito e Neratika. De acordo com eles, os especialistas consultados têm, majoritariamente, visão de que a demanda na China irá cair, de que os estoques estão altos e de que o setor de construção do gigante asiático recuará em 2022 – elementos que, normalmente, pesam contra sobre a demanda. 

Todos esses fatores negativos seriam, contudo, remediados pela possível liberação de estímulos econômicos pelo governo chinês. Parte da crença que dá apoio aos preços é que a busca por atingir a meta de crescimento de 5,5% da economia leve as autoridades do país a afrouxarem a política econômica e monetária. Por 2022 ser um ano crucial para o atual presidente chinês Xi Jinping, uma vez que há as eleições do Partido Comunista da China no segundo semestre, essa convicção ganha força. 

Contudo, os analistas avaliam notar “uma falta geral de confiança de o nível atual de preços, entre US$ 150 e US$ 155 a tonelada, se manter e percebemos que os investidores estão antecipando mais estímulos à frente”, explicam. 

Esse movimento de especulação com do minério, baseado nos prováveis estímulos econômicos, já incomodou até mesmo o próprio governo chinês, que tentou barrar a alta dos contratos futuros da commodity. 

De acordo com o que foi escutado pelo BofA, a questão, então, é que há muitos riscos englobados na sustentação do atual valor do minério. Além deste se explicar em grande parte por conta da especulação, um possível fim da guerra da Ucrânia ou uma piora da covid-19 na China podem afetar as expectativas e, decorrentemente, impactar as empresas do setor.

O Morgan Stanley, por sua vez, optou por retirar de vez a definição de “atrativas” das companhias de mineração e de siderurgia para colocar a visão de que elas estão “em linha”.

Os motivos que justificam a mudança para os analistas do banco foram um pouco diferentes dos apresentados pelo BofA – eles avaliaram cenários parecidos com o atual ao longo da história recente, com inflação alta e baixo crescimento global, e detectaram cinco ocasiões semelhantes, em que essas duas características se cruzam. Nestas, as companhias do setor de mineração e siderurgia apresentam desempenho pior do que o mercado de ações no geral. 

Carlos de Alba, Jens Spiess e Ricardo Monegaglia Neto, que assinam o documento do Morgan Stanley, assim como os analistas do BofA, também veem o preço do minério de ferro caindo progressivamente – para 2023, o panorama é que a tonelada chegue a US$ 110 e  em 2024, a US$ 66. 

Ambos os bancos, em comum, colocam as ações da Vale (VALE3) e da CSN Mineração (CMIN3) com perspectivas neutras. O Morgan tem preços-alvos respectivos de R$ 22 e R$ 6,50 para as ações. 

Para o setor de siderurgia brasileiro, o BofA, ao escutar especialistas, obteve uma visão menos pessimista, ainda que em um cenário deteriorado. Apesar da provável queda de vendas para a China, é provável que as importações para o Brasil diminuam, por conta da guerra da Ucrânia, o que deve abrir espaço para as companhias nacionais no mercado interno. 

A Gerdau (GGBR4) é a favorita do setor – enquanto os investidores veem a Usiminas (USIM5) com suas margens diminuindo por conta dos maiores gastos com carvão. A Gerdau utiliza fornos elétricos e está mais bem protegida dos gastos. 

Os analistas do Bradesco BBI, do outro lado, mantêm suas visões positivas para as companhias – e reiteraram, em relatório publicado no final de março, recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para as ações da Vale, da Usiminas, CSN (CSNA3) e CSN Mineração (CMIN3). 

O banco brasileiro pontua que a capacidade utilizada das siderúrgicas chinesas aumentou 3,6 pontos percentuais após o fim dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, chegando a 85,43%. 

Para mais, há a constatação de que os preços do aço também vêm aumentando e os estoques detidos por traders e usinas, caindo. 

“A produção doméstica de minério de ferro da China atingiu uma alta de 6 meses nos últimos quinze dias, embora a MySteel tenha relatado que algumas mineradoras já estavam sendo impactadas por restrições relacionadas ao Covid-19 até o final da semana passada”, justificam. 

Celulose deve avançar, mas gastos das empresas podem comprimir margens

Para o mercado de papel e celulose, Morgan Stanley e investidores ouvidos pelo BofA têm visões diferentes. 

“Nosso feedback das recentes verificações de canal com comerciantes de celulose, empresas de celulose e fabricantes de papel na China tem sido muito otimista”, afirmam os analistas do BofA. 

Eles destacam, no relatório, que as recentes interrupções no sistema de logística global, com a guerra e com ainda resquícios das restrições mais severas da pandemia, devem mais do que compensar o aumento da oferta prevista para esse ano, previsto para algo entre 2 milhões de toneladas e 2,1 milhões. 

Além disso, a visão atual é que os estoques de celulose estão baixos, tanto para o produtor quanto para o consumidor, e os prazos de entrega na China já foram estendidos de 45 a 60 dias para algo entre três e quatro meses. 

“Os preços da celulose HW (hardwood, de fibra curta) na China atingiram o pico de US$ 780 a tonelada nos últimos dois ciclos de alta e acreditamos que desta vez esses níveis de preços devem se manter e podem até aumentar mais”, defendem.  “Os estoques estão mais baixos do que nos ciclos anteriores, os problemas de logística continuam piorando e as adições de oferta em 2022 não são mais uma grande preocupação”.

Atualmente, o preço da fibra da celulose cobrado pela Suzano (SUZB3), por exemplo, está em US$ 790 a tonelada na China. Para o BofA, a perspectiva é que a fibra fique em algo próximo de US$ 719 ao longo de 2020.

Para o Morgan Stanley, no caso de os produtos florestais russos perderem permanentemente suas certificações, algo visto como possível, a perspectiva é que o mercado fique apertado por mais tempo. “Para o preço líquido da fibra na China, estamos atualizando nossas projeções para 2022 para US$ 850 a tonelada”, pontuam. 

Alta da celulose, porém, não é certeza de alta das companhias

Apesar de as projeções para o preço da celulose serem positivas, no geral, a perspectiva para as companhias brasileiras do setor não são exatamente unânimes. 

“Embora os investidores com quem falamos tenham reconhecido que o sentimento dos participantes da indústria está muito otimista, notamos uma falta geral de confiança para para essas ações”, pontua o BofA. 

Segundo eles, apesar dos problemas logísticos e da forte demanda, ilustrada pela demora na entrega, investidores também estão levemente receosos com a possibilidade da permanência dos preços nos patamares atuais. “Em nossa visão, essa percepção só mudará se os aumentos de preço do papel forem implementados com sucesso durante os próximos meses”, explicam os analistas. 

Entre os riscos para a consolidação do preço da celulose, está, principalmente, a redução dos gargalos logísticos ou até mesmo o fim da guerra da Ucrânia.

Mais do que isso, o BofA pontua que as companhias do setor estão sofrendo com a alta dos gastos com produção –  tanto a já mencionada Suzano como a Klabin (KLBN11) vêm sofrendo com o fortalecimento do real, uma vez que essas empresas produzem majoritariamente no Brasil e vendem o produto em dólar. Assim, se a moeda local tem alta, a margem entre ganhos e despesas diminui.  

“Dado que o real continua se valorizando, notamos que os investidores estão refletindo cenários com o dólar custando R$ 4,50 ou até R$ 4. Nesse cenário, embora os números ainda pareçam atraentes, a tendência é desfavorável, e isso gera muita hesitação em comprar Suzano ou Klabin”, explicam. 

Fora o real, os analistas apontam também que os custos com combustíveis e com produtos químicos utilizados na produção da celulose também estão em tendência de alta, o que deve pressionar as margens. 

Para o Morgan Stanley, a visão dos riscos não é muito diferente. De forma extra, o banco americano coloca a possibilidade de uma nova onda de Covid-19 derrube a demanda e, consequentemente, os preços. 

Mesmo assim, a perspectiva de ambos os times de analistas são positivas. “Para colocar as coisas em perspectiva, vemos os custos da celulose aumentando em US$ 33 em média a tonelada em 2022 versus um aumento nos preços médios da celulose  de US$ 65 por tonelada”, afirma o BofA. 

Ação favorita no setor

O Morgan Stanley, em seu último relatório, optou por rebaixar a Suzano de overweight para equalweight (exposição em linha com a média do mercado, equivalente à neutra), ou seja, a ação deixou de estar barata para estar próxima do preço justo. 

“A Suzano é a maior produtora de celulose do mundo e uma empresa bem administrada, mas tem de 80% a 85% dos seus custos em moeda brasileira e um real mais forte, combinado com outras pressões de custo, diminuem os benefícios do preço da celulose mais elevado”, justificam. 

A Klabin, segundo os analistas, também deve sofrer e teve as projeções de faturamento para o ano reduzidas em 8%, assim como a Suzano. A questão é que as ações dessa estão, no momento, negociadas a um valuation mais atrativo – 7,1 vezes contra 6 vezes da Suzano. 

Do outro lado, o BofA tem a Suzano como sua favorita para o setor, apesar de manter recomendação de compra também para a Klabin. ”Isso se dá, principalmente, porque para esta as pressões de custo parecem mais contidas, uma vez que começaram a cair a partir do segundo trimestre de 2022”, defendem. 

Os preços-alvos de Suzano e Klabin, para o BofA, são de, respectivamente, R$ 93 e US$ 18 (o ADR). Para o Morgan Stanley, na mesma sequência, os preços-alvos são de R$ 60 e R$ 28. 

O Bradesco BBI ressalta ainda que os investidores estão cada vez mais preocupados com o potencial impacto da valorização do real e das pressões inflacionárias nos resultados da Suzano.

Os analistas, contudo, apontam que, embora reconheçam que ambos os fatores de fato (parcialmente) prejudicarão os números de 2022, acreditam que os preços mais altos da celulose são um poderoso fator de compensação.

“Ressaltamos também que o impacto de um real mais forte na dívida em dólares e na estratégia de hedge da Suzano deve levar a uma desalavancagem relevante e a um múltiplo mais atraente, o que, a nosso ver, está sendo negligenciado”, avaliam, mantendo assim recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 90 para o ativo.

Confira abaixo a compilação de recomendações, segundo a Refinitiv, para as ações de empresas ligadas a commodities (o potencial de alta é em relação ao fechamento da véspera):

 

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