Papel e Celulose

Um tour pela fábrica de US$ 2,3 bilhões que promete ser uma reviravolta da Fibria

Projeto Horizonte 2 (MS), está 54% pronto e deixará a fabricante de celulose com praticamente o dobro da produção em relação à segunda colocada

TRÊS LAGOAS* – Após andar cerca de quarenta minutos de carro do centro de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, e percorrer uma estrada em meio a enormes pinheiros, uma construção imponente surge e toma conta da floresta misturando a natureza com o metal de um dos maiores empreendimentos privados do Brasil. Com uma fábrica em pleno funcionamento e uma segunda unidade 54% pronta, este é o projeto Horizonte da Fibria (FIBR3).

Hoje a companhia é líder mundial em produção de celulose de fibra curta, com um total de 5,3 milhões de toneladas, sendo que esta linha em construção irá consolidar ainda mais seu posto de líder. Com uma capacidade de produzir 1,95 milhão de toneladas de celulose por ano, a segunda unidade elevará a produção da região para 3,25 milhões de toneladas e levará o total de capacidade da companhia para 7,2 milhões de toneladas anuais. A segunda maior produtora do mundo é a chilena Arauco, com cerca de 4 milhões de toneladas por ano.

Visitar todo o complexo não leva menos que um dia. Entre as ruas asfaltadas (agora ocupadas pela terra das obras) é possível começar a compreender todo o processo de produção, desde o corte das árvores até a secagem da celulose. Usando sempre o equipamento de segurança, um grupo de jornalistas teve a oportunidade de conhecer a unidade de Três Lagoas durante um dia, e para quem não está familiarizado com este mundo da engenharia, a sensação é de estar andando em uma “mini-cidade” que vive apenas da produção de celulose. As cifras do empreendimento são tão grandes quanto o tamanho da obra.

Fábrica Horizonte 2

Para esta expansão, prevista para ser encerrada no fim do ano que vem, a companhia está investindo no empreendimento US$ 2,3 bilhões (equivalente a R$ 7,7 bilhões, segundo contas da companhia). Parte dos recursos são próprios e o restante vem de financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste) e agências internacionais de fomento.

A quantidade de material também não fica atrás. Segundo a companhia, são 225 mil metros cúbicos de concreto, o suficiente para a construção de três “Maracanãs”, além de 10 mil toneladas de aço, quantidade que poderia erguer três torres Eiffel.

A obra em execução se mistura com as atividades da linha em funcionamento, e é difícil distinguir quem está em cada atividade. Segundo a companhia, foram construídos tapumes para separar a obra, mas apenas por questão de segurança. A ideia é que todos os 6,5 mil funcionários interajam e não haja nenhuma segregação entre os cargos. Por conta disso, praticamente todas as atividades são compartilhadas, desde o transporte fretado para ir e voltar da fábrica até as refeições, feitas no estilo “bandejão” – todos os funcionários, inclusive os diretores, almoçam e jantam neste local.

Apesar de toda a grandiosidade e em meio a uma obra, a organização dentro do complexo é visível em todos os cantos, desde o acesso ao local (apenas para quem possui crachá) como no deslocamento, feito em áreas de segurança onde não há risco de acidentes. Vale lembrar que mesmo com mais da metade da segunda unidade concluída, a fábrica ainda não chegou ao seu pico de pessoas envolvidas, com a expectativa de que no fim deste ano cerca de 10 mil funcionários estejam no local.

Fábrica Horizonte 2

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Atualmente, 43% da produção da empresa é destinada à Europa. O resto se divide em: 25% para a América do Norte, 24% para Ásia – principalmente a China – e 8% para América Latina, em um total de 40 países. Uma das empresas que compram matéria-prima da companhia está instalada no mesmo complexo de Três Lagoas, a International Paper, o que facilita a logística do negócio. A celulose de fibra curta produzida pela Fibria é utilizada para a produção de diferentes tipos de papel: 50% sanitários, 15% especiais e 35% para imprimir e escrever.

Marco histórico
No último dia 27 de setembro, a Fibria realizou o que considera um marco para o projeto, com o içamento, a 80 metros, do “tubulão da caldeira”, um equipamento que é considerado essencial a planta. A estrutura é responsável por concentrar todo o vapor gerado na caldeira de recuperação dos produtos químicos utilizados na produção de celulose e encaminhá-lo ao processo de cogeração de energia elétrica da unidade.

Com isso, a planta não só vai conseguir gerar e consumir a própria energia, como passará a ter um excedente adicional de 130 MWH, o que é suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes, e que será vendido ao sistema elétrico nacional.

Fábrica Horizonte 2

O “tubulão” é uma das peças mais pesadas do projeto, 200 toneladas. Para içar o equipamento e também outras peças da caldeira, que tem uma estrutura metálica de 4.000 mil toneladas, a empresa trouxe de São Paulo o guindaste Manitowoc 18000, um dos maiores do país, que tem capacidade para erguer até 800 toneladas. Somente a roda do contrapeso do guindaste tem mais de três metros de diâmetro.

Nem tudo são flores
Mesmo com as obras adiantadas e com a liderança do mercado mais que garantida, a Fibria não está nas nuvens. Quem olha para a Bolsa vê uma ação que acumula queda de 50% em 2016 após passar por uma “lua de mel” com o mercado no ano passado. Em 2015 a companhia ficou com a segunda maior alta do Ibovespa ao registrar alta de 70%. O que mudou de lá pra cá? 

O raciocínio lógico do investidor é fazer a ligação com o dólar, que afeta grande parte da receita da companhia, que exporta praticamente toda a sua produção. Se no ano passado a moeda norte-americana disparou, atingindo seu pico em fevereiro de 2016 ao superar R$ 4,00, desde então o recuo da divisa acabou afetando os negócios da companhia, mesmo que grande parte das vendas já estejam com “hedge”.

Mas o que tem criado uma grande tensão no setor, na verdade, é o preço da celulose em queda livre. Mais que o efeito cambial, quando o único produto da companhia fica mais barato, é menos dinheiro que entra no caixa e o maior perigo é quando a celulose começa a se aproximar do preço de custo de sua produção. Porém, o presidente da Fibria, Marcelo Castelli afirmou que o cenário está se estabilizando e o mercado agora deve seguir uma tendência de recuperação.

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Plantação eucalipto

E foi neste ambiente que a companhia anunciou recentemente um aumento de US$ 20 dólares no preço da tonelada da matéria-prima do papel vendida para clientes na Ásia. O reajuste passou a valer em 1º de outubro e, com isso, o preço da companhia para a região chegou a US$ 530 por tonelada de celulose. Enquanto isso, a Fibria não elevou os preços para Europa e América do Norte, que mantiveram os valores US$ 710 e US$ 870 a tonelada, respectivamente.

Segundo o chefe da Valor gestora de recursos, William Castro Alves, esta foi uma ótima sinalização da Fibria, principalmente por acontecer em um cenário de demanda mais fraca. “Isso é muito bom! Aumento bem marginal, pequeno, mas a sinalização a meu ver é boa”, escreveu em seu blog.

Para o Itaú BBA, apesar de algumas pressões de mercado, a Fibria é uma ótima opção no mercado. “Aos níveis atuais, nossos analistas continuam vendo as ações FIBR3 com um valuation atrativo. Sua recomendação é de outperform (desempenho acima da média do mercado), com preço justo para o final de 2017 de R$ 28,00 por ação”, disseram.

Na última segunda-feira, a empresa divulgou seu balanço do 3° trimestre. A companhia avaliou o momento como favorável em termos de demanda e preços de matéria-prima, depois de as cotações internacionais e o câmbio terem afetado o resultado operacional da companhia no 3° trimestre. No período, o Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado somou R$ 758 milhões, queda de 51% na mesma base de comparação. Ainda assim, a empresa conseguiu reportar lucro líquido de R$ 32 milhões no trimestre, ante prejuízo de R$ 601 milhões em igual período do ano passado. 

Durante o içamento do “tubulão”, Castelli já havia tentado tranquilizar a todos sobre a questão do preço da celulose e seus custos de produção. Segundo ele, o projeto a longo prazo é aumentar cada vez mais sua produção e consequentemente sua participação no mercado, assegurando por meio desse processo uma menor suscetibilidade a variações internacionais de preços e de demanda.

De acordo com o executivo, quando o projeto ainda estava apenas no papel, uma série de estudos foram feitas para garantir a viabilidade econômica da obra. Castelli afirmou que foram realizadas simulações de mercado com preços ainda mais baixos que os praticados atualmente, o que assegura muita tranquilidade para a empresa concluir o empreendimento. “Quando a nova linha estiver concluída, a maior parte de sua produção ou a sua totalidade já vai estar comercializada em contratos futuros”, disse. 

Eficiência nos pequenos detalhes
A Fibria tentou não só ampliar sua fábrica atual, mas trazer mais eficiência para seu processo de produção da celulose, o que resulta em corte de custos. Umas das grandes novidades que estão sendo implementadas está na construção do primeiro viveiro de mudas de eucalipto totalmente automatizado do mundo.

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A ideia é trocar a mão-de-obra humana pela robotizada, que não só acelera o processo de plantação de mudas como também facilita a identificação de possíveis problemas, como pragas. A companhia trouxe a tecnologia da Holanda, que usa a técnica para a produção de suas famosas tulipas.

“Com a tecnologia adotada e a automação dos processos, a produção anual de mudas será de 43 milhões, ou 11,5 mil mudas por hora”, explica Nilson Oliveira, gerente de automação da companhia. Atualmente, a Fibria produz 12 milhões de mudas de eucalipto por ano.

Viveiro de mudas

Mas mais que essa eficiência, a empresa também trouxe mais uma novidade: a utilização de papel biodegradável na cápsula usada para plantar as mudas. “A empresa deixará de utilizar tubetes de plástico para produzir as mudas e passa a adotar um papel biodegradável, que se desintegra no solo após o crescimento das raízes”, afirma Oliveira.

Segundo Castelli, a tecnologia vai proporcionar a redução do consumo de plástico e, principalmente, de água. “Esta é uma inovação inédita no setor de papel e celulose no mundo”, afirma. Ele explica ainda que a companhia deixará de ter um viveiro para ter uma fábrica de mudas. “Literalmente, o viveiro passará a ser uma fábrica com a tecnologia mais avançada do mundo”. A empresa trabalha hoje com pelo menos 14 clones de diferentes variedades de eucalipto.

A expansão não para
Mesmo na liderança do setor, a Fibria não pensa em parar. Durante coletiva com a imprensa, Castelli disse que não está descartada a possibilidades de uma terceira fábrica em Três Lagoas, buscando atingir uma produção de 10 milhões de toneladas de celulose por ano.

Maquete Horizonte 2

Atualmente a companhia tem unidades em Três Lagoas, Aracruz (ES), Jacareí (SP) e Eunápolis (BA). Porém, para continuar esta expansão, o executivo afirma que a empresa dependerá, entre outras questões, da demanda de mercado. “Existe a possibilidade de ter a terceira linha sim, mas só o tempo dirá. Três Lagoas tem potencial, fomos bem recebidos, somos uma empresa sul-mato-grossense e estabelecemos boas parcerias. Primeiro queremos formar a base florestal para termos um crescimento sustentável”, afirmou Castelli.

Ele explica que para se criar uma floresta o tempo estimado é entre cinco e sete anos, sendo que para se tomar uma decisão de investimento isto teria que acontecer cerca de dois anos antes da formação desta floresta. “Se tivermos uma floresta de sete anos, e três anos antes, tomarmos as decisões, daqui quatro anos poderíamos, se as condições de mercado forem favoráveis e a empresa estiver em um bom momento no seu plano estratégico, anunciarmos um novo projeto”, conclui.

 

*O repórter visitou a fábrica da Fibria em Três Lagoas (MS) a convite da empresa.