Bovespa

“Um simples trimestre matou o ano”; small cap cai 18% após prejuízo crescer 1.225%

Com receita abaixo do esperado e custos acima do previsto, o Ebitda e o lucro foram pro espaço; empresa registou queda de 72% no Ebitda

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SÃO PAULO – Mal chegamos na metade de 2015 mas para o setor de açúcar e álcool o ano já acabou, já que o calendário destas empresas leva em conta o período de safra. Por conta disso, Tereos, Cosan e São Martinho divulgarão os balanços referente ao ano fiscal de 2015 nos próximos dias. Quem deu a partida no setor foi a Tereos (TERI3). E uma frase do relatório do BTG Pactual resume bem o quão ruim foi este resultado: “um simples trimestre matou o ano”. E o reflexo dessa “morte” pode ser visto na Bolsa nesta véspera de feriado.

Segundo balanço divulgado na noite da última terça-feira (2), a Tereos Internacional viu seu prejuízo entre janeiro e março crescer 1.225% em relação ao mesmo trimestre de 2014, saltando de R$ 8 milhões para R$ 106 milhões, motivado por um mix de piores preços de venda – principalmente na Europa -, maiores custos de produção – tanto aqui como no Velho Continente – e crescimento da dívida líquida por conta da alta do dólar no período – 57% do endividamento da empresa está lastreado na moeda americana.

A receita líquida caiu 4,8% entre os trimestres citados, indo a R$ 2,104 bilhões, enquanto o custo de produção cresceu 1,0%, para R$ 1,9 bilhão. Os dois números vieram piores do que o previsto pelo analista do BTG Pactual e com isso o lucro bruto da empresa foi menos da metade do que previa o banco: R$ 204 milhões contra R$ 443 milhões, conforme mostra o relatório assinado por Thiago Duarte e Jose Luis Rizzardo.

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O trimestre que matou o ano
Se os números da linha superior da DRE (Demonstração de Resultado de Exercício) já vieram aquém do esperado do BTG, o impacto nas linhas debaixo foi ainda maior: o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês) caiu 81,2% ante o 1º tri de 2014, ficando em R$ 25 milhões – a estimativa do BTG era de R$ 246 milhões. Já o prejuízo líquido de R$ 106 milhões veio muito diferente do lucro líquido de R$ 38 milhões estimado por Duarte e Rizzardo.

“O Ebitda abaixo do esperado foi exclusivamente graças à performance do último trimestre fiscal”, escreveram os analistas. A dupla diz que a Tereos não forneceu muitos detalhes sobre esse Ebitda surpreendente, exceto sobre as operações da Guarani, cujo indicador mostrou queda de 79% na passagem anual, por conta dos “yields” muito abaixo na indústria e na agricultura.

Com isso, o resultado acumulado em 2015 mostrou prejuízo de R$ 139 milhões, revertendo o lucro de R$ 33 milhões reportado no ano fiscal anterior. A receita líquida caiu 3,6% nos 12 meses, para R$ 8,04 bilhões, e o Ebitda ficou em R$ 772 milhões – queda de 19,7%. Por fim, a dívida líquida subiu 19,5%, para R$ 4,264 bilhões, aumentando o índice Dívida Líquida/Ebitda de 3,7x para 5,5x entre os dois anos, informa a Tereos em seu balanço.

Decepções constantes, recuperação adiada…
O péssimo trimestre da Tereos fatalmente postergará o ciclo de desalavancagem da empresa, diz o BTG. “Precisamos agora obter maior clareza sobre as questões operacionais (e sua reincidência) que levaram a um resultado particularmente fraco no Guarani antes de encarar um ciclo de desalavancagem”, explicam os analistas.

Enxergando um claro risco de piora em suas perspectivas após esse balanço, o BTG colocou em revisão suas estimativas para os próximos resultados e o preço-alvo esperado para as ações TERI3 daqui 12 meses – atualmente, o target era de R$ 3,00, o que significa um potencial de 261,5% de alta em relação ao fechamento desta quarta-feira (3).

“Os investimentos estão agora praticamente completos, mas o desempenho operacional tem sido uma decepção persistente, o que, combinado com baixa liquidez das ações, não tem gerado o retorno que os acionistas estavam esperando”, concluíram os analistas do BTG.

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… e quem paga são as ações
Com uma avaliação tão ruim feita por um banco com tanta influência no mercado sobre uma empresa de baixíssima liquidez na Bolsa, era natural que a reação dos investidores fosse negativa ao anúncio. As ações da Tereos desabaram 17,82%, fechando a R$ 0,83 (cotação mínima do dia). O volume movimentado pelas ações hoje na Bovespa foi de R$ 832 mil, quase 7 vezes mais do que a média diária vista em maio.

Em 2015, a empresa já perdeu 40% de valor de mercado; nos últimos 9 meses, a queda já supera os 70%.

Perspectivas
Se o 2015 fiscal decepcionou, o próximo ano da Tereos não inspira muita mudança. “Para este próximo exercício 2015/16, as perspectivas para cana-de-açúcar no Brasil serão influenciadas por preços mundiais de açúcar em níveis baixos, parcialmente compensado pela recuperação da demanda de etanol em razão das recentes medidas (aumento da mistura de etanol na gasolina, reintrodução da CIDE e ICMS no estado de Minas Gerais)”, diz a Planner Corretora em relatório.

A companhia manterá o foco em eficiência industrial, principalmente através da melhoria no processo de manutenção de entressafra, e no aumento nos volumes de cogeração devido ao maior uso de bagaço, além da conclusão do programa de investimentos plurianual no Brasil, diz a corretora.