Um “conto de duas economias” está redesenhando o mercado de ações da China

Investidores aumentam apostas nas empresas que se beneficiam do boom de exportações industriais

Bloomberg

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Um verdadeiro “conto de duas economias” está movimentando o mercado acionário chinês, levando investidores a aumentar apostas nas empresas que se beneficiam do boom de exportações industriais, em detrimento de companhias presas a uma desaceleração do consumo.

A segunda maior economia do mundo mostra um quadro em que setores sensíveis ao comportamento do consumidor ficam cada vez mais para trás em relação às indústrias ligadas à manufatura e à tecnologia. Esse cenário tem deixado bancos de Wall Street, como Morgan Stanley e JPMorgan Asset Management, mais otimistas com ações de empresas chinesas que vão de fabricantes de máquinas a construtoras de redes elétricas.

Essas companhias vêm surfando o apetite global por manufatura avançada e a forte demanda por infraestrutura ligada à inteligência artificial.

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A economia chinesa ficou ainda mais dividida no último ano: novas forças industriais ajudaram a sustentar exportações surpreendentemente robustas, que resistiram até mesmo às tarifas impostas pelo ex-presidente Donald Trump. Ao mesmo tempo, o consumo doméstico segue fraco em meio à prolongada crise no setor imobiliário. Para investidores, essa cisão está redefinindo estratégias, premiando apostas seletivas em campeãs industriais voltadas ao mercado externo em vez de uma recuperação ampla puxada pelo consumo interno.

“Claramente existem duas Chinas muito diferentes neste momento”, escreveu William Bratton, chefe de pesquisa em ações à vista na Ásia-Pacífico do BNP Paribas Exane, em relatório. “Temos uma preferência clara por setores e subsetores de materiais, industriais e tecnologia, em relação aos seus pares voltados ao consumidor — preferência que se reflete nas tendências de lucros e nos dados econômicos recentes.”

Grande parte da força das exportações do país vem de fabricantes de equipamentos, componentes eletrônicos e mineradoras de metais ligados à demanda global por infraestrutura de IA. A China XD Electric, importante contratada em projetos de linhas de transmissão de ultra-alta tensão, já subiu 75% no ano, enquanto a fabricante de componentes elétricos TBEA acumula alta de cerca de 28%.

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O Morgan Stanley foi o mais recente a se somar ao coro otimista, destacando um grupo de ações que inclui Sany Heavy Industry, Jiangsu Hengli Hydraulic, Han’s Laser Technology Industry Group e Wuxi Lead Intelligent Equipment.

“O setor de máquinas para construção está entrando em um ciclo de melhora, com a recuperação doméstica em curso ao lado da demanda externa”, escreveram analistas do banco, entre eles Sheng Zhong, em relatório que aponta “um bom momento de crescimento” nas exportações.

Na direção oposta, ações ligadas ao consumo vêm ficando para trás: os papéis da Fuyao Glass Industry Group caem 5,4% no ano, enquanto os da montadora Great Wall Motor recuam 4,6%.

“Conversas recentes com investidores indicam que gestores institucionais seguem cautelosos em relação à recuperação doméstica, preferindo focar no potencial de crescimento de lucros do tema ‘going global’”, escreveu o estrategista de mercados globais Chaoping Zhu, do JPMorgan Asset Management, em nota.

“Formuladores de política têm destacado a manufatura avançada e a tecnologia como novos motores de crescimento, com o mercado de ações desempenhando um papel-chave no apoio à formação de capital e à alocação de riqueza das famílias”, acrescentou Zhu.

Claro que o cenário para as empresas industriais chinesas pode azedar se crescer a reação de países preocupados com um influxo de produtos baratos. Ao mesmo tempo, como Pequim estabeleceu a retomada do consumo como prioridade máxima de política econômica neste ano, alguns analistas argumentam que as valutations do setor já podem estar atraentes o suficiente para investidores em busca de barganhas.

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Por ora, o impulso dessa economia em “duas velocidades” segue firme: projeções de lucro para o índice CSI 300 Industrials subiram 10% nos últimos seis meses, contra alta de apenas 5% no seu equivalente de consumo, segundo dados compilados pela Bloomberg.

“Acho que a outperformance do setor industrial vai continuar, porque é ali que está acontecendo boa parte do crescimento estrutural”, disse Min Lan Tan, chefe do escritório do CIO para Ásia-Pacífico do UBS Group AG. “Ninguém pode se dar ao luxo de ficar para trás nessa corrida da IA, então acreditamos que isso continuará impulsionando o segmento industrial.”

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