UE fecha portas para proteínas brasileiras; veja os impactos para Minerva, JBS e MBRF

União Europeia de retirou o Brasil da lista de países habilitados a exportar produtos de origem animal

Felipe Moreira

Ativos mencionados na matéria

(Foto: Mattes/Wikimedia Commons)
(Foto: Mattes/Wikimedia Commons)

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A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países habilitados a exportar produtos de origem animal acendeu um alerta para o setor de proteínas, embora o impacto financeiro direto seja considerado limitado diante do tamanho da indústria brasileira.

A medida foi adotada sob a justificativa de que o país não oferece garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. As regras europeias proíbem a utilização de determinadas substâncias consideradas importantes para a medicina humana. Caso o Brasil não se adeque às exigências até o prazo estabelecido, os produtos brasileiros de origem animal perderão acesso ao mercado europeu a partir de 3 de setembro de 2026.

A Genial Investimentos comenta que a decisão pegou as autoridades brasileiras de surpresa, que agora buscam reverter a medida. Segundo a corretora, existem dois caminhos técnicos para reabilitar o país: ampliar a restrição legal aos medicamentos remanescentes, ou implantar rastreabilidade que comprove a ausência dessas substâncias nos lotes exportados”, explica.

Embora os cerca de US$ 1,8 bilhão exportados anualmente para a União Europeia representem uma parcela relativamente pequena do setor, os analistas avaliam que o principal risco está na qualidade desse mercado. Isso porque o bloco europeu costuma pagar preços superiores aos observados em outros destinos.

Na carne bovina, por exemplo, a chamada cota Hilton concentra embarques de cortes nobres com remuneração acima da média das exportações brasileiras. Já no segmento de aves, a Europa voltou recentemente a receber produtos do Brasil, movimento que contribuiu para o desempenho internacional da divisão da BRF no primeiro trimestre de 2026.

Para a Genial, uma eventual perda desse mercado poderia pressionar o mix de produtos e reduzir margens das companhias exportadoras, gerando um impacto proporcionalmente maior sobre a rentabilidade do que os números de receita sugerem. Dessa forma, o efeito da medida tende a ser mais relevante pela perda de mercados premium do que pelo volume financeiro diretamente envolvido.

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Por outro lado, a Genial destaca que existe um importante amortecedor para o setor. Lotes originalmente destinados à Europa a partir de plantas brasileiras já estão sendo redirecionados para unidades dos mesmos grupos localizadas na Argentina e no Uruguai, países que seguem habilitados a exportar para o bloco europeu. Na prática, isso transforma uma restrição ao Brasil em uma questão de logística e de capacidade produtiva fora do país.

O cenário tende a favorecer empresas com operações diversificadas, capazes de realocar a produção entre diferentes países, enquanto companhias com volumes mais dependentes de plantas brasileiras podem enfrentar maiores dificuldades. No caso do setor de aves, essa limitação é considerada mais relevante.

Além disso, os analistas ressaltam que o prazo até setembro de 2026 e as negociações em andamento entre autoridades brasileiras e europeias reduzem a probabilidade de um cenário mais severo de interrupção total dos embarques. Ainda assim, uma eventual perda do mercado europeu poderia pressionar o mix de produtos e reduzir margens das companhias exportadoras, gerando um impacto proporcionalmente maior sobre a rentabilidade do que os números de receita sugerem. Dessa forma, o efeito da medida tende a ser mais relevante pela perda de mercados premium do que pelo volume financeiro diretamente envolvido.

Minerva (BEEF3)

Apesar de ser o nome mais puro em bovinos, a Genial vê a Minerva como o frigorífico estruturalmente mais protegido contra um veto de país. A plataforma cobre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Colômbia, e a companhia lidera o market share de exportação na América do Sul. O contraponto é que a UE é destino premium e a Minerva não tem outra proteína para compensar.

A parcela diretamente vetada fica em 3,4% da receita bruta nos últimos 12 meses. Os demais 2 a 3% que a Minerva manda para a UE saem de Argentina, Uruguai e Paraguai, fora do escopo do veto, e ainda servem de destino para o volume brasileiro realocado.

JBS (JBSS32)

Na avaliação da Genial, a JBS deve sentir apenas um efeito marginal caso a restrição seja mantida. A casa classifica o tema como um “ruído, não uma tese” de investimento. Isso porque a companhia possui uma estrutura altamente diversificada geograficamente. Embora o Brasil represente cerca de 26% da receita por consumo, responde por apenas 12% da produção. Aproximadamente metade do faturamento da empresa vem dos Estados Unidos, além de a companhia possuir operações dentro da própria Europa, incluindo a Moy Park, no Reino Unido, e a Vivera, no segmento de proteínas vegetais.

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Segundo a análise, os fluxos potencialmente afetados estão concentrados nas exportações de carne bovina da JBS Brasil e nos embarques de frango e processados da Seara destinados ao continente europeu. A maior parte das exportações brasileiras da companhia, entretanto, segue direcionada para mercados da Ásia e do Oriente Médio.

A Genial estima que a exposição da JBS à medida represente cerca de 1% da receita consolidada, em uma faixa entre 0,5% e 1,5%, destacando ainda a elevada capacidade de realocação de volumes por meio de operações na Austrália, nos Estados Unidos e na própria Europa.

MBRF (MBRF3)

Para a MBRF, holding formada pela combinação dos negócios de Marfrig e BRF, o cenário é mais complexo. Segundo a Genial, a exposição consolidada ao mercado europeu gira em torno de 2,5% da receita total da companhia, o equivalente a aproximadamente R$ 1,3 bilhão considerando os números do primeiro trimestre de 2026.

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A diferença em relação à JBS está na composição dos negócios. A divisão Beef América do Norte, que gerou R$ 18,4 bilhões em receita no trimestre, opera com produção nos Estados Unidos e, portanto, não sofre impacto direto da decisão europeia.

Já as operações de Beef América do Sul, com receita de R$ 6,2 bilhões, e da BRF, que faturou R$ 14,9 bilhões no período, concentram a maior parte da exposição. Segundo os cálculos da Genial, cerca de 1 ponto percentual da receita consolidada está relacionado ao segmento bovino e 1,5 ponto percentual ao segmento de aves.

No caso da carne bovina, a empresa conta com uma vantagem semelhante à da JBS: a possibilidade de transferir parte da produção para unidades localizadas no Uruguai e na Argentina, países que permanecem aptos a exportar para a União Europeia.

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O principal desafio está na BRF. A companhia concentra o abate de aves no Brasil e não possui, segundo a Genial, uma estrutura equivalente no Mercosul que permita transferir rapidamente os volumes destinados ao mercado europeu. Isso limita a capacidade de adaptação e aumenta a exposição ao eventual bloqueio.

Os analistas lembram ainda que a recente reabertura dos mercados europeu e chinês para o frango brasileiro foi um dos principais motores do desempenho internacional da BRF no primeiro trimestre de 2026. Assim, uma restrição prolongada poderia reverter parte dos ganhos observados recentemente.

Apesar das preocupações, a Genial pondera que o prazo até setembro de 2026 e as negociações em andamento entre autoridades brasileiras e europeias reduzem a probabilidade de um cenário extremo de perda integral do mercado. Para os analistas, a capacidade de realocação da produção será o principal fator para determinar quais empresas sairão menos afetadas pela medida.

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