UBS desmistifica questões sobre emergentes e explica “real descolamento”

Banco olha para desempenho nas últimas décadas e debate fatores como dependência a China ou economias desenvolvidas

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SÃO PAULO – Analisando as taxas de crescimento real desde 1960, as economias emergentes vêm se expandindo mais do que os países desenvolvidos – e a diferença entre eles vem aumentando desde o ano 2000. “Os emergentes tem se expandido bons 5 pontos percentuais mais rápido do que seus vizinhos mais ricos”, segundo os analistas do UBS.

Isso, para alguns, poderia ser um indicativo de que a economia dos emergentes conseguiu se descolar das economias mais tradicionais, trilhando seu próprio caminho independente das tendências do mercado.

Para os analistas, esse descolamento total dos emergentes simplesmente não existe. “Qualquer esperança de que os emergentes estivessem em um ‘glorioso isolamento’ foram esquecidas nos últimos 12 meses – o mundo é um lugar muito cheio de relações”.

Mas, mesmo com o colapso dos fluxos de capital visto no ano passado, os emergentes continuam crescendo mais rápido do que os países desenvolvidos. “A questão é que o mundo emergente consegue crescer muito mais rápido do que nas duas últimas décadas, e muito mais rápido do que o mundo desenvolvido”. Isto é o que o UBS chama de “real descolamento”. “Mais do que isso, os emergentes vão continuar crescendo acima da média global pelos próximos 5 ou 10 anos”.

Porque os emergentes crescem mais

Segundo o UBS, teoricamente, é natural que os emergentes cresçam mais. “Nos países desenvolvidos, não há muito para onde a economia se expandir. Já os emergentes têm uma ampla força de trabalho, altos retornos em novos investimentos, um sistema financeiro que ainda pode se desenvolver, e consumidores e empresas não totalmente exploradas; há bastante espaço para transformação industrial e, em muitas economias, uma liberalização de preços já traria ganhos”, explicam os analistas. São todas as chances para alcançar as economias desenvolvidas.

A produtividade dos emergentes, entretanto, é um fator de preocupação, e pode explicar porque apesar de todas as chances, os países não cresceram o quanto poderiam nos últimos anos. “A Ásia concentra quase todo o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nos últimos 50 anos”. Isso porque a região foi a única a se aproximar do crescimento de produtividade dos países desenvolvidos. No Oriente Médio, África e no bloco soviético, a produtividade caiu por mais de três décadas.

“Não fossem os tímidos ganhos em produtividade, o PIB dos emergentes poderia estar 65% maior atualmente”, aponta o UBS.

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Fundamentos sólidos

Apesar do bom desempenho dos emergentes como bloco, os analistas apontam que há grandes diferenças entre as economias do leste europeu, por exemplo, que sofreram muito mais com os efeitos da crise, e a Ásia e a América Latina, que conseguiram melhores performances. A principal diferença responsável por isso, segundo o UBS, são os fundamentos econômicos – incluindo sistema bancário, déficit público e exposição ao mercado externo.

A teoria pode ser explicada olhando os “anos ruins” para os emergentes, entre 1960 e 1980, aproximadamente. “Não houve mudanças de investimento, força de trabalho, mas sim na produtividade total dos paises. A dívida externa, por exemplo, foi, em média, de 5% para 25% do PIB em 15 anos”. Isso levou a 20 anos de crises econômicas na América Latina, México, Ásia e Rússia.

Atualmente, por outro lado, os fundamentos não poderiam estar melhores, segundo o UBS, o que pode levar a uma diminuição de risco para investimentos na região e, consequentemente, melhora nos valuations dos ativos dos emergentes nos próximos anos. Entretanto, eles alertam para a possibilidade da criação de novas bolhas, sustentadas no bom desempenho dos emergentes. “Mas, considerando a história, a próxima rodada de problemas nesse aspecto virá daqui a pelo menos uma década”.

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Exportações

Uma das primeiras concepções sobre os emergentes, quanto à sua dependência das exportações para países desenvolvidos, é rapidamente desmentida pelo UBS – “não”. Segundo os analistas, apesar de os emergentes dependerem mais de exportações do que os Estados Unidos e a União Europeia como um todo, o bloco dos emergentes é maior e mais independente do que muitos pensam.

“Tamanho importa, e o bloco dos emergentes já não é mais tão pequeno, respondendo por aproximadamente um terço do PIB global em 2008”, explicam os analistas. Mesmo excluindo a China e os demais Brics (Índia, Rússia e Brasil), o número é quase o mesmo dos EUA.

Quanto à participação das exportações na economia dos emergentes, o UBS aponta que muitos países da Europa, individualmente – como Alemanha e Holanda, por exemplo – têm taxas de exportações muito parecidas com os emergentes, que tem se mostrado estáveis nos últimos anos. Desconsiderando relações comerciais entre os emergentes, registrando somente os negócios feitos com o mundo desenvolvido, a taxa de exportação dos emergentes cai quase ao mesmo valor dos EUA e UE.

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Os analistas do UBS criaram um índice para medir a exposição das economias às exportações. O resultado inicial foi que os países menores estão mais expostos, mas, ao mesmo tempo, diversas economias emergentes estão menos expostas do que os países desenvolvidos. O Brasil, por exemplo, aparece ao lado da Espanha no índice.

China

Mas quanto da ascensão dos emergentes é responsabilidade da China? Se o crescimento do PIB chinês não fosse considerado, o desempenho dos emergentes não seria muito pior? A resposta do UBS é um enfático “não”. Segundo os analistas, retirando a China da equação, o cenário ainda é o mesmo para os emergentes. “Mesmo grande e dinâmica como tem sido, a China é um fator muito pequeno para explicar o descolamento dos emergentes dos últimos dez anos”.

Da mesma forma, os analistas afirmam que o boom das commodities também não pode ser responsabilizado pelo grande aumento no crescimento dos PIBs dos emergentes.

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Crise

Para os analistas, a resposta dos emergentes à crise foi uma prova de sua estabilidade. “Se havia algum choque que pudesse reverter os ganhos dos emergentes, a retirada drástica de capital global vista no final do ano passado seria o melhor candidato, e as economias reagiram muito bem”, explica o UBS.

Mesmo com a diminuição do ritmo de crescimento, os emergentes ainda mostraram avanços mais de 4 pontos percentuais a frente das economias desenvolvidas. O mesmo aconteceu com a produção industrial.

Riscos

E quanto ao risco de que as economias avançadas fechem suas portas para os emergentes, implementando políticas protecionistas? A demanda interna é suficiente para sustentar as economias emergentes?

Para o UBS, os riscos relativos aos emergentes são exagerados. Segundo os analistas, mesmo com a queda das importações pelas economias desenvolvidas, a diminuição não mostra um colapso do sistema financeiro ou nas relações entre os países. “Mesmo com uma desvalorização do dólar, esse não é um colapso geral da confiança nas reservas financeiras globais, que levou à crise de 1929”.

Por fim, os produtos que os emergentes vendem não são produzidos nas economias mais ricas – por isso, qualquer onda protecionista seria direcionada a uma indústria típica dos desenvolvidos, como a automobilística, por exemplo.

Em relação à demanda, os analistas lembram que “ela é uma combinação de consumo e investimento”. Por isso, mesmo que o consumo seja historicamente menor nos países emergentes, se houver investimento, isso não afetaria seu crescimento. “Além disso, há uma grande diferença entre queda de consumo e crescimento mais lento do consumo – que é o caso nos emergentes atualmente”.

Desse modo, segundo o UBS, o argumento de que a demanda doméstica não é suficiente para sustentar o crescimento dos emergentes é infundado. “Na verdade, é o contrário: nunca vimos consumo ou demanda geral tão fortes quanto nos últimos tempos”.

Perspectivas de crescimento

Os analistas utilizam dois cenários diferentes: em um deles, chamado de “globalização mais lenta”, a globalização continua próxima dos níveis vistos pré-crise, mas com ajustes na economia – um crescimento global estimado de 3% ao ano. No segundo, chamado de “sem globalização”, o processo de globalização financeira seria quase interrompido.

“Em ambos os cenários, os emergentes ganham”, explica o UBS. Com a globalização mais lenta, as economias desenvolvidas cresceriam anualmente em torno de 2%, enquanto os emergentes avançariam 5,5% ao ano – a Ásia, provavelmente, 7,3%. Já na segunda situação, as economias de países desenvolvidos cresceriam 1,5% ao ano, ao passo que os emergentes manteriam uma taxa próxima de 5,2% ao ano.

O UBS destaca, entre os líderes do crescimento, China e Índia. Indonésia, Cingapura, Tailândia, Argentina, México e Chile vêm a seguir, ainda com um bom desempenho. Por outro lado, os analistas colocam o Brasil em um terceiro grupo, ao lado de economias do leste europeu como Hungria e Polônia, que tem menos perspectivas de crescimento.

Entretanto, os analistas apontam que, mesmo com a diminuição do ritmo de crescimento global, os emergentes vão continuar avançando mais rápido do que os desenvolvidos – não porque estão mais isolados, mas porque tem fundamentos econômicos mais sólidos, que permitem seu crescimento acelerado qualquer que seja a situação mundial.