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SÃO PAULO – Um pouco mais de uma semana após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, muitas dúvidas ainda estão no radar dos mercados sobre quais serão os passos do republicano na economia. Por enquanto, o cenário é de corte de impostos e alta dos gastos em infraestrutura, com perspectivas de elevação mais forte da taxa de juros pelo Federal Reserve tendo como cenário a aceleração da inflação na maior economia do mundo.
Contudo, para Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington, algo será praticamente certo nos EUA: “o que provavelmente vai acontecer ao longo do tempo é uma sensação de desalento e de estelionato eleitoral, porque Trump não tem como entregar para essas pessoas o que ele prometeu, faça ele a política que fizer”.
Este sentimento, aponta a economista, será bastante similar ao que o Brasil sofreu em 2014 no pós-eleição de Dilma. E esta é apenas uma das semelhanças entre o republicano e a petista: “Trump é uma espécie de Dilma americana sem a carga ideológica de petista, esquerdista. Ele pode ser comparado à Dilma em muitos aspectos, como pela falta de traquejo político, lembrando que ele não tem apoio da base política republicana tradicional e não terá, pois ele não é um conservador”, afirma Monica, autora do livro “Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma“. Confira a entrevista:
InfoMoney – Primeiro, gostaria que você traçasse um panorama geral sobre a eleição de Donald Trump e quais são os efeitos para a economia brasileira.
Monica de Bolle – Trump se elegeu com um discurso bem populista, voltado principalmente para os mais destituídos, que trabalhavam para a indústria que desapareceu nos EUA, levando junto os empregos. Populismo se traduz em economia em duas formas: primeiro, através de expansão fiscal e segunda pelo protecionismo, ambas que vimos bastante durante o governo Dilma.
O protecionismo do Trump conforme definido em sua campanha é muito extremo e pode ser muito prejudicial para as empresas americanas e para o próprio trabalhador americano. Como na equipe de conselheiros dele tem muita gente de negócios, muitos empresários notáveis que estão ajudando a pensar no plano e, levando em conta que esse protecionismo foi um argumento retórico para atrair esse eleitor do “rust belt” (cinturão da ferrugem), nele residirá o estelionato eleitoral do Trump.
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Ele será mais protecionista, os EUA vão ter uma postura mais dura em relação a acordos comerciais, o TPP (Acordo do Transpacífico) não vai acontecer, mas isso não quer dizer que ele rasgará o Nafta, que vá tirar os EUA da OMC. Ele será mais parecido com a forma de que a Hillary seria protecionista, ou que dizia que seria, do que a forma como ele colocou durante a campanha.
Desta forma, sobra a expansão fiscal, e ela vem de duas maneiras: queda bastante expressiva de impostos, com muito apoio da base republicana. Do outro lado, há o aumento de gastos muito expressivo, principalmente no que ele chama de infraestrutura. Mas será preciso uma equipe que defina exatamente que tipo de gasto é esse. Podem ser gastos bons ou podem ser vários elefantes brancos, que é o que costuma acontecer quando se resolve gastar muito em infraestrutura sem definir direito o que está querendo fazer. Além disso, ele vai aumentar substancialmente o gasto militar.
As implicações para a economia dos EUA são de aumentar consideravelmente a inflação, que ainda está confortavelmente baixa, mas já em sinais de elevação. A inflação mais rápida muda completamente a perspectiva de política monetária. O Fed passa a ser então bem menos gradualista. O que sobra dessa história para o Brasil é um pouco o que estamos vendo agora, com os mercados precificando uma alta de juros mais rápida pelo Fed, movimento de alta do dólar, queda da Bolsa. O que muda para o Brasil é que, se for sustentada uma desvalorização mais forte do câmbio, acende o sinal de alerta para o Banco Central brasileiro. O câmbio desvalorizado significa uma inflação mais alta, com mudança na política monetária brasileira.
IM – Enquanto os mercados emergentes registraram queda, as bolsas dos países desenvolvidos subiram fortemente após a eleição de Trump. Fala-se que a era Trump será boa para os EUA, mas ruim para os emergentes. Como você vê essa perspectiva?
MB – O Trump fará na área econômica precisamente aquilo que gente como o [Nobel de Economia e crítico de Trump] Paul Krugman vem defendendo há tempos que o governo faça. Uma visão de que a política monetária não tem como atuar sozinha, precisa de um empurrão da política fiscal para acelerar a economia americana. Se isso de fato acontecer – ainda que a expansão fiscal seja feita de uma maneira ruim e que eventualmente leve ao descarrilamento das contas públicas e ao ajuste fiscal futuro -, no primeiro momento haverá um aumento da atividade, aumento da inflação, todas essas coisas que hoje muita gente vem defendendo para retomar a economia americana com um dinamismo maior.
Se isso de fato acontecer, tira dinheiro dos emergentes. À medida que os desenvolvidos comecem a se recuperar de uma forma um pouco mais forte, os emergentes ficam menos atraentes e há uma perspectiva de deslocamento de fluxo de capital de volta para as economias maduras, sobretudo para os EUA diante desse quadro. É ruim para os emergentes. E também porque o movimento morno do comércio internacional tende a se acentuar. Mesmo que se tenha uma desvalorização mais acentuada das moedas emergentes, isso não vai ajudar os setores exportadores dos emergentes porque o protecionismo está aí e o comércio não ajudará nesse aspecto. Será um quadro bem mais complicado para o Brasil, principalmente na situação em que está.
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IM – Já para os EUA, pelo menos no curto prazo, as perspectivas para o PIB ficam mais positivas?
MB – Ficam, no curtíssimo prazo. Há uma perspectiva de melhora no curto prazo, de aumento da inflação que é bom nos EUA para que a política monetária possa se normalizar. O mais complicado é com relação às mensagens que o Trump deu para esse eleitorado que o elegeu. De qualquer forma, não haverá muito alento para essas pessoas. Lembrando que os empregos do “rust belt”, região que votou em peso nele, não vão voltar necessariamente. Há hoje um quadro de estrutura produtiva nos EUA que é muito diferente e isso não se muda assim, de uma hora para outra.
O que provavelmente vai acontecer ao longo do tempo é uma sensação de desalento e de estelionato eleitoral muito parecida com a do Brasil, porque Trump não tem como entregar para essas pessoas o que ele prometeu, faça ele a política que fizer.
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De outro lado, há uma boa parte da população americana que não está nem um pouco satisfeita com a eleição do Trump. Ainda que ele venha a fazer um trabalho razoável na economia, há um esgarçamento social e uma polarização muito parecida com o que aconteceu no Brasil. Esse tipo de incerteza e esse clima de tensão generalizado não ajuda esses planos a prosperarem muito. A economia não opera bem com incerteza, não importa a política que se queira implementar. Foi assim com Dilma. O que vem pela frente é uma tentativa de fazer um expansionismo, com alguma recuperação da economia americana mais forte. No médio prazo, olhando daqui um ano, a situação vai ficar muito complicada, se não ainda antes. Por que o país está rachado totalmente. E como aconteceu no Brasil, nos grandes centros urbanos, as pessoas não votaram no Trump. Boa parte do PIB americano não votou no Trump, também como a eleição da Dilma.
IM – Após a vitória de Trump, muitas comparações foram feitas com o Bolsonaro. Contudo, você aponta muitas semelhanças com a Dilma. Ele pode ser considerado uma espécie de Dilma americana?
MB – Mas ele é exatamente uma Dilma americana, algo que as pessoas do Brasil não entendem. As pessoas fazem comparação com o Bolsonaro, mas o Trump é uma espécie de Dilma americana sem a carga ideológica de petista, esquerdista. Ele pode ser comparado à Dilma em muitos aspectos, como pela falta de traquejo político, lembrando que ele não tem apoio da base política republicana tradicional e não terá, pois ele não é um conservador.
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A base política republicana tradicional o fez engolir o (vice-presidente eleito) Mike Pence. O Pence é um conservador de verdade e Trump não é nada disso. O Trump não queria o Mike Pence, ele queria o Chris Christie, que está envolvido com os escândalos de corrupção em Nova Jersey. Trump não é um republicano de raiz assim como a Dilma não é uma petista de raiz; deste modo, não é visto pelos republicanos como um republicano. Ele tem também uma personalidade obstinada, teimosa e arrogante, muito parecida com a nossa ex-presidente. Ou ele se enquadra, o que é muito difícil, ou vai ter um problema de governabilidade e de legitimidade perante a população americana e o seu próprio partido. Apesar de não depender do presidencialismo de coalizão, que foi o calcanhar de Aquiles da Dilma, o fato do partido republicano ter várias figuras de peso que não o apoiam é algo que tem ser pensado sobre como as coisas caminharão.
Por fim, os republicanos que não retiraram o apoio ao Trump porque precisavam garantir a sua sobrevivência política no Congresso. Agora, a sobrevivência política está garantida e Trump não é tão importante assim. Ele é presidente eleito, vão tentar na medida do possível moldá-lo. Se não conseguirem moldá-lo, veremos coisas muito interessantes aqui.
IM – O primeiro discurso de Trump deu uma acalmada nos mercados, ele apostou num discurso mais conciliador, até elogiou a Hillary, ao contrário do que fez em toda a sua campanha…
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MB – Nesse aspecto, fazendo uma comparação com um outro político petista, o Lula, que fez uma campanha muito aguerrida e que depois virou o “Lulinha paz e amor”, ele trilhou exatamente esse caminho. Só que o Lula é uma pessoa extremamente pragmática e não tinha nenhum viés autodestrutivo na personalidade dele. O Trump tem. A dúvida que eu tenho é a seguinte: o Trump virou o “Trumpinho paz e amor”, mas até quando dura? Não acho que dure muito tempo.
IM – Você acha que, assim como ele é parecido com a Dilma, ele pode ter o mesmo final que a Dilma no governo. Ou seja, sofrer um impeachment?
MB – Eu não descarto essa possibilidade. A gente não pode esquecer que, além de Trump ser uma pessoa com personalidade totalmente controvertida, é uma pessoa que tem muita bagagem. Pode sair de tudo. Não é impossível. Aliás, é bem provável. A eleição de Trump em si deveria levar as pessoas a saírem dessa zona de conforto: “agora ele foi eleito, vai amaciar, vai ser diferente, completa os quatro anos e pronto”. Nada disso está garantido.
IM – Voltando a comparar com o Brasil, nos últimos 2 anos e meio, os investidores acabaram por olhar mais para a política até do que para a economia. A política influenciou a economia e a economia indo mal passou a influenciar a política. Você acha que pode acontecer o mesmo nos EUA?
MB – Aqui vai ser igualzinho. Os mercados vão prestar atenção no que o Trump diz, muito mais do que a Yellen ou um eventual secretário do Tesouro venha a dizer. Pela primeira vez os mercados dos EUA vão se mexer com base no que diz o presidente da República.
IM – É uma tendência mundial? Na Europa teve o Brexit, aí a Justiça decidiu que era o Parlamento que teria aprovar, gerou turbulência nos mercados, em dezembro vai ter o referendo na Itália. Como você vê esse cenário de turbulência e que a política está dominando mais o noticiário econômico do que a economia em si?
MB – Na verdade, é como o mundo é. Passamos por duas décadas da chamada Grande Moderação em que a economia operava mais ou menos independente da política. Mas isso nunca é totalmente verdade. As pessoas começaram a pensar dessa maneira, mas o mundo nunca foi assim. Olhando toda a história moderna dos países avançados e emergentes, esse é um período pequeno dentro de um contexto muito maior. O contexto muito maior é esse, em que há ciclos de esgotamento institucional. Estamos passando exatamente por um ciclo de esgotamento institucional em que as instituições estão sendo testadas em seus limites, todas elas, do Legislativo, Judiciário e Executivo em diversos países. Isso naturalmente faz com que a política seja o centro das atenções.
Certamente serão anos em que a política passa a ter palco principal na forma a economia e os mercados vão operar. O protagonismo será a política, o resto vem a reboque.
IM – Dada a expansão fiscal, também haverá uma elevação do endividamento…
MB – O déficit vai aumentar, esse é o caminho para os EUA nos próximos anos. Vão também surgir questões mais à frente, não de imediato, sobre a sustentabilidade de seguridade social, coisas muito parecidas com o que vimos no Brasil.
IM – Qual seria a diferença dessa política do Trump para a política realizada pela Dilma?
MB – A principal diferença é que uma é emergente e outra é a principal economia do mundo, que é emissor da principal moeda de reserva internacional. Nesse aspecto, a resistência da economia americana é muito maior em relação à brasileira frente a qualquer tipo de populismo econômico. A segunda é que, ainda que o partido republicano vá ter uma postura muito mais gastadora do que teve no passado, inclusive porque concordou com essa plataforma do Trump, há ainda muitos pesos e contrapesos. Ou seja, a probabilidade de Trump ser um maluco absoluto, jogar o déficit na estratosfera como fez a Dilma é muito menor. É bem diferente institucionalmente, falando em termos de importância mundial e de ser emissor da moeda de reserva. São linhas gerais bem parecidas, mas temos que fazer várias ressalvas.
IM – Falam que o Trump ter o controle do Senado e da Câmara poderia ser um fator de mais estabilidade do que se a Hillary fosse eleita, porque sabíamos que pelo menos a Câmara não teria maioria democrata. Pelo fato de ter um racha do Partido Republicano a instabilidade será um fator ou ele terá mais estabilidade mesmo assim?
MB – Isso é incerto. Ele tem mais estabilidade no início, passa tudo o que quiser passar no início, ainda mais se forem bandeiras dos republicanos. Trump passará outras coisas na área fiscal também, possivelmente uma mudança nas leis de imigração mais apertadas. Porém, ele não tem a simpatia da base republicana. No momento que ele der algum tipo de escorregada, algum tipo de declaração que não estiver de acordo com a base quer, tomará um puxão de orelha. Ele está numa posição confortável sim para tirar o Congresso da paralisia nessas questões. Mas, para além disso, é bom lembrar que o Trump não é visto pelos republicanos como um republicano.
IM – Agora, na América Latina, estamos vendo nomes como o Macri na Argentina, o PPK no Peru, no Brasil teve o impeachment da Dilma e assumiu o Temer com um discurso mais responsável na área fiscal, enquanto nos EUA teve a ascensão dessa bandeira mais populista. Por que essa mudança?
MB – São os ciclos. Na América Latina, passamos por um ciclo de políticas populistas que perduraram por muito tempo, a Argentina foi o exemplo mais longo disso. O que estamos presenciando na América Latina é um repúdio a esse populismo desenfreado que levou a uma desarrumação muito grande nas economias. Nos EUA, está acontecendo o reverso disso no seguinte sentido: há governos mais responsáveis, tanto aqui quanto na Europa, mas eles estavam lidando com as sequelas da crise de 2008 porque foram esses os países mais atingidos. A recuperação foi mais lenta do que se almejava, a queda do desemprego nos EUA foi mais lenta do que se queria, a renda de muita gente continua estagnada.
O que existe nos EUA é uma fadiga com relação a governos que tentaram ser pragmáticos na medida do possível, mas que não entregaram os resultados esperados. Tem uma guinada populista por se perceber que talvez, com maior populismo, tenha-se isso. Então são momentos muito diferentes, situações muito diferentes. Ambos denotam esgotamento de modelos. No caso da América Latina, o esgotamento de um modelo populista. No caso das economias avançadas, o esgotamento de um modelo mais pragmático que não conseguiu entregar a melhora tão rápida das economias como se esperava depois da crise financeira de 2008.
IM – Mas o Trump foi um caso que muitos analistas políticos dos EUA não esperavam, uma vez que Obama tem uma alta popularidade, o desemprego está baixo…
MB – É importante enfatizar para o leitor brasileiro que o Trump não foi eleito pela maioria dos eleitores americanos, tanto que ele foi eleito com menos votos totais. Quem queria o Trump foram exatamente as pessoas que, por muitos anos, foram deixadas para trás pelos dois partidos. A eleição nos EUA, por ser indireta, dá um peso maior a esse eleitor do que daria o voto popular direto. Pelo voto popular direto daria a Hillary, e olha que nem todos foram computados.
Isso é importante: o americano não está repudiando o progressismo, o liberalismo. O que aconteceu foi o que aconteceu com o Brexit. Havia uma parcela da população que estava muito desiludida e que foi em peso às urnas. Esse eleitor fervoroso do Trump foi em peso às urnas. O eleitor democrata, menos fervoroso com a Hillary, não foi em peso, mas ainda assim foi de tal forma a fazer com que ela estivesse na dianteira no voto popular. Isso é muito importante. Quem votou foram bolsões muito específicos de uma certa camada da população americana, que não é a maioria, embora ela esteja muito espalhada pelos estados. Olhando para o mapa eleitoral, vê-se essa onda vermelha cobrindo o mapa americano. Mas na eleição passada também vai ver isso. Tem estados aqui, sem tanta população, rurais, que votam republicano sempre, independentemente do candidato. Quem fez a diferença foram os estados que votavam democrata do “rust belt” que há muito tempo não se sentem protegidos pelo Partido Democrata e tentaram algo diferente. E o Trump desenhou uma mensagem voltada exatamente para esse eleitor.