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LONDRES – A renúncia forçada de Chávez na Venezuela tirou um fator de insegurança dos ombros dos países emergentes no mercado financeiro internacional, que viveu uma sexta-feira de quase euforia. Foi uma espécie de alívio e as cotações de todos os títulos subiram de um dia para o outro.
“Os papéis do Brasil foram os mais beneficiados. Até mesmo os títulos lançados na quinta-feira, pelo Tesouro, que haviam tido uma receptividade pouco entusiástica, colocados a 98% do valor de face, se recuperam rapidamente e no fim da tarde já eram negociados a 100%”, informa uma fonte da City. Os C-bonds da dívida externa, na quinta-feira cotados a 82% do valor de face, valorizaram-se e fecharam em Londres a 83%, nível a que haviam chegado há pouco mais de uma semana, e recuado após as incertezas eleitorais no Brasil.
O Brasil foi o mais beneficiado não apenas pelo fator Venezuela, diz outra fonte, mas também porque é um grande importador de petróleo e com a saída de Chávez os preços recuaram ainda mais. O Brent para entrega em julho estava abaixo de US$ 23,32 o barril e na Bolsa Mercantil de Nova York no fim da tarde era cotado a US$ 23,60, com tendência de baixa. Só nessa semana, a queda foi de 9%. Para muitos analistas, agora será muito difícil para a Opep manter até mesmo o seu piso mínimo de US$ 25, aprovado em sua última reunião.
Mudança dramática
“A saída de Chávez pode mudar dramaticamente o cenário global do mercado petrolífero pois sua política, praticamente isolada dentro do país, era de reduzir a produção para aumentar os preços. Isso pode criar muitos problemas para outros países, como a Arábia Saudita”, afirma John Kiduff, vice-presidente da empresa de Análise de Risco da área de energia Firmat USA Inc., em Nova York. “Os embarques de petróleo e gasolina da Venezuela deverão voltar ao normal dentro de alguns dias”, acrescenta Kyle Cooper, analista da Salomon Smith Barney.
“A coisa mais terrível do governo Chávez era que ele não só reduziu a produção, mas também a capacidade de mantê-la ou aumentá-la” (desencorajando os investimentos externos), assinala Juan Carlos Soza, presidente do Grupo Petroleo YV, empresa de consultoria de Caracas. Mais importante no cenário petrolífero mundial, acrescenta ele, é que “a Venezuela pode voltar a ser, como antes, o primeiro fornecedor de petróleo para os Estados Unidos. Depois de Chávez, estaremos em boas condições para isso, ou seja, exportar 1 milhão de barril/dia para o mercado americano, metade das nossas vendas atuais.” A maior tranqüilidade no mercado americano, maior importador mundial, seguramente tenderá a reduzir os preços e a sua dependência do Oriente Médio.
Não foi só o isso
Mas não foi apenas pelo fator Chávez que os títulos brasileiros se valorizaram mais que os mexicanos e russos, por exemplo.
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“Houve uma outra boa notícia, o anúncio que o governo vai pôr à venda no mercado mais ações do Banco do Brasil”, assinala outra fonte. Segundo cálculos preliminares, isso poderá render para o Tesouro cerca de R$ 1 bilhão. É mais um fato positivo que reforça os bons dados fundamentais da economia, e, conseqüentemente, fortalece a imagem do País aqui na City.” Os papéis do Banco do Brasil, vencendo em 2003, por exemplo, só não se valorizaram mais porque já estão 3% acima do seu valor de face, ou seja, 103%.
Para outro analista – este mais bem-humorado à espera de um fim de semana com sol primaveril, em Londres – “se o governo soubesse que Chávez ia cair na quinta-feira, poderia até ter deixado para lançar aquele US$ 1 bilhão na sexta ou na segunda e levantaria o US$ 1,3 bilhão que pretendia até a um preço menor…” De qualquer forma, até esses papéis se valorizaram e o resultado da operação não surpreendeu. Na verdade, a reação do mercado àquela operação já havia sido antecipada em nossa última coluna, quando registramos que o mercado financeiro da City havia “recebido as primeiras sondagens animado, mas sem muito entusiasmo”. O mercado estava à espera de Chávez…
E lá vem o aço de novo…
A briga do aço, aqui na Europa, inicia um novo capítulo que interessa muito ao Brasil. As grandes empresas, principalmente alemãs e britânicas, estão se opondo fortemente a qualquer retaliação da comunidade contra os EUA, simplesmente porque isso acabaria prejudicando a retomada das exportações, que estará reanimando a economia européia. A comissão européia pretende impor sanções a uma lista de produtos importados dos EUA, num valor da ordem de US$ 2,2 bilhões. Na verdade, somente a França defende, isolada, essa posição, que acabaria prejudicando mais as empresas européias que as americanas. O presidente da Associação Internacional de Comércio de Aço, Dick Sands, enviou carta irada ao Financial Times, afirmando que não é do interesse dos consumidores europeus em geral, e principalmente os que utilizam produtos de aço, pagar preços mais caros “para proteger, por motivos político-eleitorais, a ineficiência dos produtores de aço (europeus)”. No fundo, diz ele com todas as letras, o que está havendo é uma luta entre “poderosas vozes (da indústria do aço) nos corredores do poder dos EUA e da União Européia”, com prejuízo de parceiros comerciais e de todos os consumidores europeus. Ufa!… Para um cavalheiro britânico, geralmente fleumático, parece que o sr. Sands perdeu mesmo a calma. E deu certo. Conseguiu levantar os outros consumidores contra o “non sense” dessa briga do aço que, ficou agora ainda mais claro, não é nossa…