Dois mundos

Teste de Estresse avalia efeitos da explosão do dólar sobre 2 empresas endividadas na Bolsa

Do lado da BR Malls o clima, em tese, seria de maior tranquilidade, visto que o cupom está hedgeado até 2020. O mesmo não se pode dizer da BR Properties, cujo hedge vence neste trimestre

SÃO PAULO – Em um momento em que o dólar não para de subir, o mercado já começa a avaliar os efeitos sobre as contas e os resultados das empresas com maior exposição às variações do câmbio. Se por um lado os papéis das exportadoras são destaque de ganhos na Bovespa neste ano, graças à disparada da moeda americana e a formação de um cenário promissor para elevar a lucratividade, por outro, há uma série de companhias que sofre a cada centavo de valorização da divisa ante o real. Nesta ponta, existe um grupo especial de companhias que têm suas dívidas lastradas em dólar.

É o caso das administradoras de shoppings centers BR Malls (BRML3) e BR Properties (BRPR3), que, apesar de drama em comum, têm horizontes bastante distintos. Até mesmo se levarmos em conta o retrospecto recente na Bolsa, há grandes diferenças entre o par. Enquanto a primeira vê seus papéis sendo negociados na casa dos R$ 11,50, com desvalorização acumulada de 28% no ano e 45% em 12 meses, a segunda respira um pouco mais aliviada com a cotação superando os mesmos R$ 11,50 da rival. No caso da BR Properties, este patamar de preço da ação significa ganhos superiores a 5,5% em 2015, mitigando parte das perdas do ano anterior. No acumulado dos 12 meses, o desempenho ainda é negativo em cerca de 25,5%.

Um Teste de Estresse feito pela equipe do Citi deu novas ferramentas para os investidores que acompanham de perto o setor e as divergências entre as duas companhias. O estudo levou em conta o cenário para o mercado com o real ainda mais desvalorizado e seus efeitos sobre a situação da dívida da dupla. Em ambos os casos, o efeito avaliado foi não caixa. “Enquanto BRML3 e BRPR3 têm dolorosa exposição ao dólar em um trimestre em que o real depreciou 20% em relação à moeda americana, os impactos são sentidos diferentemente”, disseram os analistas. Do lado da BR Malls o clima, em tese, seria de maior tranquilidade, visto que o cupom está hedgeado até 2020. O mesmo não se pode dizer da BR Properties, cujo hedge vence neste trimestre.

No entanto, os efeitos esperados são negativos para as duas empresas, conforme ressaltaram os analistas do banco. “Com o câmbio a R$ 3,84, preço-alvo de BRPR cai 7%, seu endividamento é de US$ 285 milhões; já no caso da BRML, a dívida é de US$ 405M, e alvo cai 6%”, escreveram Dan McGoey e Guilherme Capparelli em relatório enviado a clientes. A coisa piora quando o teste de estresse simula o dólar a R$ 4,50. Caso isso ocorresse, dizem os especialistas, a dívida total da BR Malls cresceria em R$ 567 milhões, o valor dos papéis despencaria 11%. Já no caso da BR Properties, eles esperam crescimento de dívida líquida em R$ 399 milhões e uma queda de 13% nos papéis. Outras companhias do setor de administração de shoppings, Iguatemi (IGTA3) e Multiplan (MULT3) não têm impactos significativos esperados por não apresentarem endividamento lastreado em dólar.