Terras raras do Brasil na mira global: o que negócio bilionário indica além da Bolsa

A compra da Meteoric Resources pela australiana Lynas reforça o crescente interesse global pelos projetos brasileiros de terras raras, apontam analistas

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A compra da Meteoric Resources pela australiana Lynas reforça o crescente interesse global pelos projetos brasileiros de terras raras e coloca o país no centro da disputa por novas fontes desses minerais estratégicos.

A Lynas assinou um acordo vinculante para adquirir 100% da Meteoric, dona do projeto Caldeira, em Poços de Caldas (MG), em uma operação avaliada em cerca de US$ 672 milhões, ou R$ 3,4 bilhões. Segundo o Itaú BBA e o Bradesco BBI, o negócio reforça a consolidação do setor brasileiro de argilas iônicas e estabelece uma nova referência de valuation para outros projetos do país.

As ações da Meteoric chegaram a subir 56%, para 0,26 dólar australiano, enquanto os papéis da Lynas recuaram 6,4%. O movimento refletiu, de um lado, o prêmio embutido na aquisição da Meteoric e, de outro, questionamentos dos investidores sobre os benefícios do negócio para a Lynas e os riscos técnicos envolvidos no processamento de uma nova matéria-prima.

A operação será paga integralmente em ações e depende da aprovação do Conselho de Minerais Críticos (CIMCE). Os acionistas da Meteoric receberão 0,0207 nova ação da Lynas por ação. O projeto Caldeira já tem estudo de viabilidade definitivo, com investimento estimado em US$ 498 milhões, produção média anual de 3,9 mil toneladas de neodímio e praseodímio (NdPr) e 127 toneladas de disprósio e térbio (DyTb), com início da produção previsto para 2028.

Para o Itaú BBA, a transação mostra que ativos brasileiros avançados de terras raras estão se tornando mais escassos. A avaliação da Caldeira passa a servir de referência para a Colossus, projeto da Viridis, que aparece entre os poucos ativos independentes e avançados ainda disponíveis na região.

Com base nos múltiplos implícitos da aquisição, o Itaú BBA estima que a Colossus poderia valer entre US$ 750 milhões e US$ 950 milhões, ante cerca de US$ 430 milhões atualmente. Em termos de ação, isso corresponderia a aproximadamente A$ 6,80 a A$ 8,50, contra A$ 3,83 no mercado. Pela métrica de produção, porém, o valor implícito seria menor, em torno de A$ 4,40 por ação, devido à menor produção prevista de NdPr da Colossus.

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A aquisição da Meteoric é a segunda grande transação envolvendo terras raras brasileiras em poucos meses. Em abril, a USA Rare Earth fechou acordo para comprar a Serra Verde por um valor implícito de US$ 2,8 bilhões. Para o Bradesco BBI, o movimento mostra que compradores estratégicos estão deixando de buscar apenas contratos de fornecimento e passando a adquirir diretamente ativos brasileiros de argilas iônicas.

O banco destaca que esses depósitos oferecem uma rota de produção estruturalmente menos intensiva em capital e menos complexa do que os projetos convencionais de rocha dura, além de exposição às terras raras de maior valor, como NdPr, disprósio e térbio. Esses elementos respondem por mais de 95% do valor do setor, embora representem menos da metade dos volumes.

Outro sinal apontado pelo BBI é o prêmio pago pela Lynas. A companhia ofereceu mais de 60% sobre o preço de mercado da Meteoric, apesar de o projeto Caldeira ainda estar antes da decisão final de investimento e ter produção prevista apenas para 2028. Na avaliação do banco, o negócio reforça o valor estratégico atribuído à qualidade dos recursos e à localização dos projetos.

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O Itaú BBA e o BBI também veem espaço para novos negócios no segmento. O interesse tende a se concentrar em projetos de argilas iônicas em estágio avançado, com estudos de viabilidade concluídos, licenciamento avançado e exposição às terras raras pesadas. No Brasil, o BBI aponta Viridis e Aclara como os projetos mais avançados.

Além da escassez de ativos, o movimento reflete uma questão estratégica mais ampla. Empresas e entidades apoiadas por governos dos Estados Unidos, Europa e Ásia buscam reduzir a dependência de fontes tradicionais de terras raras e garantir acesso a novos fornecedores. Nesse cenário, os projetos brasileiros de argilas iônicas ganharam relevância não apenas como oportunidades de mineração, mas como ativos estratégicos para a cadeia global de minerais críticos.

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Felipe Moreira
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