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SÃO PAULO – Primeiro foi a crise da dívida na Grécia e depois foi Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, e assim nasceram os PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, na sigla em inglês). Mas agora com o Chipre e a Eslovênia enfrentando uma situação bastante difícil, isso poderia gerar a nova expressão SIC(K) PIGS (o S vem de Slovenia, em inglês; a sigla significaria “porcos doentes”)? A pergunta foi feita pela publicação norte-americana The Atlantic.
”O euro está entrando no seu quarto ano de crise e, sinto muito, não será o último”, avalia Matthew O’Brien, editor de economia em sua coluna. Ele destaca que, mesmo com a crise financeira mostrando-se um pouco menos terrível desde que o BCE (Banco Central Europeu) ressaltar que faria o que fosse preciso para salvar a moeda comum, a batalha ainda não acabou e não está nem perto disso.
O’Brien destaca que a zona do euro não possui a estrutura fiscal e bancária de que necessita para fazer o trabalho de união monetária e não está nem perto de mudar isso. Enquanto isso, as falhas contínuas do euro continuam a sugar os países em crise. Após o Chipre ter sido forçado a aceitar um resgate e a Eslovênia parecer ser a ”bola da vez”, em meio às escolhas ruins feitas pelos bancos, a possibilidade é de o contágio se espalhar para toda a zona do euro.
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Naturalmente, o ”ciclo diabólico” entre bancos soberanos fracos e fortes não é o único problema, uma vez que a moeda comum possui diversas outras falhas. ”Estes são os quatro fatores de por que o euro, como está construído atualmente, é um dispositivo para uma bancarrota em massa”, na visão de O’Brien:
1. Dinheiro muito apertado
A zona do euro está longe do que os economistas apontam como ”área monetária ótima” sendo, em outras palavras, uma má ideia, na visão de O’Brien. Os seus integrantes são diferentes o suficiente para realizarem diferentes políticas monetárias. Entretanto, eles têm que definir uma mesma política para todos. Atualmente, este é um problema para o sul da Europa, porque seus salários relativos são muito mais altos do que os do norte, diminuindo assim a competitividade.
Segundo O’Brien, há duas maneiras de corrigir esta lacuna de competitividade. Ou os salários do norte da Europa sobem mais depressa que o normal, enquanto os dos sul ficam planos, ou os últimos também podem cair, enquanto os do norte sobem normalmente. Entretanto, uma queda dos pagamentos podem tornar mais difícil o aquecimento econômico, desencadeando um risco econômico.
2. Orçamentos apertados
A austeridade tem sido um desastre completo, aponta O’Brien, fazendo com que, na verdade, aumentasse o peso da dívida no sul da Europa, em meio à redução do crescimento da economia a um ritmo mais forte do que a queda nos custos dos empréstimos.
O’Brien destaca ainda que o euro se tornou um pacto de austeridade suicida, com o sul passando a contaminar o norte. A França, que está entre as duas regiões, acabou de perder a sua meta de déficit, a Holanda tem buscado aumentar impostos e conter os gastos e a Alemanha busca novas medidas de poupança.
3. Pouco comércio
Excluindo a Alemanha, pouco mais da metade do comércio do euro é feito entre os países do bloco. Entretanto, com uma política nociva que empurra o sul da Europa para uma depressão e o norte para recessão, estas nações não podem se dar o luxo de fazer grandes compras um do outro. Isso agrava a situação do sul, uma vez que eles precisam exportar para diminuir seus problemas.
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4. Interconexão financeira alta
O’Brien destaca, por fim, que os problemas de outros países podem se tornar rapidamente o seu próprio problema caso você possua os títulos e, especialmente, se os bancos forem maiores do que a economia. Conforme aponta, uma reestruturação no sistema bancário italiano seria tremendamente ruim para a economia francesa.
De acordo com a coluna, o euro retira a capacidade de combater recessões, em troca de taxas de câmbio fixas e fluxos de capital aberto, o que aumenta a probabilidade destes períodos ruins para a economia se transformarem em depressão. Isso acaba pressionando os salários quando houver um choque o que, para ele, é a maneira mais dolorosa e destrutiva de fazer as coisas.
O euro sofre de uma assimetria muito forte entre os países que compõem o bloco, aponta, uma vez que os devedores são obrigados a cortar salários e déficits, o que não ocorre com os credores. Assim, o norte da Europa não está fazendo o suficiente para compensar a negatividade do sul o que, por fim, acaba afundando todos eles, avalia O’Brien.
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Com isso, aponta, fazer o suficiente para manter a zona do euro hoje, eventualmente, não é o mesmo que deverá ser feito para manter o bloco amanhã, se o bloco do sul não tiver qualquer esperança de se recuperar dentro do euro. “A política vai se voltar contra a moeda comum muito antes disso”, conclui.