Temor com bancos nos EUA e dívida dos países anulam consenso do “pior já passou”

Recuperação incipiente em curso é confirmada; dados norte-americanos e da China no radar; economistas discutem perigos

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SÃO PAULO – A ideia de que o pior já passou vive à mercê de cada indício favorável ou desfavorável da economia global. Mesmo não sendo ainda possível falar em consenso, é notória a percepção de uma recuperação lenta e incipiente em curso. “O pior está provavelmente atrás, mas é preciso ser bem otimista para acreditar que o caminho à frente está tranquilo”, arrisca o banco espanhol laCaixa.

Quem repara no movimento das bolsas em 2009 encontra respaldo para a afirmação. Mês após mês indicadores econômicos ao redor do globo surpreendem previsões pessimistas. Se o dado não traz melhora consistente, basta ser menos ruim que o esperado ou indicar fim da tendência negativa, para animar os mercados.

Levando em conta a magnitude da crise, faz sentido. Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda (1994), enxerga bons sinais. Entende que a retomada está em andamento, embora ainda não seja possível qualificá-la (intensa ou frágil, rápida ou lenta). Talvez o estilo da virada se torne mais claro até o final de 2009.

O porém: se o pior já passou isso vale para a economia norte-americana e, sobretudo, aos países do bloco emergentes. “Não há uma presença tão forte de indícios positivos no caso de Europa e Japão. Por isso ainda é um panorama muito parcial de recuperação”, afirma o também diretor da Faculdade de Economia e Relações Internacionais da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado).

Esperança nos EUA

Com o avanço nos índices de confiança em todo o mundo, o primeiro argumento em favor do fim do momento mais crítico é justamente o festival de referências da agenda de indicadores norte-americana. Há números bem recebidos da produção industrial, que começa a preencher os inventários que foram esvaziados nos últimos meses, além do constante aumento do consumo.

“Há um nível de consumo nos EUA razoavelmente estabilizado, parou de cair. E alguns sinais razoáveis de parada de queda no mercado imobiliário”, destaca Francisco Pessoa, economista da LCA Consultores. O pior já foi? “A resposta é sim. A questão é saber quanto tempo ficaremos no limbo e demoraremos a se recuperar”.

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Para os economistas, está descartada também a chance de risco sistêmico, sob a égide de que aparentemente não faltará disposição do governo em caso de algum episódio grave. Já no setor automotivo, “as montadoras tiveram algumas saídas mais ou menos honradas, o que também foi importante para evitar algo mais forte”, aponta Pessoa.

Alerta nos EUA

Marcio Garcia, PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, vê dificuldades à frente, mesmo contra sua vontade. A principal delas tem a ver com bancos nos EUA, justamente após a divulgação de balanços trimestrais lucrativos. “É necessário que os bancos voltem a realizar empréstimos e não simplesmente apresentem resultados positivos”, avisa.

Para ele, a recuperação de capital tem que ser suficiente para que o banco consiga novamente emprestar em volume significativo. Não adianta simplesmente voltar a ser lucrativo e contrair muito o volume de crédito. “O crédito em si está bastante paralisado”, analisa o economista.

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Isso indica que, apesar do aumento muito grande da liquidez, através da injeção de recursos na economia, os bancos estariam sentados em cima desse dinheiro ao invés de fazer com que ele circule na economia. E muitos detêm ativos tóxicos, ainda sem solução. “Há mais problemas no sistema bancário, como, por exemplo, as hipotecas comerciais, que ainda vão produzir muito prejuízo”, conclui o professor da PUC-Rio.

Incerteza emergente

Dentro da recuperação, quando se fala em Brasil, os sinais alentadores de atividade na China merecem atenção. O PIB (Produto Interno Bruto) chinês cresceu 7,9% no segundo trimestre. A questão, entretanto, será a capacidade de a China realizar a transição de um país essencialmente exportador para se voltar ao consumo interno, dado que os EUA – destino das exportações – não possuem a mesma força de outrora.

“Se o crescimento da China não se mantiver nesse nível e ela não conseguir fazer essa transição de uma economia que exporta muito e consome muito pouco para uma economia que consome razoavelmente, isso será negativo”, observa Marcio Garcia. Em termos de percentual do PIB, o consumo interno da China é de 35%, já tendo sido mais de 50%. A título de comparação, o dos EUA já chegou a 70%.

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“É preciso reconhecer que, em parte, o crescimento do segundo trimestre se deveu justamente ao plano de estímulos (cerca US$ 580 bilhões) do governo asiático que é basicamente um pacote de investimento interno e, portanto, de estimular o consumo interno”, avalia Rubens Ricupero, para quem o esforço interno já reflete neste PIB trimestral.

Incerteza desenvolvida

Outro questionamento em torno do final da crise é o nível de endividamento das economias centrais, atribuladas com medidas expansivas nas áreas monetária e fiscal. “A piora acelerada das contas do setor público ameaça a estabilidade da economia e pode significar problemas sérios se a recuperação não for tão rápida”, segundo avaliação do laCaixa.

Já o ex-ministro da Fazenda é menos pessimista. Afirma pensar como Paul Krugman e boa parte dos economistas que julgam que a curto prazo não há perigo. Para ele, os BCs têm condições de agir muito rapidamente para evitar a inflação. “Isso só será um perigo real se países como EUA e Reino Unido cederem à tentação de saírem do endividamento via inflação [imprimindo moeda]. Mas não há nenhum indício que cogitem essa hipótese”.