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A presidente Dilma fez um lance audacioso ao escolher o vice-presidente da República Michel Temer para comandar a articulação política de seu governo, depois do vexame que foi a recusa do ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, também peemedebista como Temer, de assumir a Secretaria de Relações Institucionais.
Foi uma manobra ousada, talvez fosse a única saída que ela tinha para tentar enquadrar o rebelde PMDB, que nunca foi de recusar nem função de gandula em jogo Corinthians e Palmeiras no velho Pacaembu. Mas foi um improviso, como quase tudo que tem acontecido no Dilma II e tem mais possibilidades de dar errado do que dar certo.
Por algumas das razões que se seguem:
1. Temer é vice-presidente da República, portanto, indemissível. Se houver algum equívoco na condução da articulação, alguma falha, Dilma não poderá tirar a função dele sem causar uma séria crise institucional. Ainda mais que as funções burocráticas da extinta secretaria foram transferidas para a vice-presidência. Como esvaziá-la sem romper definitivamente com Temer?
2. Temer nunca foi da copa e da cozinha governamental. Foi um vice utilizado apenas nas horas mais complicadas e decorativo na maior parte das vezes. No início do segundo mandato ficou totalmente para escanteio, passou dois meses sem falar com a presidente. Somente quando as dificuldades de Dilma com o PMDB engrossaram de vez, foi chamado a participar dos encontros do grupo de articulação política.
3. Temer terá os mecanismos burocráticos para operar. Terá, porém, os instrumentos reais de poder que dão força ao articulador político nesse presidencialismo brasileiro de coalização com cooptação? Tipo: liberar verbas das emendas parlamentares e indicar os nomeados para o segundo escalão, estatais, agências, etc? Sem isso fará figuração apenas.
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4. Temer vai ser o líder da articulação ou terá de dividir a decisões com o núcleo duro anterior, principalmente os ministros Aloizio Mercadante e Miguel Rossetto? Vão ser apenas ele e Dilma ou haverá alguém mais apitando o jogo? Mercadante vai largar o osso de primeiro-ministro para tudo no governo, inclusive na política? É bom lembrar que tanto Lula e o PT quanto o PMDB reclamavam demais mesmo era da interferência de Mercadante nas questões políticas, o problema deles não era diretamente com o ministro defenestrado, Pepe Vargas.
5. Temer não lidera o PMDB com essa bola toda que seus cargos de vice-presidente da República e presidente nacional do partido aparentemente indicam. O PMDB tem pelo menos três alas: a dele próprio, a de Eduardo Cunha e a de Renan Calheiros. Além de outras alas com liberdades paralelas, como a de José Sarney, a dos independentes, tipo Roberto Requião e Jarbas Vasconcelos, a dos governadores. Tanto que o vice já falhou na sua primeira missão de coordenador: não conseguiu que os senadores Requião e Luiz Henrique retirassem suas assinaturas na CPI do BNDES que a oposição está propondo.
6. Temer na coordenação política atende sugestão de Lula de dar-se mais espaço ao PMDB nesta área. Porém, isto não significa que o PT como um todo vá gostar. Aliás, petistas ontem estavam amuados com a indicação do vice. A relação com ele, institucionalmente, será muito mais complicada do que seria com um ministro sem o peso do cargo de Temer. Além disso, lembravam alguns petistas, toda a força da política está agora com o PMDB: Temer no Executivo e Cunha e Calheiros no Legislativo. Outros ainda lembravam: Temer vai articular também com os prefeitos. E ano que vem tem eleição municipal.
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7. Por fim, Temer é vice-presidente e vive, portanto, alguma expectativa de poder e preside um partido que se prepara para desligar-se da aliança governista em 2018 e lançar um candidato próprio ao Palácio do Planalto.
Dilma pode ter a sorte de tudo isso ser contornado. Contudo, a impressão geral é que ela não meteu apenas e mão no vespeiro, entrou nele de corpo inteiro.