Temer e Meirelles precisam correr para administrar a confiança dos agentes econômicos

Ainda há barulho na política, com os recursos ao STF de Dilma e dos adversários e com algumas manifestações de rua. Porém, o que começa a preocupar são as dificuldades na área de ajuste fiscal.

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A briga política continua conturbada, com os recursos de ambos os lados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ainda algumas manifestações, com gestos de violência, nas ruas de algumas cidades, principalmente em São Paulo, mas tende a amainar – faz agora parte apenas do que Lula gosta de chamar de fazer o “enfrentamento político”.

As informações de quem conhece o meio é que o Supremo não deverá se meter em nenhuma das questões ainda em disputa – a cassação de Dilma Rousseff de um lado e a salvação dos direitos políticos da ex-presidente de outro – e há pouca gente disposta da ficar permanentemente em vigília nas ruas.

Abre-se, assim, para o presidente Michel Temer, tão logo ele aporte no Brasil após o périplo chinês, a oportunidade para buscar o equilíbrio em sua base aliada, com vistas às desafiadoras votações que tem pela frente no Congresso Nacional. A votação da manutenção dos direitos políticos de Dilma, deixou sim sequelas entre os partidos da composição governistas. O DEM e o PSDB estão de fato agastados com o PMDB, pelo menos com o PMDB que segue a orientação mais do senador Renan Calheiros que a do Palácio do Planalto.

E Temer precisa dessa tranquilidade porque, apesar de seus discursos de reafirmação dos compromissos com a austeridade fiscal, crescem as desconfianças de que o governo ainda vai fazer concessões nesta área, inclusive na que envolve os gastos com pessoal, que está aparecendo como um dos principais calcanhares de Aquiles do ajuste das contas federais.

Segundo cálculos de alguns técnicos independentes, apresentados por uma reportagem do “Correio Braziliense”, a folha salarial, pelo que consta da proposta orçamentária, chegará da R$ 284 bilhões em 2017, um aumento de 9,1% ante o gasto deste ano. Será a maior alta de gasto com pessoal desde 2010. O que contrária o princípio proposto na PEC do Teto de Gastos, que estabelece que as despesas só poderão crescer no limite da inflação do ano anterior – isto é, para 2017 em torno de 7%.

O Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem explicado que o teto é global, ou seja, quando cresce numa rubrica é compensado em outra. Isto para demonstrar que as áreas de saúde e de educação não serão necessariamente prejudicadas.

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Porém, em se tratando da questão com pessoal cria ruídos sim, pois foi a partir de uma série de concessões que o governo fez em aumentos com os servidores que se acendeu um sinal amarelo nos agentes econômicos sobre as reais condições e disposição do governo de enfrentar esse problema. A desconfiança pode ser agravar quando se vê que a proposta orçamentária contempla aumento de gastos de pessoal com o Judiciário. E ontem se tentou votar a urgência para esse projeto no Senado, sustado à última hora pelos tucanos.

No Orçamento, R$ 50 bi de

receitas incertas

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O governo, contudo, nega que dê apoio ao reajuste dos ministros do Supremo, que desencadearia aumentos em cascata, defendido pelo PMDB e ardorosamente pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. Mas tal provisão no Orçamento deixa suspeitas no ar, até porque há cerca de R$ 50 bilhões previstos na receita que podem não se realizar, pois dependem de concessões e vendas de ativos.

Mais do que a crise política ainda reverberando, o presidente Temer, com o auxílio do ministro da Fazenda e equipe, terá de administrar mais e mais as expectativas econômicas. Com alguma ação rápida, contundente.

Um dado para os governantes e os políticos em geral considerarem, se tiverem tempo: uma pesquisa da Ipsos, divulgada hoje pelo “Valor Econômico”, aponta o grau de degradação da imagem da trupe: a descrença da população é generalizada, independentemente de partido político, cargo, sexo ou posição no espectro ideológico.

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O campeão de desaprovação é Eduardo Cunha, com 77%. A seguir, na lista, pela ordem: Dilma, Temer, Lula, Aécio, Serra, Fernando Henrique e Alckmin. No ângulo oposto, no dos mais bem vistos, ninguém alcança nem um terço da satisfação popular: a melhor colocada é Marina Silva com 29%; depois estão Russomano, Lula e Tiririca.

Outros destaques dos

jornais do dia

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– “39% dos reajustes salariais do 1º trimestre ficam abaixo da inflação” (Folha)

– “Mercado aposta em queda de juros no próximo mês” (Valor)

– “Indenização de empresas de energia custará R$ 52 bi aos consumidores” (Valor)

– “Comércio exterior: importações têm menor queda desde 2014” (Valor)

– “Temer vai mudar Bolsa Família: novas regras de acesso serão mais rigorosas” (Globo)

– “Lava-Jato: MPF suspende acordo de leniência da holandesa SBM” (Globo)

– “Aliados de Temer recorrem para tornar Dilma inelegível” (Globo)

– “Na China, Temer minimiza manutenção dos direitos de antecessora” (Folha)

– “Ministros do STF criticam votação que favoreceu Dilma” (Folha)

LEITURAS SUGERIDAS

1. Editorial – “Orçamento otimista” (diz que previsão de Temer e Meirelles para 2017 conta com crescimento do PIB mais vigoroso do preveem analistas de mercado) – Folha

2. José Paulo Kupfer – “Fator complicador” (decisão fatiada do impeachment lança novas desconfianças no mercado sobre a capacidade de Temer e levar a bom termo o prometido ajuste da economia) – Globo

3. Míriam Leitão – “O Orçamento de Temer” (diz que para 2017 há R$ 50 bilhões de receitas incertas, mas que governo diz que se elas não aconteceram, as despesas serão contingenciadas) – Globo

4. Cláudia Safatle – “As reformas de Temer” (diz que previdência e gasto público são dois icebergs à frente) – Valor

5. Armando Castelar Pinheiro – “Recuperação ou estagnação” (diz que espaço para expansão dos investimentos e das exportações é pequeno – e ajuste de mercado de trabalho leva tempo) – Valor