Taxa Selic muito aquém de dois dígitos perturba padrão de equilíbrio internacional

Economistas veem limite na queda do juro, temendo situação de perda da atratividade para tomar risco cambial no Brasil

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SÃO PAULO – Partindo do pressuposto de que um dos objetivos da política econômica é equilibrar as flutuações de curto prazo da economia, a equipe da administração Lula tem pela frente um dilema capaz de jogar por água abaixo qualquer indicação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em relação a uma taxa básica de juro brasileira muito aquém dos dois dígitos em 2009.

Por um lado, a dinâmica da taxa básica de juro praticada no Brasil carrega a missão de equilibrar demanda e oferta agregada de modo a garantir bom crescimento econômico com inflação sob controle. Sob essa ótica tradicional, o Copom guia suas decisões quanto à taxa Selic, visando atender às metas definidas pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

Já os bancos centrais que não adotam uma meta oficial de inflação usualmente trabalham com uma regra de Taylor, grosso modo, definindo o juro básico de modo a devolver a economia ao seu crescimento potencial.

Um outro olhar

Embora seja natural chegar a um juro de equilíbrio através da estimativa de interação simultânea da oferta com a demanda agregada domésticas, há como se olhar sob uma outra ótica, através das finanças internacionais.

A partir das contribuições de Robert Mundell, ganhador do prêmio Nobel de Economia de 1999, a estimativa simultânea das forças acima pode dar lugar a um mecanismo recursivo, assumindo que os países em questão trabalham com contas de capital abertas. Em outras palavras, o juro aqui dentro precisa ser igual ao juro lá fora, ajustado por todos os custos e riscos.

Relação controversa

Paulo Tenani, sócio da Pragma Patrimônio e professor de Finanças Internacionais da Fundação Getulio Vargas-SP, acredita que o atual patamar do risco-Brasil não dá espaço para reduções adicionais folgadas na Selic.

“O risco-Brasil vem caindo, mas tem caído muito menos que a média de outros emergentes, e na verdade tem caído na mesma proporção que subiram as taxas longas mundiais”, ensina o economista. “Então os yields (taxas de juros em dólares da dívida externa soberana brasileira) continuam parados”. Eis aí uma das forças fundamentais para determinar a taxa de juro no Brasil.

Desde o início do ano, o risco País caiu 100 pontos-base, oscilando agora em torno de 320 pontos (ou 3,2%). Enquanto os yields dos títulos de 30 anos do Tesouro norte-americano saíram de 2,7% para 4,2%. Nesse ínterim, a Selic caiu agressivamente, de 13,75% para o patamar nominal de 10,25% ao ano.

Zona de perigo

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O investidor global estaria recebendo um juro em reais no Brasil apenas um pouco superior ao juro oferecido em dólares, o que não seria suficiente para estimular a tomada de riscos de variações na taxa de câmbio. “É aquela situação em que o investidor global não é bem compensado para tomar risco cambial no Brasil. E isso impõe uma limitação sobre quanto o juro básico pode cair”.

Alguns especialistas chamam a região em que a Selic não é tão interessante comparada aos yields externos brasileiros de “zona de perigo”. “Quando você derruba muito a Selic, dado o pouco que o País paga lá fora, o câmbio começa a adquirir vida própria, se mexendo sem os fundamentos se moverem. É uma primeira condição para quando houver um choque negativo, o câmbio ter uma depreciação muito acirrada”, alerta Tenani.

Uma Selic a 7,25% ao ano – sinalizada recentemente por Mantega – representa uma visão otimista na opinião de Marcio Garcia, PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio. “Do ponto de vista de equilíbrio externo, talvez seja baixa demais. Uma faixa que você assistiria ao capital saindo, ao invés de entrando”. O economista, contudo, teme outro aspecto.

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Controle de preços

Para Garcia, o principal problema não é a perda de atratividade dos títulos brasileiros. “Você pode ter outros fluxos de capital, como por exemplo, investimento direto”, minimizou. O grande temor é o controle do nível geral de preços. Segundo ele, é irrealista do ponto de vista do equilíbrio doméstico uma taxa de 7,25% ao ano, levando em conta que, com uma inflação de 4,5%, teríamos uma taxa real de 3,5%.

“Em cenário de inflação sob controle, uma taxa como essa só se justificaria em momentos em que o hiato do produto estivesse muito alto, ou seja, a economia em recessão. Agora como equilíbrio de longo prazo, eu acho uma ideia extremamente otimista pelo histórico brasileiro de controle da inflação”, comenta. “Torço para que o ministro tenha razão, mas, como economista, não vejo evidência”.