Tarifas? “Sell America” explica maior parte da queda do dólar desde 2025, aponta Itaú

Estudo do Itaú conclui que a desvalorização recente da moeda americana está mais ligada ao aumento da aversão institucional aos Estados Unidos do que a tarifas ou fundamentos econômicos, enquanto inteligência artificial e prêmio de risco ajudam a explicar o movimento dos juros de longo prazo.

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A forte reprecificação dos ativos americanos desde o início de 2025 foi impulsionada principalmente por uma deterioração da percepção institucional dos Estados Unidos, segundo estudo divulgado pelo Itaú Unibanco. O banco conclui que o fenômeno conhecido como “Sell America” foi o principal responsável pela queda do dólar e por parte relevante das mudanças observadas na curva de juros americana ao longo do período.

Segundo os economistas do Itaú, os mercados passaram por uma mudança significativa desde o início de 2025. No período, o dólar ponderado pelo comércio global acumulou desvalorização próxima de 9%, enquanto o ouro avançou cerca de 50% e o S&P 500 registrou alta de 26%. A inclinação da curva de juros americana também aumentou, refletindo mudanças na percepção de risco dos investidores.

Para analisar esses movimentos, o banco utilizou um modelo estatístico que busca separar os impactos de diferentes choques econômicos e políticos sobre os ativos financeiros. Entre os fatores avaliados estão tarifas comerciais, política monetária, independência do Federal Reserve, commodities, inteligência artificial e o chamado “Sell America”.

Dólar fraco tem origem principalmente institucional

A principal conclusão do estudo é que a perda de valor da moeda americana foi causada majoritariamente pelo aumento da aversão dos investidores aos ativos dos Estados Unidos.

Segundo o Itaú, cerca de 4,7 pontos percentuais da desvalorização do dólar podem ser atribuídos diretamente ao fenômeno “Sell America”, enquanto outros 3 pontos percentuais vieram de episódios relacionados a questionamentos sobre a independência do Federal Reserve. A política monetária respondeu por mais 1,7 ponto percentual do movimento.

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Na prática, isso significa que aproximadamente 8 dos 9 pontos percentuais de queda do dólar desde janeiro de 2025 refletem preocupações com a condução da política doméstica americana, incluindo decisões consideradas erráticas, incertezas institucionais e questionamentos sobre a autonomia do banco central.

O banco ressalta que esse componente poderia ser revertido em um cenário de maior previsibilidade das políticas públicas, fortalecimento institucional e sinais mais claros de responsabilidade fiscal.

Inteligência artificial e prêmio de risco explicam curva de juros

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O estudo também conclui que o aumento da inclinação da curva de juros americana não decorre apenas das expectativas para a política do Fed.

Segundo os cálculos do Itaú, o fenômeno “Sell America” contribuiu com cerca de 20 pontos-base para a abertura da diferença entre os títulos de 10 e 2 anos dos Estados Unidos. Outro componente de magnitude semelhante veio dos investimentos e perspectivas ligados à inteligência artificial.

A interpretação dos economistas é que o avanço da IA elevou as expectativas de crescimento de longo prazo e aumentou a demanda por investimentos, pressionando os rendimentos dos títulos mais longos. Ao mesmo tempo, investidores passaram a exigir prêmios maiores para manter posições em ativos americanos de prazo mais longo diante do aumento da percepção de risco institucional.

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Já os choques ligados às commodities atuaram na direção oposta, reduzindo a inclinação da curva em cerca de 14 pontos-base ao elevar as expectativas de inflação e pressionar mais fortemente os juros de curto prazo.

Ouro se beneficia da busca por proteção

O relatório mostra ainda que a busca por ativos defensivos também foi consequência do aumento das preocupações institucionais nos Estados Unidos.

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Segundo o Itaú, os choques relacionados ao “Sell America” e à independência do Federal Reserve estiveram entre os principais responsáveis pela valorização do ouro observada desde 2025. O movimento refletiu a migração de investidores para ativos considerados porto seguro diante do aumento da percepção de risco sobre os EUA.

Por outro lado, o banco aponta que os choques tarifários tiveram papel mais importante sobre as bolsas e as commodities cíclicas no início de 2025, pressionando ativos ligados ao crescimento econômico global, como cobre e petróleo Brent.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.