“Tarifa Groenlândia”: qual pode ser impacto para Europa se Trump implementar medida?

Na visão do Goldman Sachs, permanece altamente incerto se essas tarifas serão implementadas

Lara Rizério

O presidente dos EUA tem falado várias vezes sobre a ideia de enviar cheques únicos de reembolso de US$ 2.000 para muitas famílias. Crédito... Eric Lee para The New York Times
O presidente dos EUA tem falado várias vezes sobre a ideia de enviar cheques únicos de reembolso de US$ 2.000 para muitas famílias. Crédito... Eric Lee para The New York Times

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O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que os EUA imporão uma tarifa de 10% sobre as importações de oito países europeus (Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia) a partir de 1º de fevereiro. Ele planeja aumentar essa tarifa para 25% em 1º de junho e mantê-la até que os EUA cheguem a um acordo para a compra da Groenlândia.

Na visão do Goldman Sachs, permanece altamente incerto se essas tarifas serão implementadas.

Segundo o banco, as tarifas anunciadas se aplicariam aos Estados-membros da UE, que representam cerca de 270 bilhões de euros em exportações anuais para os EUA, ou aproximadamente metade das exportações da UE para os EUA.

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“As exportações afetadas representariam de 3% a 3,5% do PIB da Alemanha, Holanda e Finlândia se implementada como uma tarifa geral sobre todas as exportações de bens para os EUA e de 1,5% a 2% do PIB se implementada apenas sobre bens que já estão sujeitos à tarifa recíproca dos EUA. No total, as exportações afetadas representariam de 1 a 1,5% do PIB da zona do euro e de 1 a 2% do PIB do Reino Unido”, aponta o Goldman.

O banco estima que uma tarifa americana de 10% — se implementada — reduziria o PIB real em 0,1 a 0,2% nos países afetados por meio da redução do comércio.

A estimativa é de que o maior impacto para a Alemanha seria de cerca de 0,2% se implementada como uma tarifa recíproca incremental de 10% (o que parece mais provável) e de 0,3% se implementada como uma tarifa geral. Para a zona do euro como um todo, a redução implícita no PIB é de cerca de 0,1%, semelhante à do Reino Unido.

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“O impacto poderia ser maior caso houver efeitos adversos na confiança ou nos mercados financeiros. Mas a redução seria menor se os países redirecionassem o comércio por meio de países da UE não sujeitos à tarifa adicional”, avalia. O impacto no PIB em todos os países aumentaria para um impacto de 0,25 a 0,5% para uma tarifa de 25%. Todos esses impactos no PIB se somariam à redução de 0,4% no PIB real que estimamos devido aos aumentos tarifários do ano passado.

Para o Goldman, os efeitos na inflação provavelmente seriam muito pequenos devido à menor demanda (assumindo que não haja retaliação).

Uma regra de Taylor simples — na qual os bancos centrais respondem ao PIB e à inflação — apontaria para taxas de juros modestamente mais baixas. A chamada regra de Taylor, em homenagem a seu autor, o professor da Universidade de Stanford John Taylor, gera uma estimativa para o nível adequado de taxas de juros com base na taxa de inflação e no nível de ociosidade econômica.

O banco vê três níveis potenciais de retaliação da UE contra novas tarifas americanas:
Em primeiro lugar, atrasar a implementação do acordo comercial UE-EUA, já que a redução acordada das tarifas americanas requer ratificação no Parlamento Europeu. “Vemos um obstáculo baixo para a UE fazer isso”, aponta.

Em segundo lugar, impor tarifas retaliatórias sobre produtos americanos usando as listas aprovadas no ano passado. Estas incluem uma lista de 25 bilhões de euros que corresponde ao valor das tarifas americanas sobre aço e alumínio (incluindo soja, cobre, ferro, motocicletas, suco de laranja); ou planos anteriores para visar até 93 bilhões de euros em importações dos EUA (com tarifas abrangendo um conjunto muito mais amplo de bens, incluindo aeronaves, automóveis, produtos agrícolas, etc.). As retaliações tarifárias implicariam uma modesta pressão mecânica ascendente sobre a inflação europeia, aponta.

Também está no radar o lançamento do Instrumento Anticoerção (ACI), concebido para casos como este. O início da ativação não significa implementação (que requer várias etapas), mas sinaliza uma potencial ação da UE e permite tempo para negociação. “O ACI poderá envolver uma gama de instrumentos políticos mais abrangentes do que as tarifas, como restrições ao investimento, tributação de ativos e serviços dos EUA, como serviços digitais, etc”, avalia.

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O Goldman considera o obstáculo à retaliação do Reino Unido mais elevado, em consonância com a abordagem do Reino Unido durante as negociações comerciais do ano passado. “Esperamos que o Reino Unido se concentre no diálogo diplomático com Trump”, conclui.

    Lara Rizério

    Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.