Tanta corrupção, tão pouca memória

O Museu da Corrupção nasceu contra a impunidade – as pizzas do Planalto. Quem segue as manchetes de jornais vê que o escândalo de hoje empurra o de ontem para escanteio. E ele pode acabar

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Colunista convidado: Moisés Rabinovici, jornalista, ex-diretor de redação do “Diário do Comércio”. Foi correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” nos Estados Unidos e no Oriente Médio.

O Museu da Corrupção parou de se atualizar todos os dias. Não por falta do que expor. Com o petrolão jorrando daria até para montar uma exibição diária. Também não por problema de espaço, que é ilimitado na internet, onde ele foi aberto há seis anos, no endereço www.muco.com.br. 

O Museu da Corrupção pode acabar, por falta de recursos. Tanto sucesso fez ao abrir, em 22 de abril de 2009, que, em nove meses,recebeu o Prêmio Esso de melhor contribuição à imprensa. A coincidência com a data da descoberta do Brasil foi proposital: pesquisas confirmam que corruptores degregados e pindorama surgiram com as primeiras caravelas.

No início, o Muco requeria poucas horas do trabalho de uma pequena equipe. Mas agora, não mais, afogando no mar de lama dos propinodutos abertos na Petrobras. O Muco chegou a ter um milhão de visitantes por mês. Foi notícia aqui e lá fora, tido como antídoto à venenosa corrupção. Do mundo digital o Muco baixou fisicamente no largo de São Francisco, convidado pelos alunos de direito da USP.

Materializou-se com paineis e uma seção multimídia especial sobre a Maranhão dos Sarney. Por acaso, uma banca oferecia ali, quentinha, a pizza sarney, o bigodão de aliche – a mais concorrida do cardápio da virtual do museu, mas assada de verdade por um pizaiolo do bexiga. Havia fila para comprar um pedacinho desse Maranhão, sabor impunidade.

O Muco nasceu contra a impunidade – as pizzas do Planalto. Quem segue as manchetes de jornais vê que o escândalo de hoje empurra o de ontem para escanteio. Alguém aí se lembra da Operação Navalha, em 2007? Foram soltos todos os 46 presos acusados de comprar licitações do PAC e do Luz para Todos.

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Quem sabe que fim levou o desvio de r$ 214 milhões da Sudam, em 1999? Entre 143 presos e soltos, o ex-senador Jáder Barbalho conseguiu até ser reeleito, em 2011. A geração pós-1964 herdou depoimentos, documentos, imagens, livros, testemunhos, aulas, jornais e revistas – enfim, memória da ditadura militar que durou 21 anos. Reuniu conhecimento para responder às tentações antidemocráticas,cíclicas e não deverá, por suposto, repetir erros do passado.

O Brasil supercorrupto é, principalmente, um desmemoriado; reelege políticos flagrados recebendo propina, ou que lavam $$ em paraísos fiscais. Suspeitos são postos a investigar o butim que eles próprios compartilharam. A referência para a história está pulverizada em muitos arquivos da PF, das CPIs do Congresso, de jornais e revistas, do STF, de blogs, dos institutos de combate à corrupção nacionais e internacionais, e da ONU.

Um propósito do Muco é coletar, organizar e expor, centralizado, online, e com acesso gratuito, a corrupção e os corruptos, não os deixando escapar pelo esquecimento. Uma torre só, o museu já poderia ser um condomínio. De jornais convidados a ter sua própria torre, Três aceitaram, um apenas restou – o “Lance”, de olho nos escândalos do esporte, em tempos de Copa do Mundo e das Olimpíadas.

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Difícil acreditar que tanto se reclame da corrupção galopante no Brasil, e nada seja feito para preservar sua história. E ela vai aumentando cada dia mais: mensalão, petrolão, quem sabe apagão? (da Eletrobras). É o seu dinheiro, o meu e o nosso coletado para saúde, educação, desenvolvimento, ou para 39 ministérios, embolsado por uns poucos em postos-chave e com mandatos políticos, foro privilegiado.

Pai do Muco, compartilho sua paternidade. Que ele tenha muitos pais! Importante é que exista, se desenvolva e se torne referência nacional para pesquisas e para a história da corrupção no Brasil. Com recursos, ele poderá transmitir ao vivo operações e alertas da PF, ou julgamentos no STF e CPIs no Congresso, e promover visitas guiadas por temas ou casos.

O Muco criou uma galeria que expõe as obras de arte apreendidas de refinados lavadores de dinheiro. Poderia ainda esculpir em cera os maiores corruptos do Brasil, exibindo-os como as estátuas de Madame Tussauds, em Londres. O Museu estava preparando um salão para o acervo do petrolão, homenageando quem foi processado até morrer, em Nova York, por dizer que havia corrupção na Petrobras – o escritor e jornalista Paulo Francis.

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E ele estava certo! Já aconteceu algumas vezes: absolvidos, suspeitos pedem para sair de exposição. Ninguém quer integrar uma coleção permanente sobre corrupção. O Museu da Corrupção tem esse poder de dissuasão. Mas há muito ainda a fazer. Se não for alimentado, renovado e desenvolvido, ele vai acabar fechando as portas. Será uma pena. Alguém quer ajudar? Algum mecenas? Alguma fundação? Alguma sugestão? Crowdfounding? Crowdsourcing? (Só não são bem-vindos empreiteiras, Petrobras, partidos politicos e órgãos do governo federal, estadual e municipal).