Super Quarta: como o mercado pode reagir às decisões do Copom e do Federal Reserve?

Decisões de Brasil e EUA devem manter juros elevados por mais tempo, reforçar busca por empresas sólidas e exigir mais seletividade em câmbio, renda fixa e crédito

Erick Souza

Os presidentes do Fed, Jerome Powell e do BC, Gabriel Galípolo (Montagem do InfoMoney/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e REUTERS/Tom Brenner)
Os presidentes do Fed, Jerome Powell e do BC, Gabriel Galípolo (Montagem do InfoMoney/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e REUTERS/Tom Brenner)

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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne nesta quarta-feira (29), a partir das 18h30 (horário de Brasília), no mesmo dia da decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos, marcada para as 15h.

A chamada “Super Quarta”, a segunda deste ano, acontece em um contexto parecido com o da reunião anterior: guerra no Oriente Médio e expectativa de corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na taxa básica de juros no Brasil, de 14,75% para 14,5% ao ano, ainda que exista certa divisão no mercado sobre o tema.

Da mesma forma, a expectativa dos economistas é de que o tom da reunião do Copom seja semelhante ao da decisão anterior, com a manutenção de um discurso cauteloso diante do forte cenário de incerteza.

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Para a XP, inclusive, o tom hawkish (mais duro, com maior preocupação em relação à inflação) deve ser ainda mais forte do que o da última reunião, reforçando a necessidade de uma condução prudente da política monetária para mitigar efeitos de médio prazo decorrentes dos choques inflacionários. “Mas não a ponto de sinalizar uma possível interrupção do ciclo de calibração no curto prazo”, aponta a casa.

A reação dos mercados também deve seguir a linha de cautela. “Pensando de 45 dias atrás para agora, a situação da guerra não melhorou muito em termos do que pode acontecer com os principais ativos econômicos”, afirma Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.

Segundo ele, empresas mais sensíveis ao risco, como as dos setores de construção, varejo e companhias mais alavancadas, podem ter algum alívio. “Mas, claro, estamos em temporada de balanços, então daqui a pouco tudo isso começa a se misturar”, ressalta.

Empresas sólidas

De acordo com Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o cenário pós-decisão do Copom deve reforçar a preferência por empresas com balanços robustos e menor dependência de alavancagem.

Para o economista, o efeito líquido no mercado acionário tende a ser assimétrico. “Juros em queda sustentam múltiplos, mas o canal de crédito permanece restritivo, o que limita uma reprecificação mais agressiva do Ibovespa”, explica.

“A leitura dominante não é direcional, mas de dispersão”, argumenta Lima. Segundo ele, o movimento deve caminhar para:

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O principal risco, para ele, não é o nível da taxa, mas a persistência de juros reais elevados por mais tempo do que o mercado hoje precifica.

De maneira geral, para Guilherme Abbud, CEO da Persevera, se as expectativas se confirmarem e a trajetória de queda de juros for mantida no Brasil, o mercado tende a permanecer animado. “O mercado retomou a visão de que a guerra não é suficiente para incluir, ao mesmo tempo, um cenário de queda de crescimento e alta de inflação”, explica.

Na visão dele, o contexto geopolítico não deve ser suficiente para levar a um quadro de estagflação, de corrosão significativa do lucro das empresas ou de necessidade de repensar de forma estrutural a alocação que tem se afastado um pouco do dólar.

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Moedas e juros

Em relação ao Fomc, a expectativa é de que a última reunião de Jerome Powell no comando do Fed resulte na manutenção da taxa básica de juros na faixa de 3,50% a 3,75%, onde está desde dezembro. Ainda assim, a decisão e a coletiva de imprensa de Powell após o anúncio poderão definir pontos importantes, inclusive se as autoridades vão acenar com a possibilidade de altas adicionais nos juros ainda este ano, caso a inflação volte a acelerar.

Segundo Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o dólar pode se fortalecer caso o comunicado do Fed seja mais firme, demonstrando maior preocupação com a inflação. “Isso se o tom for no sentido de fechar a porta para cortes e, em linha com o último comunicado, sinalizar que pode mesmo vir a aumentar juros caso o ambiente assim o exija”, explica.

Para o real, Perri avalia que um tom mais duro por parte do Copom pode fortalecer a moeda brasileira. Com juros mais altos, aumenta também a atratividade do real. De acordo com ele, um viés mais conservador nos comunicados deve levar a ajustes nas curvas de juros.

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Esse ajuste, segundo o economista, pode elevar o prêmio nos vértices mais curtos. Ele pondera, porém, que se o movimento for na direção oposta, o resultado pode surpreender as expectativas atuais. “Caso tenhamos um muito improvável comunicado dovish (mais brando em relação à inflação, mostrando menor preocupação) em alguma das decisões, podemos observar o exato inverso”, afirma.

Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, ressalta que as expectativas para a Super Quarta giram em torno de pouca novidade em termos de juros, mas muito foco na sinalização de ritmo futuro. No caso do Copom, a sinalização para a reunião de junho ficará no radar, já que a perspectiva de cortes é importante para elevar a confiança dos investidores e manter um viés positivo para ativos de risco. “Caso o comunicado afaste a expectativa de cortes, o mercado pode reagir negativamente”, aponta.

Nos Estados Unidos, a probabilidade de manutenção é elevada, e é esperado que o tom do último comunicado sob a presidência de Jerome Powell seja de cautela, indicando uma pausa mais longa.

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“Powell deve usar seu espaço na coletiva de imprensa para reforçar seus feitos à frente do Fed e relembrar que considera a política monetária atual em território entre neutro e ligeiramente restritivo, reduzindo o espaço para novos cortes agressivos. Um tom mais dovish poderia estimular a busca por ativos de risco”, conclui.