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A Super Quarta — dia em que o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central do Brasil (BCB) decidem juntos a trajetória dos juros — chega em um momento em que o Ibovespa já testa topos históricos e o mercado se pergunta: ainda há fôlego para novas máximas?
Nas últimas sessões, a bolsa brasileira voltou a subir com força, apoiada sobretudo em fatores domésticos. O IPCA-15 abaixo do esperado reforçou as apostas de corte de juros à frente, derrubou a curva de juros futuros e reacendeu o apetite por risco. “Com o IPCA-15 mais baixo, a aposta de corte de juros ganhou força. Os juros futuros estão caindo e impulsionando as ações”, resume Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial.
Segundo ele, bancos foram na última terça as maiores contribuições em pontos para a alta do índice, mas small caps e empresas mais endividadas lideram em termos percentuais — caso de Localiza (RENT4) e Assaí (ASAI3) — justamente por serem mais sensíveis ao custo de capital. “Depois de alguns dias em que a liderança vinha de empresas favorecidas pelo cenário geopolítico internacional, hoje a alta está muito mais ligada a fatores domésticos”, diz.
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O que está em jogo na Super Quarta
Para esta quarta-feira (28), o mercado trabalha com manutenção das taxas básicas de juros tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O que vai definir o humor dos mercados, porém, não é o número em si, mas o tom dos comunicados.
Bruna Centeno, economista e sócia da Blue3 Investimentos, lembra que o Ibovespa saiu de 166 mil pontos, superou os 180 mil pontos e segue operando em máximas históricas embalado por dois fatores: fluxo estrangeiro e expectativa de que o Copom sinalize a proximidade do início do ciclo de cortes.
“O mercado já espera que [Gabriel] Galípolo [presidente do BC] indique um corte para a reunião de março. A curva de juros vem fechando em todos os vencimentos, e o cenário externo tem ajudado, com um dólar mais fraco e entrada de estrangeiros”, afirma.
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No front internacional, ela destaca que o Federal Reserve também deve manter juros, mas sob um ambiente mais ruidoso: críticas a Jerome Powell [atual presidente do Fed], rumores de novo shutdown nos EUA e intervenções de Donald Trump sobre câmbio e parceiros comerciais. “Nos EUA, os dados seguem mistos e a moeda americana em tendência de desvalorização, o que ajuda emergentes. A manutenção vem em um contexto de conflito político com o Banco Central e tensões com outras economias”, diz Bruna.
Como a decisão pode mexer com o Ibovespa
Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, um comunicado mais dovish — isto é, que reforce a ideia de cortes de juros próximos — pode ser o gatilho para o Ibovespa renovar máximas.
“Se houver sinais de proximidade dos cortes tanto no BCB quanto no Fed, isso tende a impulsionar a bolsa, sobretudo empresas mais sensíveis a juros: setores cíclicos, bancos e companhias alavancadas”, explica.
Hoje, boa parte do mercado espera que o primeiro corte da Selic ocorra em março, com uma parte menor apostando em abril.
O cenário negativo, por outro lado, seria um comunicado mais duro, que sinalizasse manutenção dos juros por todo o primeiro semestre. “Um texto distante disso, sugerindo cortes muito mais à frente, pode gerar correção na bolsa, até por questão de fluxo. O custo de oportunidade permaneceria muito elevado, travando mais valorização depois dessa semana tão forte”, afirma Perri.
No caso do Fed, Perri vê menor probabilidade de um sinal imediato de corte já na reunião seguinte, mas lembra que qualquer mudança na precificação do início e da profundidade do ciclo nos EUA “mexe o mundo inteiro” — e, portanto, também o Brasil. “É a perspectiva de juros menores lá fora que sustenta o movimento de rotação de capital da renda fixa americana para mercados emergentes”, diz.
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Política entra no radar, mas não é o catalisador principal
Enquanto o exterior oscila sob o impacto de declarações de Trump — como a ameaça de tarifas de 10% a 25% envolvendo a Groenlândia —, o Brasil tem andado na contramão, em parte graças a um ruído político doméstico favorável ao mercado.
Leonardo Santana, sócio da Top Gain, aponta que a autorização de visita de Tarcísio de Freitas a Jair Bolsonaro na Papuda reacendeu rumores de uma chapa Tarcísio–Michelle Bolsonaro em 2026, o que anima o investidor. “O mercado não demonstra entusiasmo com Flávio Bolsonaro, visto como nome mais polêmico e com histórico limitado. Já Michelle tem forte apelo simbólico, e Tarcísio é percebido como gestor competente e bem visto pelo mercado”, diz.
Segundo Santana, a simples especulação dessa configuração — Tarcísio como cabeça de chapa, Michelle como vice e Bolsonaro no papel de fiador político — tem sido suficiente para melhorar o humor, em um momento em que o Ibovespa rompe novamente sua máxima histórica.
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Super Quarta pode destravar nova pernada de alta
O Ibovespa chega à Super Quarta nas máximas históricas de fechamento, mas não necessariamente esgotado. O gatilho para renovação de topos está menos no número da taxa e mais nas entrelinhas dos comunicados.
Se o BC do Brasil e Fed confirmarem o roteiro de manutenção, mas entregarem sinais claros de que o ciclo de queda de juros se aproxima — especialmente no Brasil —, o mercado pode ganhar combustível extra para uma nova pernada de alta, reforçado por:
- IPCA-15 mais benigno
- Dólar mais fraco no mundo
- Fluxo estrangeiro ainda positivo
- Aposta em corte de Selic a partir de março
Se a sinalização do Copom vier na direção esperada, esse movimento tende a se espalhar para:
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- Cíclicos domésticos
- Small caps
- Empresas alavancadas
- Setores como shopping centers, construção, varejo e educação
Por outro lado, um discurso mais duro, que empurre para frente o início dos cortes, pode ser o pretexto para uma realização após semanas de forte valorização.