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Stock-to-Flow projeta Bitcoin a quase US$ 1 milhão até 2025; entenda como funciona

Modelo se baseia na emissão controlada da moeda digital para definir sua escassez ao longo do tempo, mas especialistas apontam possíveis falhas

Por  Lucas Gabriel Marins -

O Bitcoin (BTC), negociado a US$ 56 mil na quinta-feira (2), pode valorizar 1.600% em quatro anos e chegar a US$ 1 milhão em 2025. Essa previsão de alta meteórica foi projetada pelo Stock-to-Flow (S2F) do BTC, modelo econômico “queridinho” de alguns entusiastas do mercado de criptomoedas.

Divulgado pela primeira vez em março de 2019 por um usuário anônimo conhecido no Twitter como PlanB, o modelo defende que a moeda digital tende a disparar no longo prazo por ser um ativo escasso (apenas 21 milhões de unidades podem ser criadas). Essa mesma lógica costuma ser usada no mercado de ouro, prata e outros ativos de reserva de valor.

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Apesar de a ideia fazer sentido do ponto de vista econômico, e de receber aplausos de parte dos investidores, especialistas ouvidos pelo InfoMoney disseram que o S2F tem algumas falhas. Isso porque ele não leva em consideração aspectos importantes de mercado, como demanda, adoção e concorrência.

Como funciona o Stock-to-Flow

Na prática, o modelo pega o estoque total de um ativo e divide esse valor por sua produção anual. O resultado dessa conta, identificado pelas letras “SF”, é o tempo (em anos) que se levaria para produzir a quantidade disponível em estoque. Quanto maior o SF, menos unidades do ativo entram no mercado em relação às reservas atuais, e mais escasso ele é.

Para exemplificar, veja o caso do ouro. Em 2018, o mundo tinha uma reserva de cerca de 185 mil toneladas do metal (S). Naquele ano, foram extraídas cerca de 3 mil toneladas dele (F). O valor SF da commodity, portanto, era de 62. Ou seja, seriam necessários 62 anos para produzir 185 mil toneladas. Esses dados foram informados pelo PlanB no texto em que sugeriu o Stock-to-Flow do Bitcoin.

Já em 2019, de acordo com o World Gold Council (Conselho Mundial do Ouro), a reserva da commodity encostou em 190 mil toneladas (S). Naquele ano, foram extraídas cerca de 3.500 toneladas (F). Dividindo o estoque pela produção anual, o resultado é um SF de 56 – ou seja, o metal ficou menos escasso. Importante ressaltar que esses dados sobre reserva e estoque costumam variar conforme as fontes de informação.

No caso do Bitcoin, o SF da criptomoeda no início de 2017 era 22. Em 2021, a relação bateu nos 56 – mais que o dobro da registrada há quatro anos. Esse aumento da relação SF do ativo digital, colocando-o “ombro a ombro” com o ouro, ocorre, segundo o modelo, por causa escassez da moeda, que cresce a cada período.

A escassez do Bitcoin

Quando o misterioso Satoshi Nakamoto criou o BTC, ele (ou eles) determinou que a “fabricação” de novas unidades, que é resultado do processo de mineração, deve diminuir a cada 210 mil blocos minerados. Esse evento, que ocorre de quatro em quatro anos, é chamado de halving. Bloco é nome do conjunto de dados validados por mineradores.

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No início da criptomoeda, lançada no final de 2008, cada bloco gerado rendia 50 BTC como recompensa para os mineradores; em 2012, no primeiro halving, o valor foi reduzido para 25 BTC; em 2016, no segundo halving, ficou em 12,5 BTC; por fim, no terceiro evento, em 2020, a produção ficou nos atuais 6,25 BTC. Ou seja, a oferta sempre é cortada pela metade.

Por causa dessa natureza da moeda, a cada novo halving, segundo o PlanB, o preço do BTC tende a ter uma valorização substancial. E é essa redução programada, defende, que levará seu preço para US$ 1 milhão em 2025. E vale ressaltar que previsões anteriores do modelo foram certeiras.

Em março de 2019, o PlanB disse que após o último halving do BTC, em 2020, a criptomoeda pularia de US$ 4 mil (preço daquele mês) para US$ 55 mil até 2021. O ativo alcançou esse valor pela primeira vez em fevereiro deste ano.

O que dizem os especialistas?

O Stock-to-Flow, apesar de ter pontos positivos, tem algumas falhas, segundo especialistas e empresas ouvidas pelo InfoMoney.

O trader Daniel Duarte, autor do livro “BITCOINOMICS: Uma História de Rebeldia”, disse que o grande problema do Stock-to-Flow é não levar em conta todas as circunstâncias práticas que vão ocorrendo ao longo dos anos.

“Ele foca muito na nova oferta, na emissão, mas não olha no que está em volta, no ecossistema como um todo, nas pessoas, na evolução do mainstream e na adoção”.

Duarte também falou que outro ponto que joga contra o modelo é o impacto da emissão de novas unidades de BTC, que tende a ficar menor.

“Antes a emissão por hora era quatro ou cinco vezes maior que agora, mas daqui a dois ou três halvings a diferença de um para o outro vai ser muito pequena. Então no começo (do BTC), o modelo pode até ter funcionado, mas a partir desse momento, na minha opinião, não mais, pois a diminuição da oferta não será mais tão impactante”.

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Lembrando que nos três próximos halvings as recompensas vão cair para 3,125 BTC, 1,5625 BTC e 0,78 BTC, respectivamente.

Demanda e concorrência

A Binance Research, braço de pesquisa da corretora Binance, disse que até certo ponto o modelo faz sentido, pois se a oferta de um ativo diminui, o valor deve aumentar, visto que há menos produção para atender a procura.

No entanto, segundo a empresa, o fator “demanda” não é levado em consideração no S2F:

“Não é errado supor que a escassez gera valor e que o comportamento passado é um marcador útil para o comportamento futuro. É importante considerar, no entanto, que o valor não é apenas impulsionado pela crescente escassez de um ativo, mas também pela crescente demanda por ele”.

Já Henrique Teixeira, country manager do Grupo Ripio, falou que as previsões de preço podem até se concretizar, mas desde que não surja nenhum concorrente de peso nos próximos anos. “Se isso (concorrência) não acontecer, acho que é bem factível essa projeção de crescimento”.

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