Spread bancário: compulsório não é o único vilão, mas tem peso relevante no cálculo

Com forte impacto sobre a oferta de crédito, Brasil trabalha com o maior compulsório sobre depósitos à vista do mundo

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SÃO PAULO – Com o reflexo da redução da taxa Selic sobre os juros cobrados pelos Bancos se mostrando aquém do esperado, as discussões sobre como diminuir o spread bancário ganharam força nos últimos dias.

De um lado, o governo estuda implementar já nas próximas semanas medidas que busquem incentivar a competitividade entre os bancos.

Do outro, apesar de considerarem positiva tal iniciativa, a percepção que fica entre economistas e analistas financeiros é a de que o pacote de incentivos à concorrência bancária pouco vai afetar os custos dos empréstimos. A principal reivindicação dos bancos para abrandar os juros cobrados é a redução na alíquota do depósito compulsório.

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Maior compulsório sobre depósitos à vista do mundo

Mesmo sem entrar no mérito se este é realmente o principal fator que inviabiliza a redução dos juros cobrados aos consumidores que recorrem aos bancos para obter recursos, ao compararmos o percentual do compulsório sobre os depósitos à vista no Brasil com o de outros países podemos verificar que este questionamento tem fundamento.

No mês de junho deste ano, o volume de recursos recolhido obrigatoriamente sobre os depósitos à vista pelos bancos junto ao Banco Central atingiu o elevado patamar de 53%, o maior do mundo.

Para se ter uma idéia do quão alto é esse percentual, o segundo maior compulsório sobre depósitos à vista é praticado pelo BC da Colômbia (13%), seguido por Bolívia (12%), Chile (9%) e China (8,5%). Estados Unidos e México não trabalham com compulsório sobre os depósitos à vista.

Em uma visão mais ampla, o sistema financeiro nacional registrou em junho um volume total de crédito de R$ 658,9 bilhões. Desse montante, 23,6% foram repassados para o BC sob a forma de compulsório. Ou seja, os repasses ao BC limitaram a liquidez do sistema financeiro e a oferta de crédito em R$ 155,7 bilhões no período.

Crédito direcionado

Os valores descritos anteriormente já seriam suficientes para ilustrar que o compulsório no Brasil se encontra em um patamar bastante elevado. No entanto, não podemos esquecer que no país existem direcionamentos obrigatórios para crédito rural e micro empréstimos, nos quais a inadimplência é maior e as taxas cobradas dos consumidores são muitas vezes inferiores às de captação.

Ou seja, além de operar em um sistema em que a demanda por crédito é crescente e a oferta limitada, o que por si só já ilustra uma situação desfavorável para a redução dos spreads, os juros cobrados dos empréstimos concedidos às pessoas física e jurídica embutem o fraco desempenho obtido pelos bancos com empréstimos direcionados.