Solução para os bancos dos EUA: diversas opções e nenhum consenso

Nacionalização, injeção de capital, bad bank, fim da marcação a mercado... possibilidades dividem analistas e aumentam incertezas

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SÃO PAULO – A falência do Lehman Brothers marcou um ponto de inflexão na crise financeira internacional. Não apenas iniciou uma fase muito pior do que já havia acontecido, como também deixou a impressão de que a solução de todos os problemas da economia norte-americana passa primeiro pela solução dos problemas do sistema financeiro do país.

Porém, embora sejam tratadas como prioridade, nenhuma medida adotada conseguiu tirar o setor do buraco em que atualmente se encontra. “Situações extraordinárias pedem ações extraordinárias”. A frase virou obrigatória nos discursos de líderes econômicos dos Estados Unidos. Entretanto, até agora as medidas aplicadas têm sido menos extremas e mais políticas do que muitos gostariam.

Dentre as medidas que podem ser adotadas a partir de agora, várias são discutidas e pouco parece ser o consenso entre as equipes envolvidas com o tema. Na metáfora do BNP Paribas, em relatório, “o sistema financeiro americano está doente e os remédios ministrados até agora foram capazes apenas de mantê-lo vivo. O caso parece ser de intervenção cirúrgica, mas a equipe médica parece estar em dúvida quanto aos melhores procedimentos a se adotar”.

Se de fato não há “indicações de que uma solução convincente seja tomada no curtíssimo prazo”, conforme análise de Mauro Rached, do BNP Paribas, vale ao menos observar quais as especulações em torno do próximo passo a ser adotado:

A injeção de capital
A nacionalização dos bancos
A criação de um bad bank
O fim da marcação a mercado
O plano de Geithner



A injeção de capital

A primeira tentativa de intervenção geral no sistema bancário norte-americano durante esta crise foi no final do ano passado, com as injeções de capital nas instituições problemáticas através da primeira metade do Tarp (Troubled Asset Relief Program), de US$ 350 bilhões. Foram beneficiados bancos que eram considerados grandes demais para falir, como Citigroup, Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo.

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“Eles acharam que bastava capitalizar os bancos que estaria tudo resolvido: as instituições voltariam a ofertar crédito, a economia iria se recuperar e os bancos estariam saneados”, explica Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating. “O que percebemos é que nenhuma das duas coisas está acontecendo. Os bancos não estão dando crédito e o tamanho do buraco está aumentando”, completa.

Porém, o fracasso da primeira tentativa de aporte de capital nos bancos não impede o governo norte-americano de insistir na medida – dessa vez com outras características. Durante este mês, o governo realizará testes de estresse nos bancos para determinar o quanto eles precisariam de capital, para então promover uma injeção de forma fundamentada.

Entre as críticas a essa nova forma está justamente o cenário que o governo utiliza para realizar os testes de estresse, base de toda a medida. De acordo com o ex-economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), Simon Johnson, “são estimativas relativamente positivas, com uma rápida recuperação no ano que vem, que sustentam o moderado ‘cenário de estresse’ usado para os bancos”.

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A nacionalização dos bancos

As sinalizações de que haverá mais aportes nos bancos norte-americanos já levaram a especulações acerca de uma estatização plena de instituições grandes demais para falir. A ideia coleciona opiniões divergentes de figuras importantes da cena econômica. Nouriel Roubini, Alan Greenspan, Joseph Stiglitz e Paul Krugman estão entre os que defendem a ideia de uma nacionalização temporária, enquanto Bill Gross, Lloyd Blankfein e Tom Sowanick estão do lado oposto.

Segundo Sowanick, CIO da Clearbrook Financial, “a noção de que o governo dos EUA está perto de nacionalizar as instituições financeiras ‘grandes demais para falir’ não é apenas uma má idéia, como também incuba o conceito de risco moral. Mais importante. Ela desafia a premissa da liberdade de mercado. Uma solução melhor seria a criação da estrutura bad bank-good bank”.

Sem se posicionar em relação à questão, Luis Miguel Santacreu avalia a questão através das sinalizações da administração de Barack Obama. Para ele, não há espaço político para que o governo tome uma medida tão drástica. “Não é simplesmente uma canetada geral como aconteceu no caso da Suécia, onde o sistema inteiro foi estatizado. A cultura da sociedade sueca realmente permitiu isso. Agora, no caso norte-americano, dá a sensação de que eles estão tentando chegar a um meio termo. Uma semi-estatização”.

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A criação de um bad bank

A idéia de criar um bad bank para comprar os ativos podres de instituições financeiras foi muito discutida quando o então secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, propôs o Tarp, no final do ano passado. Após ter sido desconsiderada, a medida voltou a ganhar força no início deste ano, antes do anúncio do novo plano de resgate do setor financeiro pelo atual secretário do Tesouro, Tim Geithner.

No entanto, o plano de Geithner traz características diversas, prevendo a criação de um fundo público-privado para comprar esses ativos ilíquidos. “Essa é mais uma tentativa de falar: eu não quero assumir todo o buraco. Eu vou tentar criar um mercado secundário de títulos. Vou fazer uma fiscalização forte nos bancos, vou saber o tamanho da encrenca e então vou apresentar isso para o mercado e vou ver se ele está interessado em comprar esses títulos”, explica Santacreu.

Porém, essa proposta traz o mesmo problema do bad bank, que é como determinar qual o preço dos ativos podres. Se for muito alto, o governo estará injetando capital indiretamente nos bancos, pesando nas finanças públicas. Se o valor for muito barato, os bancos terão que reconhecer esses prejuízos, criando mais mal-estar, reduzindo seus patrimônios e sua capacidade de emprestar. Além disso, a idéia de uma parceria público-privada traz ainda uma outra dificuldade: até que ponto haverá interessados em adquirir esses papéis?

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O fim da marcação a mercado

Nesta semana surgiram novas especulações acerca de alterações no procedimento de marcação a mercado, antecipando uma decisão do tipo por parte do subcomitê de serviços financeiros da Câmara dos EUA, que irá se reunir para discutir algumas mudanças nas regras do sistema financeiro do país na próxima quinta-feira (12). Os rumores, porém, encontraram obstáculos na fala de Ben Bernanke. “Eu não apoiarei nenhuma suspensão de marcação a mercado”, disse o presidente do Federal Reserve.

Luis Miguel explica a marcação a mercado com o seguinte exemplo. O banco comprou um papel a R$ 100, só que hoje, o mercado está pagando por esse mesmo papel apenas R$ 3. Isso significa que nos preços atuais ele caiu 97%, e você está mostrando um prejuízo de R$ 97. “Você imagina se colocar isso em níveis estratosféricos. Há rumores de que tem carteiras de crédito inteiras de bancos que não valem aquilo que eles estão falando. Você está gerando um prejuízo monstruoso”, reitera Santacreu.

A crítica à contabilidade pode ser resumida pela análise da First Trust Advisors, que acusa a marcação a mercado de promover a instabilidade nos mercados através da obrigação das instituições financeiras a reavaliarem suas bases de ativos a partir dos preços de mercado, extremamente fragilizados em momentos de crise como o atual.

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O plano de Geithner

De acordo com Luis Miguel Santacreu, o plano de Geithner tenta juntar muitas das medidas citadas acima em uma só. “A ideia é manter o controle privado, avaliar o preço dos ativos e persuadir os bancos privados a comprarem os ativos ruins”, conta, destacando o papel fundamental que o teste de estresse tem no programa.

Isso significa que, ao mesmo tempo em que os ativos podres serão retirados dos balanços, ocasionando uma redução do patrimônio, novos investidores estariam capitalizando o banco. Dessa forma, o banco começaria a operar com maior participação do estado e com novos acionistas, com o patrimônio parcialmente recomposto.

“Paralelamente, o governo norte-americano criaria linhas de crédito interbancárias para resgatar a confiança entre os bancos. E, no médio prazo, você teria um banco parcialmente privado – com participação maior do governo – saneado e com perspectivas de voltar a crescer”, explica o analista. Se esse plano dará certo ou não, é esperar para ver.

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