Silenciosa e discreta, Embraer pode mostrar sua força no Paris Air Show; entenda

Com menos expectativas e um mercado mais comedido, companhia entra em evento francês sem pressões exageradas, o que pode ser oportunidade para retomar a atenção dos investidores se conseguir entregar novidades relevantes

Murilo Melo

Ativos mencionados na matéria

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Às vésperas do Paris Air Show, um dos eventos mais relevantes da indústria aeroespacial, marcado para ocorrer entre 16 e 22 de junho em Le Bourget, na França, a Embraer (EMBR3) entra no radar de analistas com projeções menos ambiciosas por parte do mercado, mas com sinais de que o evento pode servir como ponto de virada para as ações da companhia.

Ao menos esse é o olhar da XP Investimentos em relação ao sentimento dos investidores institucionais sobre a Embraer, que, segundo a corretora, é mais comedido em relação às edições anteriores. Os analistas avaliam que a empresa não tem cumprido as expectativas em termos de anúncios de novos contratos nos últimos anos, o que levou os participantes do mercado a ajustarem suas previsões para este ano. A XP afirma que, com a queda recente do papel e menos otimismo embutido nos preços, há espaço para surpresas que possam gerar revisões positivas.

A corretora também lembra que o Paris Air Show costuma responder por cerca de 20% a 30% das adições à carteira de pedidos da Embraer ao longo do ano. Em 2023, os anúncios da empresa foram discretos diante de concorrentes como Airbus e Boeing, repetindo um padrão observado também no Farnborough Air Show de 2024. Essa sequência de frustrações levou a uma abordagem mais pragmática por parte dos investidores.

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Apesar das incertezas relacionadas à guerra comercial em andamento, que afeta tanto a demanda quanto a cadeia de suprimentos global, a XP acredita que a menor expectativa pode jogar a favor da Embraer se houver anúncios relevantes durante o evento. A empresa brasileira confirmou que apresentará novos negócios nas divisões de aviação comercial e defesa nos dois primeiros dias da feira, mas sem revelar os clientes.

Na visão do JPMorgan, os anúncios no Paris Air Show podem chegar a US$ 5,9 bilhões em aviação comercial e até US$ 720 milhões em defesa. Embora os pedidos não necessariamente sejam assinados de imediato, a expectativa é que eles tragam impacto positivo. Cada US$ 500 milhões em novos contratos representaria, segundo o banco, uma valorização de aproximadamente 2% nas ações da Embraer.

Apesar de uma performance tímida nas semanas anteriores, afetada por fatores como o pedido de recuperação judicial da Azul e incertezas envolvendo a Alaska Airlines, analistas do JPMorgan dizem que o cenário pode mudar com o evento.

Em paralelo, o Itaú BBA reforçou sua recomendação de desempenho acima da média para os papéis da Embraer, com preço-alvo de US$ 62 para o fim deste ano. O banco aponta que, mesmo após uma correção de cerca de 15% desde o pico de março, a ação apresenta uma relação risco-retorno que considera interessante, com múltiplos negociados a 9,4x Ev/Ebitda, que representa o valor da empresa em relação ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, para os próximos 12 meses — valor que representa um desconto de 16% em relação à Airbus, bem abaixo da média histórica de paridade entre ambas.

Protagonismo

Do ponto de vista do Itaú BBA, dois fatores devem ganhar protagonismo no curto e médio prazo. O primeiro é o próprio Paris Air Show, em que, segundo a gestão da Embraer, há boas perspectivas de anúncios tanto no segmento comercial quanto na divisão de Defesa.

A empresa revelou ter seis campanhas ativas, sendo uma em cada uma das regiões da América do Sul, América do Norte, Europa, África e Ásia. Até agora, apenas uma foi anunciada (ANA Airlines, no Japão), o que indica espaço para novas confirmações nos próximos dias.

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O segundo fator citado é o teste de voo em escala real do eVTOL da EVE, previsto para o segundo semestre de 2025. O banco vê a subsidiária como uma das maiores apostas de valor da Embraer.

Com valuation estimado em US$ 1,6 bilhão, a EVE ainda é avaliada muito abaixo de concorrentes como Joby (US$ 8,4 bilhões) e Archer (US$ 6,5 bilhões), apesar de contar com uma carteira de US$ 14 bilhões em cartas de intenção para cerca de 2.800 aeronaves, além de US$ 1,6 bilhão em contratos de manutenção.

O sucesso do teste pode acelerar o processo de certificação e converter parte das LOIs (cartas de intenção) em pedidos firmes.

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Riscos e projeções

Sobre os riscos, o Itaú BBA comenta a recente entrada de um cliente brasileiro da Embraer com pedido de recuperação judicial. Apesar das preocupações iniciais, a corretora estima que o efeito sobre o lucro antes de juros e tributos (Ebit) projetado para este ano deve ser inferior a 1%, dado o volume limitado de contas a receber no Brasil e o fato de muitas das aeronaves estarem nas mãos de arrendadores.

A equipe do banco também menciona potenciais atrasos na entrega de aeronaves por parte de companhias aéreas internacionais, como a Alaska Airlines, que adiou a recepção de dois E175. Situações semelhantes foram sinalizadas pela Delta, embora sem confirmação formal. Mesmo sem expectativa de cancelamentos, o banco reconhece que o movimento pode pressionar as estimativas de curto prazo.

As projeções da XP para os próximos anos indicam entregas em torno de 100 aeronaves por ano, com possibilidade de atingir 110 a 120 unidades. Para 2026, a corretora estima receita líquida de US$ 8,1 bilhões e Ebitda próximo de US$ 993 milhões — patamares abaixo do consenso de mercado. A recomendação da casa para as ações permanece neutra, refletindo o valuation atual, mas com viés positivo caso o fluxo de notícias durante a feira traga números acima do previsto.

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Já o Itaú BBA acredita que, mesmo com a alta de 25% das ações no ano, a Embraer continua sendo negociada com desconto frente a seus pares do setor. A avaliação do banco leva em conta múltiplos de empresas comparáveis do segmento executivo e de defesa, como Lockheed Martin e Saab, e projeta retorno ao acionista de 16,7%, considerando múltiplo de saída de 8x Ev/Ebitda.