Shadow banking na China: um novo subprime? Ainda é cedo, dizem analistas

Setor financeiro sem muita regulamentação pode gerar ainda mais temores de aperto no crédito, reduzindo ainda mais o espaço para crescimento chinês

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SÃO PAULO – Se no começo do ano a grande preocupação do mercado era com os sinais cada vez mais significativos de desaceleração da economia chinesa, os investidores se depararam na última semana com um evento que, embora já exista a um bom tempo, começou a ganhar corpo no cenário econômico: o fim dos recursos baratos ilimitados.

A China possui forte peso de “shadow banks”, que acabam não tendo normas para respeitar e geram investimentos de risco, uma vez que o investidor ou correntista não possui nenhuma garantia. Com o BC se distanciando do setor, as taxas de juros sobre empréstimos subiram muito e os recursos para investimentos caíram. Com isso, os bancos precisariam melhor a tarefa de administrar o dinheiro e seus empréstimos.

Mas afinal, o que são os shadow banks?
O shadow bank (ou sistema bancário na sombra) forma um conjunto de instituições que funciona como banco, sem que o seja, captando recursos no curto prazo. Eles operam altamente alavancados e investem em ativos de longo prazo com pouca liquidez. 

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De acordo com Paul McCulley, gestor da Pimco – maior administradora de recursos aplicados em renda fixa do mundo -, o shadow banking inclui os agentes envolvidos em empréstimos alavancados que não têm acesso a seguros de depósitos e/ou operações de redesconto dos bancos centrais, e estão tampouco sujeitos às normas prudenciais dos Acordos de Basileia. Neste cenário, incluem-se bancos de investimento independentes, hedge funds, fundos de investimento, entre outros.

As instituições financeiras que respondem pelo shadow banking na China têm uma cultura parecida com a de Wall Street, assumindo que os riscos que os bancos tradicionais não incorrem. Os shadow bankings chineses incluem empresas de seguro, de arrendamento mercantil (leasing), além de agiotas e outros credores informais sujeitos à supervisão limitada, estando assim no centro da preocupação sobre a possibilidade de uma desaceleração da economia do país, que poderia desencadear uma crise da dívida.

O movimento do governo
Com isso, nos últimos dias, o governo chinês passou a reprimir os empréstimos disciplinados. O Banco Popular da China começou, no início de junho, a reduzir o financiamento para o mercado de empréstimo interbancário no país, onde os bancos emprestam uns para os outros e com alguns grandes financiadores “na sombra”. 

No final de junho, a agência oficial de notícias local Xinhua afirmou que o banco central havia projetado a crise de liquidez de modo a a domar as atividades de “sombra”, focando assim em maior qualidade ao invés de quantidade. No dia seguinte, foram confirmadas as indicações do Banco Central da China de que o país deve continuar a reforçar a gestão de liquidez para promover a estabilidade no ambiente monetário.

Entretanto, a declaração fez pouco para esclarecer as estratégias e as preocupações dos investidores, uma vez que os economistas – tanto dentro quanto fora da China – temem que os “shadow bankers” estariam introduzindo riscos parecidos àqueles que desencadearam a crise do subprime nos EUA em 2008. 

Mas porque os shadow banking são tão nocivos para o crescimento chinês? Os “shadow bankers” conseguem tomar dinheiro de bancos tradicionais e elevá-los através de investimentos para uma fatia da população mais rica, que está à procura de rendimentos mais elevados do que se deixassem seus investimentos em um banco. Como os bancos tradicionais lutam para conseguir financiamento, eles possuem menos capital; com o aperto do crédito, alguns investidores podem pensar duas vezes antes de colocar seus investimentos em instituições consideradas menos seguras que os bancos. 

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Por que os shadow bankers são tão significativos?
Vale ressaltar ainda que, ao contrário da maioria dos bancos nos Estados Unidos, os bancos da China são estatais e emprestam principalmente para grandes empresas estatais, deixando muitos mutuários “de lado”. Além disso, as taxas de depósito são definidas pelo governo, com pouca concorrência e com os bancos pagando taxas de juros abaixo da inflação, aguçando o apetite dos investidores por rendimentos mais elevados.

Neste cenário, aparecem os shadow banks. Em um cenário habitual, um mutuário que precisa de dinheiro para fazer um projeto obteria um crédito de curto prazo tendo que pagar uma certa taxa de juros. Já o credor sombra, em seguida, iria alavancar este empréstimo em um projeto de investimento que poderia vender a outros investidores, prometendo uma alta de retorno financiado pelo pagamento destes empréstimos.

Assim, o crescimento dos shadow banks são bem altos, conforme aponta a pesquisa do JPMorgan Chase avaliando que, enquanto entre 2010 e 2012 os créditos diminuíram, os “empréstimos na sombra” dobraram, para 36 trilhões de yuans no período, ou cerca de 69% do PIB (Produto Interno Bruto) chinês.

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Estas instituições não são tão reguladas quanto os bancos tradicionais, e muitas vezes não revelam muita informação sobre o que eles estão investindo em seus empréstimos ou como estão realizando. Contudo, apesar de economistas não saberem ao certo o quanto do crédito na sombra se traduz em default até o momento, os investidores não sofreram quaisquer perdas reais em empréstimos de confiança porque os mutuários com problemas geralmente têm sido socorrida pelo governo.

Tais salvamentos podem definir perdas maiores ao governo dependendo dos padrões de propagação, o que se revela uma crescente preocupação enquanto a economia da China apresenta desaceleração. Com isso, os principais temores é de que a dívida “oculta” se propague. 

Preocupação existe, mas não é tão grande
Por outro lado, poucos economistas esperam uma crise financeira iminente da China, em parte porque o país possui uma alta taxa de poupança que mantém os bancos chineses com forte capital, enquanto o governo central também possui somas consideráveis para lidar com situações de emergência.

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Contudo, a turbulência do segmento do shadow banking poderia azedar outros empréstimos ou forçar outras medidas do governo para restringir o crédito, o que pode levar as perspectivas para a economia chinesa desacelerarem ainda mais. Alguns economistas já projetam que a China cresça menos do que 7,5% no ano projetados pelo governo, após 15 anos superando a meta anual.

De forma a dirimir os riscos, os reguladores estão começando a ficar mais preocupados com os sinais do mercado de empréstimos, de forma a tornar mais difícil para os bancos moverem empréstimos arriscados. 

Com isso, as preocupações acerca do crescimento chinês ganham mais um componente de peso, mas ainda não devem ter as consequências de uma crise bancária como a dos Estados Unidos há cinco anos atrás. 

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.