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Setor de papel e celulose passa por uma “tristeza de verão”, mas perspectivas são boas

Ajuste sazonal prejudica companhias do setor, mas perspectivas continuam boas com o mercado bem balanceado e a utilização da capacidade menor do que o esperado

SÃO PAULO – A relação entre o dólar e o preço das ações de companhias de papel e celulose sempre ficou clara na cabeça dos investidores: quando a moeda norte-americana fica mais cara, as ações destas empresas sobe por elas serem exportadoras com custos em reais e receitas na divisa dos Estados Unidos. Nos últimos tempos, no entanto, o dólar subiu e Fibria (FIBR3), Suzano (SUZB5) não tiveram o mesmo desempenho. A explicação para isso, segundo o Bank of America Merrill Lynch é uma “summertime sadness” (tristeza de verão, em uma tradução livre) do setor. 

Não que as empresas estejam melancólicas, e sim porque há um ajuste sazonal dos preços de papel e celulose que ocorre nesta estação. “Esperamos uma correção de US$ 40 a tonelada no preço da celulose daqui (5% de queda) e uma média de US$ 760/t em 2015 e US$ 770/t em 2016 (contra a celulose à vista atualmente em US$ 800/t)”, diz o relatório do banco norte-americano. O motivo é que a produção de papel durante o verão cai e os compradores passam a exigir descontos para adquirir o produto.

Em quatro dos últimos cinco anos os preços da celulose sofreram uma correção US$ 40 a US$ 70 por tonelada nesta estação. No ano passado, esta correção foi de US$ 47 a tonelada antes do início de uma recuperação em outubro. No entanto, a volatilidade mensal do produto, atualmente em 2,7% em média, continua sendo menor que a de outras commodities como o minério de ferro, o níquel e o cobre, que costumam variar entre 6,3% e 10%.

O research destaca além disso que a utilização da capacidade das indústrias do setor ficou em 95% em média, menos do que os 96% esperados para 2015, o que indica um ajuste mais suave este ano. 

Com isso apesar de todas as dificuldades, Fibria e Suzano ainda operarão em múltiplos atrativos de 7,1 vezes e 6,1 vezes respectivamente na proporção valor de mercado da companhia dividido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização na sigla em inglês), de acordo com o BofAML. No relatório assinado pelos analistas Thiago Lofiego, Betina Roxo e Karel Luketic, a visão é de que o cenário de curto prazo é duro, mas o mercado de papel e celulose continua bem balanceado. Consequentemente, eles mantiveram a recomendação do setor para compra, com Fibria sendo a top pick. 

Em termos práticos, a Fibria ficou com um preço-alvo de US$ 19 para cada ADR (American Depositary Receipts) negociado na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) ou R$ 66 por ação. Os riscos ficam por conta de uma possível deterioração do cenário macro, trazendo um aumento da alavancagem, um aumento não esperado nos custos de produção da celulose e o crescimento dos processos de aquisições e fusões. Por outro lado, as possibilidades de upside são de preços maiores do que o esperado da commodity, atraso dos projetos de start-ups do setor expansão melhor que a esperada da economia global. 

O BofA, por sua vez, estima um preço-alvo de R$ 23 para as ações da Suzano, com praticamente os mesmos riscos de upside ou downside. A diferença é que a companhia pode sofrer mais com uma competição mais acirrada com as suas concorrentes no mercado nacional.