Sete questões para se analisar e refletir além do óbvio em 2010

Desde inflação e China até desemprego nos EUA, economista do Wells Fargo comenta tópicos relevantes neste novo ano

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SÃO PAULO – Nova década, velhas preocupações: o ano pode ser outro, mas as questões que atormentam os investidores ao redor do globo permanecem as mesmas – e em tempos de recuperação frente à crise, quase todas relacionam-se com a retomada econômica.

Com tantas recomendações e perspectivas a serem traçadas e repensadas, muitos passam batidos por temas que, no entanto, escondem uma complexidade aparentemente inexistente, e tomam por infalíveis falsas verdades.

Foi com o propósito de tentar desvendar algumas dessas questões que a InfoMoney entrevistou Jay Bryson, economista do Wells Fargo. Abaixo você confere as opiniões de Bryson sobre alguns tópicos discutidos.



Inflação

Ouro

Grécia

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BRIC

China

EUA: desemprego

EUA: mercado imobiliário

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2010 será um ano de alta da inflação mundial?

Sim e não. Contraditório? Bryson explica sua visão: “os preços devem subir com as commodities sendo negociadas a patamares mais elevados. No entanto, os índices que excluem itens mais voláteis como energia e alimentos devem, em sentido contrário, sofrer pressões negativas”.

“O Fed aprendeu a lição de uma Fed Funds Rate quase nula por muito tempo”

Segundo Bryson, as projeções de continuidade de queda do dólar e os sinais de recuperação econômica devem sustentar novas altas ao mercado de commodities. Mas o desemprego ainda elevado e uma demanda ainda vulnerável devem limitar o contágio de tal valorização das cotações sobre outros itens.

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Seria, desta forma, lógico presumir que Bryson também não crê em apertos monetários por vir. Mas não é bem assim. “Acredito que o Fed deva começar a elevar os juros por volta do último trimestre do ano. Menos por preocupações quanto ao cenário inflacionário e mais porque ele aprendeu a lição dos impactos de uma Fed Funds Rate quase nula por muito tempo”.



O ouro quebrará novos recordes em 2010?

Tudo indica que sim. Embora não se mostre muito preocupado com a inflação – o ouro costuma ser um bom investimento defensivo em tempos de alta dos preços – Bryson aposta em novas altas para o metal neste ano.

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“Neste momento, o ouro vai continuar subindo com o dólar caindo. É o comportamento da moeda norte-americana que vem sustentando a valorização da onça nesses últimos meses”, explica.

Ouro vai continuar subindo com a contínua desvalorização do dólar

A partir de 2011, Bryson acredita que as negociações do metal passem a se mostrar mais atreladas ao seu perfil de commodity per se, subindo no lastro da recuperação econômica e da maior demanda.

“Não me espantaria ver uma onça cotada acima dos US$ 1.500 ainda este ano”, arrisca.



A Grécia será o próximo Dubai?

Provavelmente não. Desde a moratória do fundo Dubai World há mais de um mês, não faltam especulações sobre onde estaria o próximo calote a ser decretado no mundo – a maioria delas, apontando para a Grécia. Afinal, o déficit orçamentário do país atinge alarmantes 12% de seu PIB (Produto Interno Bruto).

Mas Bryson é otimista. “O novo governo vem dando sinais de maior preocupação com a questão e já começa a implementar medidas para a redução do rombo fiscal”, afirma.

“Dificilmente as autoridades europeias deixariam o país à deriva”

Além disso, “em um momento crucial de recuperação como o que vivemos atualmente, dificilmente as autoridades europeias deixariam o país à deriva”.



Investir no BRIC é lucro certo em 2010?

Não. A resposta está entre uma das mais categóricas dadas por Bryson, que elenca uma série de motivos para sustentar sua argumentação. O primeiro deles é o de que crescimento econômico e retornos nos mercados nem sempre caminham juntos. “É uma relação quase sempre válida, mas que depende muito da maturidade dos mercados”, explica.

Mas o principal elemento citado por Bryson é a supervalorização dos ativos do grupo, formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China, nos últimos meses. “É inegável o potencial desses países, mas os múltiplos não estão atrativos e uma correção não pode ser descartada”, alerta.

“Correções não podem ser descartadas”

Além disso, Bryson é um tanto quanto cauteloso ao relembrar que tais economias ainda se deparam com muitos desafios.

“A Índia, por exemplo, não consegue se livrar de seus conflitos étnicos e políticos, enquanto que o Brasil tem muito o que melhorar em seu perfil fiscal”, afirma.



A China seguirá crescendo a taxas vertiginosas?

Sim. Mas Bryson alerta que analisar a economia chinesa passa muito além de atentar apenas para as estatísticas de crescimento divulgadas. 

Com a demanda mundial se recuperando da crise, o país deverá manter suas expansões vertiginosas em 2010. No entanto, o crescimento deve vir acompanhado de uma inflação de mais de 4% e crescentes pressões para apreciação do yuan.

Com crescimento dado, o foco agora deve estar no câmbio

“De fora, os EUA e Europa devem continuar pressionando para uma valorização da moeda. Mas o novo fator em 2010 será um crescimento das pressões também no plano interno, já que um yuan mais apreciado seria uma boa ferramenta de contenção dos riscos sobre o cenário inflacionário”, explica Bryson.

Não é de hoje que o governo chinês vem recusando os clamores de adoção de um câmbio mais flexível. Até então, a grande preocupação era quanto a um impacto sobre as exportações. Mas para Bryson, a resistência demonstrada durante a crise mina a argumentação do governo, “principalmente com a solidificação da demanda interna chinesa”.



O mercado de trabalho é, de fato, o fator-chave da recuperação norte-americana?

Sim. E as projeções de Bryson são otimistas, no máximo que a situação permite.

“As grandes corporações norte-americanas, a fim de amenizarem as pressões sobre seus balanços no auge da crise, realizaram demissões massivas de funcionários. Mas o clima no mercado financeiro é hoje claramente muito melhor”, afirma.

Segundo o economista, as perspectivas de crescimento de 4% do PIB norte-americano nos próximos trimestres deverão estimular nas empresas projetos de recontratação, freando a atual trajetória ascendente do desemprego no país, cuja taxa deverá atingir seu pico no primeiro trimestre deste ano e, a partir de então, seguir tendência paulatina de queda.

Melhora no ambiente financeiro e perspectivas de retomada econômica deverão trazer tendência de queda à taxa de desemprego norte-americana a partir do segundo trimestre

Para Bryson, este momento será crucial para a recuperação da maior economia do mundo. “Com o desemprego caindo, não demorará muito para o norte-americano restaurar sua confiança e elevar o consumo”, prevê Bryson.



A retomada do mercado imobiliário dos EUA é motivo de comemoração?

Não raramente, bons indicadores registrados pelo mercado imobiliário norte-americano – que, por sinal, na visão de Bryson, deverá manter seus sinais de recuperação, com preços dos imóveis subindo depois de baixas históricas – são comemorados pelo mercado como a prova derradeira de que a crise ficou para trás.

O cerne do problema estava na falta de regulação financeira

Bryson concorda, mas em parte. “É verdade sim que o pior da crise ficou para trás, mas passada a poeira levantada no começo, agora começamos a perceber que o cerne do problema estava na falta de regulação financeira”, afirma, em uma visão em total acordo com discurso proferido pelo presidente do Fed, Ben Bernanke, há poucos dias.