Na Real

Sem mobilização social, a crise estrutural tomará conta do país

A crise brasileira estava anunciada há tempos e nada foi feito

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Estão se reunindo em velocidade avassaladora as condições políticas e econômicas, nessa ordem, para que o Brasil adentre em período de longa estagnação econômica e turbulência política constante.

A “traição eleitoral” perpetrada pela presidente Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores e a aliança de partidos que sustenta o governo (por vezes “esquecida” pela mídia e pelos analistas políticos), deixou evidente as fragilidades do país. Seriam estas fragilidades verdadeiras novidades?

Não se pode falar em novidade quando se sabia que as despesas públicas crescem à velocidade entre 0,35% e 0,50% do PIB ao ano desde o início do século XXI, a previdência social necessita de correções imediatas (em termos de benefícios, idade de aposentadoria, etc.), a tributação elevada para os padrões de país emergente (36% do PIB) é empecilho à formação de capital para investimento, o pacto federativo está carcomido pela guerra fiscal e pelas incertezas tributárias para as empresas, os gastos com a saúde são crescentes e ineficientes, o déficit externo é estrutural em função da falta de competitividade industrial do país e os investimentos públicos são mal realizados e lentos, além de insuficientes.

Conjunturalmente, a presidente no seu primeiro mandato adotou verdadeiro analfabetismo econômico que quebrou todas as identidades básicas da administração econômica ao combinar, déficit externo cavalar (4% do PIB), déficit fiscal enorme e crescente (no último ano 6% do PIB), repressão artificial dos preços públicos, administração caótica das finanças públicas e gestão incompreensível dos investimentos públicos e das empresas estatais. Some-se a isso a estrutural corrupção que corrói o Estado brasileiro.

A crise brasileira estava anunciada há tempos e nada foi feito. Nem pelo governo, nem pelo Congresso Nacional e nem pelo Judiciário, o qual pune pouco e tardiamente os desvios do setor público.

Agora discute-se abertamente a estagnação estrutural do país. Está evidente que esta possibilidade não é apenas dada pela conjuntura atual, mas pela construção de décadas de desprezo pela ausência de reformas do Estado brasileiro. Vale dizer que esta previsão está se tornando uma sina. O mais preocupante é que o sistema político do jeito que está não será capaz de alinhavar alternativas para que esta sina seja desarmada. As lideranças políticas não parecem perceber o risco ao qual estão levando o país. A sociedade tolera passivamente Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Cito estes dois personagens como símbolos do contexto político no qual estamos todos metidos.

Se de um lado temos rota fiscal incerta (gastos públicos incompatíveis com a renda nacional) e política monetária arrochada (taxa de juros incompatível com o crescimento e com a administração razoável da dívida), de outro, não temos a porta de saída da política para solucionar a crise que aí está.

Neste contexto, somente a mobilização social fará com que a classe política se movimente em prol do país. Esta mobilização terá de ser organizada (em termos de objetivos, agenda e táticas) e sustentada (persistente ao longo do tempo e capaz de cobrar sistematicamente os políticos). Não pode ser uma mobilização de indignação sem consequências políticas. Cairá no esquecimento, novamente.

Os partidos, sejam os do governo, sejam os da oposição, estão tratando a crise atual como se banal fosse. Conchavos, pequenas declarações, alinhavos entre a cacicada dos partidos, conversas sobre programas partidários na TV, etc. estão na pauta da classe política. Enquanto isso, a pauta da sociedade, passa por desemprego, fábricas paradas, incertezas tributárias, famílias desestruturadas, criminalidade em elevação, mobilidade urbana péssima, saúde de padrão africano, educação pública inaceitável, etc.

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Há um hiato que vem há muito tempo sendo carregado. Os fatos indicam que as estruturas estão pesando sobre o futuro próximo e de médio prazo. Os políticos agem para proteger seus narizes de Pinóquio. A coisa está muito mal. É preciso agir.