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SÃO PAULO – Como o ano de 2010 ensinou, erros no cenário-base acontecem. No início do ano passado, por exemplo, a aposta mais comum era exatamente a que predomina neste começo de 2011: o Ibovespa deve encerrar o ano acima de 80 mil pontos. A realidade foi outra e o índice conseguiu apenas alcançar, ao final de 2010, os 69 mil pontos, suficiente para que o Ibovespa não ficasse no vermelho.
Em retrospectiva, os erros foram muitos: a Petrobras (PETR3, PETR4), que figurava entre as principais apostas, encerrou 2010 com queda superior a 20%, os EUA perderam ritmo no meio do ano e a recuperação foi colocada em xeque, a Europa ganhou destaque no noticiário, com os resgates à Grécia e à Irlanda e o temor de contágio para outras economias periféricas, mas de maior porte. Tudo isso contribuiu com volatilidade e prejudicou o índice, ofuscando o brilho dos papéis voltados ao cenário doméstico e o pujante crescimento do Brasil no ano – outro erro dos analistas, que subestimaram a expansão do País.
Em 2011, analistas e gestores têm a chance de se redimir. Entre as previsões tidas como certeiras estão a alta da taxa básica de juros nacional, a continuidade do avanço dos preços das commodities, a predominância de inflação nos emergentes, enquanto os países desenvolvidos ainda se debatem com temores de deflação e o crescimento do lucros das empresas. O mercado também aposta que, neste ano que se inicia, as ações serão o melhor investimento, diminuindo assim a recomendação de exposição à renda fixa, por exemplo.
Em relação aos dois principais pontos de preocupação com a economia global, a perspectiva é de que a situação nos Estados Unidos não é tão grave quanto a pintanda em 2010 e a recuperação deve ganhar destaque. Como disse Jim O’Neill, chairman do Goldman Sachs Asset Management, responsável por cunhar a expressão BRICs, 2011 talvez seja o “ano dos Estados Unidos”.
Já o destino da Europa ainda não fica tão claro. Com crescimento medíocre, o continente continuará em foco, enquanto os tomadores de decisão da região procuram meios para fortalecer as debilitadas economias europeias. A aposta, no caso, é de que o euro como moeda conjunta continuará, apesar das dúvidas levantadas no último ano, mas mais do que isso é difícil afirmar.
– Recuperação nos Estados Unidos surpreenderá positivamente
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Em 2010, os Estados Unidos produziram dados que decepcionaram investidores, especialmente por causa da lentidão da recuperação do mercado de trabalho. A revista The Economist, por exemplo, batizou esse processo de “recuperação desempregada”. No entanto, a publicação desafia aqueles que estão pessimistas com os prognósticos para 2011 e aposta que os EUA surpreenderão, com taxa de crescimento superior a 3% e o desemprego voltando a patamares inferiores a 9%.
O Barclays, de acordo com relatório de Piero Ghezzi e Luca Ricci, acredita que a economia norte-americana ainda produzirá sinais conflitantes em 2011, mas a projeção é de que o crescimento irá evoluir no final do ano e a expansão do PIB (Produto Interno Bruto) do país deverá passar de 2,8% em 2010 para 3,1% neste ano.
Dentre os mais otimistas, está Jim O’Neill, chairman do Goldman Sachs Asset Management. O economista escreveu em comentário sobre perspectivas para o ano que se pegou, durante uma palestra para clientes em Londres, apelidando 2011 de “o ano dos Estados Unidos”. O executivo lembra que a equipe de análise de Jan Hatzius, economista-chefe do Goldman para os EUA, agora projeta expansão de 3,4% para a economia norte-americana em 2011. “É provável que o crescimento seja robusto o suficiente para contribuir com declínio do desemprego o que, se correto, deverá significar que as piores consequências em termos sociais da crise deverão começar a ser neutralizadas”, anotou O’Neill.
Além disso, o cenário benéfico de ganhos corporativos deve, em algum momento, ter impacto na contratação de trabalhadores, o que pode ocorrer na segunda metade de 2011, segundo o BofA. “O mercado de trabalho será a grande virada de jogo para os mercados em 2011”, apontou em relatório.
– Ações no lugar de títulos
Em 2011, investidores devem afastar-se de títulos de dívida e voltar a atenção para as ações, de acordo com as apostas de grande parte do mercado. Em parte, esse distanciamento será causado pela políticas monetárias extremamente acomodativas nos países desenvolvidos. O Bank of America, por exemplo, só acredita em elevação da taxa básica de juros nos EUA no primeiro trimestre de 2013.
Em relação à Europa, a alta deve vir um pouco antes, em dezembro de 2011. Se as taxas de juros reais no mundo desenvolvido devem continuar a tender para zero, o ciclo positivo para o mercado de ações iniciado em março de 2009 ainda não acabou, aponta o BofA. Essa visão pode ser observada já no fluxo dos fundos de investimento no final de 2010. De acordo com o Credit Suisse, após dois anos em que os investidores pessoa física mantiveram preferência por fundos de renda fixa voltados a títulos públicos, esse movimento se reverteu em novembro e dezembro.
O Credit Suisse observou ainda que o fluxo para fundos de ações entrou em território positivo em novembro e deve ter superado o fluxo para fundos de renda fixa no último mês, sugerem Neal Soss e Dana Saporta. Na América Latina, a diferença entre o retorno com ações e o retorno com títulos – uma medida implícita do prêmio de risco pago por ações – indica que as ações estão baratas em relação aos títulos soberanos.
Richard Milne, do Financial Times, também acredita que investidores devem trocar títulos por ações, pois estes podem registrar performance superior enquanto assume-se que as economias ocidentais continuarão a se recuperar em 2011. No entanto, o jornalista faz um alerta: assim como a retomada não é certa, problemas na zona do euro podem eliminar ganhos e investidores podem acordar para o fato de que as autoridades estão “potencialmente” apenas guardando problemas para 2012 e além.
– Dois mundos em 2011
Dois mundos terão que conviver de forma concomitante, embora a harmonia não seja certa, neste ano que começa. De um lado, o mundo desenvolvido, que deve apresentar crescimento modesto e risco de deflação. Do outro lado, os países emergentes deverão continuar a impulsionar o crescimento mundial, mas a inflação está a espreita.
De acordo com o Bank of America, um dos grandes desafios para a Ásia em 2011 será justamente a pressão inflacionária, já que em muitos países títulos com vencimento em 10 anos têm retornos até abaixo da inflação, o que cria expectativa de mais aumento de preços. Para o Santander, continuaremos, no próximo ano, a viver em um mundo com duas velocidades.
“Vivemos em um mundo louco em que temores de inflação e deflação se misturam desconfortavelmente, criando enormes incertezas para os tomadores de decisão, investidores e o público em geral”, escreveram Stephen King, Pablo Goldberg e Frederic Neumann em relatório. Enquanto os países desenvolvidos têm, na opinião do Santander, todos os motivos para temer a deflação, as medidas adotadas, como a segunda rodada de afrouxamento monetário promovida pelo Fed, podem deixar as coisas piores, e não melhores.
Com as taxas de juros em queda, a política fiscal ficou mais frouxa e desse modo a atividade econômica voltou a crescer. Os mercados emergentes foram beneficiados, pois continuaram a ganhar força, enquanto as nações desenvolvidas permanecem com feridas abertas por causa do excesso de dívida. Os efeitos desse relaxamento, em suma, são sentidos apenas nos mercados em desenvolvimento, que terão que passar, muito possivelmente, por um período de aperto monetário para combater as pressões inflacionárias.
– Commodities continuam a avançar
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Além da abundância de dinheiro barato, essa apreciação dos preços das matérias-primas deve ter como razão também a expansão da economia em termos globais. Para o Morgan Stanley, por exemplo, “a recuperação econômica logo se transformará em expansão, à medida que a produção superar os níveis pré-crise”.
Além disso, a estimativa da instituição é de que os mercados emergentes, que necessitam de mais recursos naturais, apresentarão taxa de crescimento três vezes superior à dos países desenvolvidos. Paul Krugman, colunista do jornal The New York Times e ganhador do prêmio Nobel de Economia, compartilha da mesma visão. Em sua opinião, mais do que especulação ou ganhos inflacionárias, os preços subiram e continuarão a subir porque o “mercado de commodities está nos dizendo que vivemos em um mundo finito, no qual o rápido crescimento das economias emergentes coloca pressão na oferta limitada de matérias-primas, impulsionando os preços”, escreveu em coluna publicada em dezembro.
– Aperto monetário na cena interna
A inflação no Brasil, impulsionada pela atividade econômica forte e pelo preço dos alimentos, deve contribuir para que, em 2011, o Copom (Comitê de Política Monetária) decida adotar medidas convencionais de política monetária, notadamente o aumento da taxa básica de juros.
Em dezembro, a instituição se colocou em compasso de espera, avisando que havia riscos para a inflação, mas que preferia esperar para observar o impacto das medidas prudenciais anunciadas naquele mês. O Relatório Trimestral de Inflação, no entanto, deu claros indícios, segundo analistas, de que a alta da Selic é inescapável em 2011. Até mesmo a presidente recentemente empossada, Dilma Rousseff, colocou a manutenção dos preços como uma prioridade durante o seu governo, alertando que não irá tolerar essa “praga”.
Para Julio Hegedus Netto, economista-chefe da Interbolsa, o aumento da Selic deverá começar já em janeiro, “resta saber se com elevações de 25 pontos-base em janeiro e março ou 0,5 ponto percentual no primeiro mês do ano”, declarou, estimando que a taxa encerre 2011 entre 11,5% e 12% ao ano. A CNI (Confederação Nacional da Indústria), por sua vez, prevê a Selic em 12% ao ano ao final de 2011, estimando que a redução do caráter expansionista da política fiscal será suficiente, ao lado dessa alta, para levar a inflação deste ano para 5% ao ano, próxima do centro da meta, de 4,5%, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.
– Lucros das empresas avançam ao redor do mundo
Apesar da visão geral ser de que os EUA irão surpreender em 2011, o UBS lembra que uma série de fatores ainda devem atrapalhar o crescimento do país em 2011: consumidores ainda procuram pagar dívidas e o setor financeiro passa por um processo de recapitalização, o que torna as perspectivas menos rosadas.
Ainda assim, há evidências de que recentemente a confiança do empresário aumentou, houve contratação de empregados e alguma recuperação do consumo, o que sugere que agora os riscos são de upside, ou de que o cenário-base seja superado positivamente. Enquanto isso, as companhias continuaram a cortas custos. Essa combinação entre maior receita e expressiva produtividade pode ocasionar, em 2011, um cenário em que a temporada de resultados mostrará números superiores às estimativas por mais alguns trimestres. Essa é uma premissa largamente difundida entre os analistas, não só nos Estados Unidos: a de que o lucro das empresas irá aumentar em 2011.
Na Ásia, por exemplo, a expectativa é de avanço de 15%, de acordo com o BofA, que estima ainda ganhos superiores em 10% para as empresas europeias (vale notar que o consenso é de avanço mais forte, de 15%). Já a estimativa para as empresas do S&P 500 aponta retorno com ganhos de 9% em 2011.
– Europa: a certeza de que não há certezas
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Se os outros pontos expostos acima são dados como certos em 2011, uma única certeza envolve a Europa: não há afirmações irrevogáveis quanto ao destino das economias do continente. Também aqui existem duas velocidades. O Barclays, por exemplo, enxerga um descompasso entre os países centrais e periféricos, uma linha divisória que havia ficado esfumaçada recentemente.
Países centrais, apesar de também terem sofrido com contração da demanda e aumento do desemprego durante o ápice da crise, agora voltam a crescer em níveis pré-crise. A Alemanha é o destaque positivo. As companhias não financeiras estão em ótima forma, os dados macroeconômicos são positivos e a confiança dos empresários alcançou o maior patamar em 20 anos, enquanto o desemprego deu sinais de que está retrocedendo.
Por outro lado, a periferia europeia, com exceção da Itália, experimenta contração mais pronunciada e uma alta substancial no desemprego. Com isso, os mercados de títulos soberanos da região continuam sob intensa pressão, especialmente para Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha.
Mesmo com a criação de um mecanismo permanente de estabilidade aos países em dificuldade pela União Europeia e as políticas fiscais restritivas adotadas pelos países periféricos, o mercado financeiro não se convenceu de que o problema é contornável, “o que sugere que os capítulos finais da crise europeia da dívida soberana ainda deverão ser escritos”, segundo o Barclays.
Na opinião do UBS,no entanto, o futuro aguarda mais decepção. Como os mercados não se acalmaram mesmo após as garantias dadas com o resgate à Irlanda e os olhos dos investidores já miram Espanha e Portugal, o desenrolar mais provável, dada a importância econômica da Espanha na zona do euro e a relutância da Alemanha em apoiar novos pacotes de resgate, é de mudança na crise: ao invés de temores em relação à liquidez, o assunto será solvência em 2011.
Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, mais do que uma crise de dívida, esta é uma crise de liderança e governança. Para basear tal afirmação, o economista indica que a situação da dívida da zona do euro é mais confortável do que a dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Japão.
A posição dos EUA é semelhante àquela de Portugal, mas o primeiro não enfrenta os mesmo problemas, evidenciado a crença na governança e na liderança econômica do país. “O problema de Portugal é similar ao da Grécia, da Irlanda, possivelmente da Espanha, talvez da Itália e, em algumas circustâncias, até mesmo a França. Será que todos os países-chave darão suporte a eles? A resposta é: simplesmente não sabemos”, escreveu O’Neill.
Quem decidirá se a crise será sistêmica ou restrita a alguns países é a Espanha, segundo o Barclays. Mas, ao fim e ao cabo, o banco acredita que o país continuará solvente e não precisará de ajuda da União Europeia ou do FMI (Fundo Monetário Internacional). O fim do euro, apesar de muitas vezes levantado em 2010, também não entra na lista das alternativas prováveis para a região em 2011.