Expert

Se nenhuma reforma for feita, nos tornaremos um grande “Rio de Janeiro”, alerta Paulo Tafner

Apresentação do economista da Fipe durante evento da XP Investimentos mostrou a importância de aprovarmos com urgência a Reforma da Previdência e por que a diluição do texto da reforma é tão perigoso para o nosso futuro

SÃO PAULO  – Foram apenas cerca de 10 minutos de apresentação, mas a fala do economista Paulo Tafner acompanhada de gráficos sobre gastos previdenciários e produtividade do brasileiro deixaram claro que o alerta de urgência para as reformas já deveria estar soando há muito tempo – embora os prognósticos mais recentes do nossos “doutores” de Brasília apontam que uma grande reforma da previdência deve vir apenas em 2019.

“Não temos tempo a perder: é hora das reformas”, exclamou o pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da USP (Universidade de São Paulo) durante debate de economistas realizado no último sábado (24) na Expert 2017, evento promovido pela XP Investimentos. Participaram dessa roda de discussão os economistas Eduardo Giannetti da Fonseca e Zeina Latif (economista-chefe da XP Investimentos), com intermediação da jornalista Cristiana Lobo.

Sendo o primeiro dos três economistas a falar, Tafner mostrou uma série de dados que indicam como o gasto com previdência do Brasil vem crescendo de maneira desequilibrada, numa condição em que chegaríamos a 2050 com um brasileiro economicamente ativo sendo responsável por “bancar” dois aposentados previdenciários. “Eu quero um jovem bastante trabalhador me bancando na minha aposentadoria”, brincou o economista da Fipe.

PUBLICIDADE

Um dos slides apresentados por ele mostram que, de 1988 até 2015, os gastos com previdência mais do que triplicaram, indo de 3,4% do PIB (Produto Interno Bruto) para 11,2%. No mesmo período, a porcentagem de idosos (pessoas com 60 anos ou mais) sobre o total da população cresceu apenas 80%, de 6,5% para 11,7% dos brasileiros – ou seja, as despesas cresceram a um ritmo três vezes maior que o envelhecimento da população.

Para piorar a situação, Tafner mostrou a evolução histórica dos dados de produtividade do Brasil. Nas décadas de 70 e 80 tínhamos o mesmo nível de produtividade de Japão e Coreia, duas economias que hoje estão muito a frente de nós nesse quesito. Além disso, o crescimento médio anual da produtividade brasileiro nesta década tem ficado abaixo da média dos países asiáticos, sulamericanos e até das economias africanas. “Eu brinco que se as coisas continuarem assim o Brasil daqui a pouco vai exportar apenas sol e subsolo”, afirma.

Amanhã seremos todos Rio de Janeiro
Por isso, Tafner reforça a importância de avançarmos com a Reforma da Previdência. “Ficar velho é ruim, velho e pobre é horrível (…) Se nada for feito, todos os estados serão um ‘Rio de Janeiro’ amanhã”, alerta o economista da Fipe, citando um dos estados-símbolo da crise fiscal que assolam os estados brasileiros.

Apesar desse senso de urgência claramente apresentado por Tafner, o ritmo do governo deve ser mais lento: segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, tanto economistas quanto políticos não descartam que o texto da Previdência tenha que sofrer novo esvaziamento para que o governo consiga passar as medidas no Congresso, por causa da crise política – o próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, admitiu na sexta que pode ser preciso uma nova rodada de conversas sobre a Previdência. Uma das possibilidades seria manter apenas a idade mínima para a aposentadoria, deixando os outros pontos para o novo presidente. 

Para Tafner, a aprovação da reforma da Previdência com apenas a mudança da idade mínima para a aposentadoria vai gerar impacto fiscal “razoável”, mas “insuficiente” para melhorar as contas públicas brasileiras. Além disso, o esvaziamento excessivo da reforma pode levar o governo também a ter de elevar impostos, segundo ele.