Análise

Ação do Santander fecha com salto de 8% após resultado e puxa demais bancos: o que explica tanto ânimo?

Analistas veem resultados positivos e destacam qualidade dos ativos, mas alguns mantêm cautela em meio a sinais de alta da inadimplência

SÃO PAULO – Após um 2020 bastante desafiador, a temporada de resultados do primeiro trimestre de 2021 para as ações do setor bancário não poderia ter começado melhor. O Santander Brasil (SANB11) divulgou o balanço do primeiro trimestre de 2021 com números – bem – acima do esperado, puxando o setor como um todo na Bolsa.

O lucro líquido gerencial totalizou R$ 4,012 bilhões, alta de 4,1% na base anual e avanço de 1,4% frente o quarto trimestre de 2020, bem superior ao consenso Bloomberg, mais precisamente em R$ 300 milhões. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE, na sigla em inglês) no período atingiu 20,5%.

O resultado foi impulsionado principalmente por dois fatores, que indicam uma melhora na qualidade dos ativos e fizeram com que as units SANB11 disparassem até 10,14% na sessão desta quarta-feira (28), fechando com ganhos de 8,06%, a R$ 40,60. Tal desempenho puxou também os papéis de Bradesco (BBDC3, R$ 21,48, +4,78%; BBDC4, R$ 24,50, +4,97%), Itaú (ITUB4, R$ 28,21, +4,32%) e, em menor intensidade, do Banco do Brasil (BBAS3, R$ 30,30, +1,78%) no pregão.

Contudo, vale destacar, no acumulado de 2021, os papéis SANB11 registram baixa de 8,77%, ITUB4 tem queda de 9,62%, enquanto Bradesco tem leves perdas, de 1,84% para BBDC3 e de 0,31% para BBDC4. Descolado dos demais ativos, BBAS3 (e também afetados pelo cenário de maior intervenção governamental), a baixa é de 20,33% neste ano, enquanto o Ibovespa sobe 1,71% no mesmo período.

Em primeiro lugar entre os motivos para a alta, está a maior margem financeira (NII), uma vez que a empresa conseguiu entregar um crescimento em relação ao trimestre anterior na margem financeira sobre os ativos rentáveis (NIM).

O segundo ponto positivo são as receitas com prestação de serviços e tarifas bancárias, que aumentaram 8% na comparação ano a ano, para R$ 4,9 bilhões, um crescimento impressionante na avaliação de Marcel Campos e Matheus Odaguil, analistas da XP.

De acordo com os analistas, embora os primeiros três meses deste ano tenham sido mais afetados pela pandemia do coronavírus do que igual período do ano anterior, os principais catalisadores da alta da tarifa foram: i) cartões e adquirências, que cresceram 9% na base anual, para R$ 1,5 bilhão, uma vez que os volumes se recuperaram parcialmente no trimestre; ii) gestão de ativos, que cresceu 32%, para R$ 332 milhões; e iii) corretagem e banco de investimento que cresceu 42%, para R$ 369 milhões, impulsionado por maiores atividades de mercado através de IPOs e mercado de capitais.

O Santander Brasil continuou a expandir sua carteira de crédito, crescendo 13% na comparação anual e 3% na base trimestral, para R$ 451 bilhões, enquanto o NII cresceu ainda mais (de 6% na base anual e de 8% na trimestral, para R$ 13,4 bilhões), com a tesouraria do banco registrando forte alta de 21% de crescimento frente 2020 e atingindo R$ 2,1 bilhões. “A administração não revelou o que tornava os resultados da tesouraria tão impactantes. Como resultado, o NIM do banco melhorou 28 pontos-base no trimestre para 6,4%, a maior margem entre os bancos incumbentes”, apontam Campos e Odaguil, da XP.

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Conforme destaca Victor Schabbel, analista do Bradesco BBI “a qualidade geral dos resultados foi positiva, principalmente devido à recuperação de receitas bem como por um maior controle de despesas”.

As despesas totais da companhia apresentaram queda de 0,5% na comparação anual, atingindo R$ 5,3 bilhões, bom resultado atribuído principalmente em uma redução de 4,4% nas despesas com pessoal.

Campos e Odaguil pontuam também o anúncio do pagamento de R$ 3 bilhões em dividendos, somando-se aos R$ 512 milhões já anunciados anteriormente. A soma implica um dividend yield (relação entre o dividendo sobre o preço da ação) de 2,5% (10% se anualizado) e 88% de dividend payout (dividendo em relação ao lucro líquido) no trimestre.

Como a administração decidiu não distribuir por meio de juros sobre o capital próprio (JCP), a alíquota efetiva de imposto ficou 11 pontos percentuais acima das expectativas em 38% (versus 32% no quarto trimestre e 30% no primeiro trimestre do ano passado). “A administração pode ter decidido esperar por mais clareza sobre seus ganhos totais para 2021 antes de pagar em JCP, e isso significaria um alto payout no ano com a combinação de tais dividendos e JCP, o que  seria positivo para a tese de investimento em nossa visão”, avaliam.

Pontos de atenção

Um outro fator que chamou a atenção foi o índice de inadimplência de 90 dias, que permaneceu em 2,1%. Dessa forma, o banco não perdeu cobertura no trimestre, seguindo com índice de cobertura – relação entre empréstimos inadimplentes e provisões – acima de 90 dias de 288%.

O Santander reservou R$ 3,16 bilhões em provisões para créditos de liquidação duvidosa, queda de 7,7% em relação ao ano anterior. Ainda assim, o volume subiu 9,7% na base sequencial.

Contudo, em meio a um cenário econômico ainda desafiador, bastante impactado pelas medidas de distanciamento social, os números de inadimplência seguirão sendo observados de perto pelos investidores.

Vale ressaltar, conforme aponta a Levante Ideias de Investimentos, que os bancos têm prorrogados as dívidas durante os momentos mais críticos da crise, levando o mercado a desconfiar se esses índices poderão se manter em patamares razoáveis no segundo semestre.

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Isso mesmo após a instituição financeira destacar em teleconferência com executivos que não vê sinais preocupantes em termos de qualidade dos ativos.

A expectativa da XP é de que o índice de inadimplência do banco chegue a um pico maior devido à crise econômica causada pela pandemia da Covid-19, agravada pela carteira concentrada em varejo e crédito para veículos do Santander. “Dito isso, acreditamos que as provisões do Santander podem aumentar no médio prazo (possivelmente no terceiro trimestre de 2021) contra uma possível reversão de provisões de pares como o Bradesco [top pick da XP no setor]”, avaliam Campos e Odaguil.

Sobre esse ponto, o Bradesco BBI reforça que o índice de inadimplência de 15 a 90 dias já mostrou sinais de deterioração, avançando rapidamente a partir de dezembro. Na comparação do primeiro trimestre de 2021 com o quarto trimestre de 2020, houve uma alta sequencial de 80 pontos-base, para 3,6%.

Para Schabbel, embora esperado até certo ponto, este pode ser um ponto de atenção para o futuro próximo, especialmente levando em consideração o desempenho mais fraco da economia frente o esperado no início do ano.

O analista do BBI ressalta que os resultados de maior qualidade fornecem suporte para as ações,
já que deixam os investidores e analistas mais confortáveis ​​sobre as tendências de lucros este ano. O lucro líquido de R$ 4,0 bilhões no trimestre sustenta a expectativa atual do mercado para o ano (de R$ 15 bilhões de lucro líquido).

“Notamos, no entanto, que o otimismo provavelmente seria maior se tivéssemos uma melhor visibilidade sobre o cenário macroeconômico de curto prazo. Com grandes incertezas ainda em torno das tendências de inadimplência, esperaríamos que os investidores considerassem os dados atuais de provisões do Santander Brasil como um ‘grão de sal'”, avalia Schabbel. Assim, caso haja maiores despesas com provisões à medida que os índices de inadimplência comecem a se deteriorar, parte da empolgação proveniente dos resultados financeiros entregues no primeiro trimestre deve sair do radar.

Desta forma, o BBI segue com recomendação neutra para os ativos SANB11, com preço-alvo de R$ 44, ou um potencial de alta de 17% frente o fechamento anterior. A XP também possui recomendação neutra, mas com preço-alvo de R$ 32 (queda de 15% frente o fechamento da véspera), justamente por projetar a possibilidade de maiores provisões no médio prazo, versus possível reversão nos pares.

Por outro lado, o Credit Suisse tem  recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os ativos, com preço-alvo de R$ 53 (upside de 41%), destacando que o setor como um todo está sendo negociado a um valuation atrativo, a despeito da expectativa de um ciclo de recuperação de lucros.

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Conforme aponta a equipe de análise da Levante, os números devem deixar os investidores mais atentos agora aos resultados dos outros bancos, justamente levando em conta o cenário de certa desconfiança dos impactos na economia de uma retomada mais vagarosa com os atrasos na vacinação e os possíveis impactos gerados para as instituições.

De acordo com compilação feita pela Refinitiv com casas de análise que cobrem o papel, apesar da euforia com o resultado, a maioria ainda segue com recomendação neutra para SANB11 (8 casas). Enquanto isso, 5 delas recomendam compra e uma recomenda venda do papel.

Getnet e Santander

Sobre os temas específicos do Santander, a casa também ressalta o resultado da divisão de cartões e adquirência, a Getnet, no trimestre. Além da receita, o banco divulgou o lucro da divisão de cartões, que por sua vez atingiu R$ 110 milhões, número considerado forte para o trimestre quando comparado com os R$ 359 milhões  apresentados no ano de 2020 como um todo

O segmento passou a ganhar mais destaque após os executivos da companhia aprovarem em novembro de 2020 estudos sobre um possível “spin-off” com listagem na bolsa de valores. O plano parte também do controlador do banco, o Santander da Espanha, e consiste em criar um player global de pagamentos para competir com plataformas globais no setor.

Assim, os analistas veem como catalisadores para as ações a retomada da economia com a vacinação acelerado, além de novos desenvolvimentos quanto ao spin-off, que deve dar aos acionistas do banco ações da nova empresa. Em teleconferência, o banco afirmou que prevê listar da Getnet na Bolsa no segundo semestre de 2021.

“Enxergamos como principais catalisadores para as ações do Santander a retomada acelerada da economia brasileira com a aceleração da vacinação e novos desenvolvimentos quanto ao spin-off da Getnet que deve dar aos acionistas do banco ações da nova empresa”, aponta a Levante.

Já entre os pontos de atenção, apesar da euforia, está o curto prazo com o possível aumento da inadimplência – e se isso deve impactar (e em que magnitude) o balanço do banco nos próximos trimestres.

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