Não foi tão bom assim...

Santander Brasil tem lucro acima do esperado e ações saltam 11,5% – mas balanço foi menos positivo do que parece

Provisões bem mais baixas do que o esperado em meio ao cenário de coronavírus não agradaram analistas, mas expectativa para o setor é positiva

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Agência do Santander
(Bloomberg)
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A despeito da expectativa de que o primeiro trimestre de 2020 traria forte queda do lucro e aumento das provisões para devedores duvidosos, já refletindo o impacto do coronavírus, o Santander Brasil (SANB11) inaugurou a temporada de balanços para os grandes bancos com um lucro acima do esperado, assim como o seu retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês).

O banco lucrou R$ 3,77 bilhões no primeiro trimestre de 2020, em expansão de 10,5% sobre igual período de 2019, o mesmo percentual se considerado o lucro gerencial, que totalizou R$ 3,853 bilhões. Segundo apontou a instituição, o bom lucro reflete o fato de que os impactos da crise do coronavírus não foram sentidos intensamente no primeiro trimestre.

O ROE recorrente foi de 22,3%, um crescimento de 1,2 ponto porcentual sobre o primeiro trimestre de ano passado.

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Já a taxa de inadimplência – atrasos acima de 90 dias – recuou 0,1 ponto porcentual no primeiro trimestre de 2020, ante igual período do ano passado, caindo de 3,1% para 3%. No segmento varejo, a taxa de inadimplência teve leve alta, de 3,9% para 4%, mas no segmento pessoa jurídica houve queda de 1,9% para 1,6% – 0,3 ponto porcentual.

As despesas líquidas com provisões para devedores duvidosos (PDD) foram de R$ 3,424 bilhões, alta de 14,8% ante o trimestre anterior e de 19,2% em relação ao primeiro trimestre de 2019.

Em meio aos números positivos, as units da instituição financeira saltaram 11,47%, a R$ 27,22, na sessão desta terça-feira (28) e, junto com a sessão de maior ânimo para a bolsa, também ajudaram a impulsionar outros bancos que vão divulgar seus números nas próximas semanas.

O banco Morgan Stanley comentou que os resultados do primeiro trimestre de 2020 do Santander Brasil vieram “sólidos”, acima das estimativas para o lucro gerencial (R$ 3,8 bilhões, ante previsão de R$ 3,3 bilhões do Morgan), e ROE (23,3%, ante estimativa de 20% do banco). Como aspectos positivos, o Morgan Stanley destaca que o Santander Brasil teve um forte aumento de empréstimos para o setor corporativo, “que buscou maior liquidez, como se esperava, por causa da epidemia do Covid-19 em março”.

Porém, ao olhar apenas para os números do primeiro trimestre, a avaliação é de que ainda é cedo para tirar conclusões, conforme ressalta Marcel Campos, analista da XP Investimentos.

“O resultado foi marcado por provisões e impostos abaixo do esperado, bem como consumo da cobertura para inadimplências, fatos que ajudaram o lucro”, avalia o analista.

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Durante a teleconferência com analistas, executivos do Santander foram muito questionados sobre os motivos para não aumentarem mais fortemente as provisões contra devedores duvidosos desde já, uma vez que a expectativa é de deterioração em meio ao ambiente de forte desaceleração econômica com o coronavírus. A justificativa dada foi de que o banco já havia se preparado para um momento mais difícil, o que levou a um aumento mais tímido das provisões, mas também por que não haveria clareza no cenário, gerando maior cautela. Com isso, apontou também que haverá revisões em breve, dependendo de como a crise evoluir.

Outro ponto sensível apontado pela XP é sobre a queda nos patamares de capital regulatório nível I do banco, que engloba o patrimônio dos acionistas e os lucros retidos, que foram para 12,6% versus 14% ao final de 2019.

“Somamos a isso o fato do banco estar com uma inadimplência baixa e não usual de 3,0%, enquanto sua carteira possui 69% de participação no segmento de varejo (mais arriscado). Por fim, acreditamos que essa combinação de uma carteira mais arriscada com menor cobertura e nível de capital pode impactar os próximos trimestres”, avalia Campos. Segundo ele, os indicadores de qualidade do ativo foram a grande surpresa do trimestre.

O Bradesco BBI corrobora essa visão: “os investidores devem prestar mais atenção a outros pontos importantes do que apenas o lucro. Outros fatores, como aumento do custo de risco, deterioração dos principais indicadores de qualidade dos ativos, taxa tributária efetiva anormalmente baixa e índices de capital mais baixos devem desempenhar um papel mais importante no desempenho das ações do Santander”. Os impostos vieram abaixo do esperado em uma taxa efetiva de 30%, o que não é usual, uma vez que este trimestre já incorpora o aumento na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de 15 para 20%.

O Santander Brasil também teve queda de 7% nas receitas obtidas com tarifas de serviços e o faturamento com os cartões de crédito se enfraqueceu, em queda de 15%.

Contudo, houve dados apontados como bons de uma forma geral. Despesas administrativas, gerenciais e outras despesas operacionais foram o destaque positivo do trimestre, com uma queda trimestral de 8% para R$ 9 bilhões. Atenção maior para despesas não relacionadas a pessoal, que apresentaram uma queda de 9% para R$ 6,7 bilhões.

Já a captação cresceu 28% anualmente e 20% trimestralmente, para R$ 429 bilhões, mostrando que a liquidez dos grandes bancos está sólida. “Destacamos principalmente o aumento nos depósitos à vista, que cresceram 17% trimestralmente para R$ 34 bilhões, linha especialmente importante por não acarretar em despesas financeira”, aponta a XP.

Voltando aos números mais controversos, estiveram os de margem financeira, que registraram uma boa performance em R$ 12,7 bilhões. Porém, avalia Campos, parte do bom resultado vem do resultado que acredita ser pouco sustentável da tesouraria. Isso porque a margem financeira com mercado (tesouraria) saltou 90% anualmente para R$ 1,8 bilhão devido parcialmente a ganhos de títulos pré que se beneficiaram da queda na SELIC na avaliação a mercado.

O que esperar daqui para frente?

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Prevendo um segundo trimestre bem mais desafiador do que o primeiro, o Santander Brasil vem implantando medidas como redução do risco a cartão de crédito e o corte de gastos com tecnologia para ajudar a enfrentar a crise, conforme destacou Sergio Rial, CEO do banco, à Reuters.

A expectativa é de um aumento nas perdas com empréstimos, mas ainda não vê a taxa de inadimplência de 90 dias para bancos do Brasil subir acima do recorde de 5%.

Com o banco tendo como plano manter o crescimento dos custos operacionais abaixo da inflação em 2020, também houve congelamento de contratações. Além disso, apontou, a instituição está recuando nas linhas de rotativo de cartão de crédito, mais arriscadas pois não possuem garantias (só no primeiro trimestre, a carteira de empréstimos com cartão de crédito recuou 9%).

Por outro lado, a expectativa é de reabertura gradual das agências físicas, o que pode ser positivo para a operação do banco.

O cenário para os analistas de mercado ainda é de muitas dúvidas sobre o impacto do coronavírus nas operações, Mas, de uma forma geral, a avaliação é positivo para os papéis do banco.

A XP mantém recomendação neutra para os ativos, enquanto o Bradesco BBI, mesmo destacando alguns pontos negativos do balanço, segue com recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado), uma vez que vê o setor em geral bem posicionado para enfrentar a crise, ao mesmo tempo em que o valuation está bastante atrativo para quem está de olho em um investimento num horizonte de tempo mais longo.

Credit Suisse, Morgan Stanley e Itaú BBA também possuem recomendação equivalente à compra para os papéis, também levando em conta o valuation após a forte baixa dos ativos, com queda superior a 40% no ano, enquanto o Ibovespa tem baixa de 30% no período. Contudo, as próximas medidas a serem adotadas pela instituição e o impacto do coronavírus nas operações serão acompanhados de perto pelo mercado.

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