“Sal é o novo petróleo”: como as baterias de sódio podem redefinir futuro da energia

Morgan Stanley vê ciclo de até US$ 800 bilhões e impactos relevantes sobre commodities e cadeias globais

Lara Rizério

Equipamento para teste de carga e descarga de bateria de íon de sódio do tipo moeda Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP
Equipamento para teste de carga e descarga de bateria de íon de sódio do tipo moeda Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

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A ascensão das baterias de sódio deve inaugurar uma nova fase no setor energético global, com potencial para redefinir cadeias industriais, pressionar mercados de commodities e acelerar a eletrificação em larga escala, segundo uma extensa equipe de análise do Morgan Stanley em relatório chamado: “Sal: o novo petróleo”.

Em relatório recente, o banco descreve o avanço da tecnologia como o início de uma “nova era do petróleo”, na qual o sódio — abundante e de baixo custo — passa a assumir papel estratégico em substituição a matérias-primas críticas como lítio, cobre e grafite.

O Morgan Stanley projeta que as baterias de sódio devem sair de um estágio ainda inicial para um mercado global de até 830 GWh (gigawatt/hora) por ano em 2030 e 2,4 TWh (Terawatt-hora) em 2035 — podendo chegar a até 3,7 TWh em um cenário mais otimista.

A expansão deve impulsionar um ciclo de investimentos estimado em cerca de US$ 800 bilhões até 2035, abrangendo toda a cadeia, desde matéria-prima até infraestrutura elétrica e produção industrial.

Segundo o banco, esse movimento não se limita à substituição tecnológica, mas cria uma nova onda de demanda, com impacto direto em setores como energia, transporte e infraestrutura.

Um dos principais vetores para a adoção é o custo, uma vez que as baterias de sódio apresentam uma vantagem de 30% a 40% em relação às baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), hoje amplamente utilizadas.

Além disso, a tecnologia reduz a dependência de minerais concentrados geograficamente, reforçando a segurança energética — um ponto considerado estratégico em meio à crescente demanda por energia impulsionada pela inteligência artificial e centros de dados.

O banco também destaca o melhor desempenho em climas frios, o que amplia o potencial de uso em regiões hoje limitadas por restrições técnicas das baterias tradicionais.

Três frentes de disrupção

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A análise aponta três principais áreas onde o impacto será mais imediato:

Pressão sobre lítio e cadeias tradicionais

A disseminação das baterias de sódio representa, ao mesmo tempo, uma ameaça estrutural para o mercado de lítio.

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O Morgan Stanley estima que a nova tecnologia pode atingir cerca de 20% do mercado de baterias até 2030 e até 37% em 2035, reduzindo a demanda por compostos de lítio, sobretudo em armazenamento de energia e veículos de menor custo.

No curto prazo, o banco ainda vê o mercado de lítio sustentado por forte demanda em 2026, mas projeta mudança de narrativa a partir de 2027, com possível pressão adicional sobre preços conforme o sódio ganhe escala.

Além do lítio, outros segmentos também podem ser impactados negativamente, como fabricantes de folhas de cobre e produtores de grafite, já que as baterias de sódio utilizam alumínio e carbono alternativo em sua composição.

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Consolidação e “vencedores”

O banco também prevê um movimento de consolidação no setor, com empresas líderes ampliando participação à medida que a nova tecnologia avança.

Segundo a equipe de análise do Morgan, a adoção das baterias de sódio tende a favorecer grandes fabricantes com escala e capacidade de investimento, em um ambiente descrito como “winner takes more” (os vencedores levam mais).

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A China aparece como líder no desenvolvimento e adoção da tecnologia, enquanto Estados Unidos e Europa ainda avançam em estágio mais inicial.
Implicações mais amplas

Para o Morgan Stanley, a importância das baterias de sódio vai além do setor energético, com impactos potencialmente comparáveis aos de grandes transformações tecnológicas.

A combinação de menor custo, maior segurança energética e ampla disponibilidade de insumos pode destravar novos usos e acelerar a eletrificação global — especialmente em segmentos ainda pouco penetrados.

Com isso, o banco avalia que a tecnologia não deve ser vista como nicho, mas como peça central em um novo ciclo industrial e energético, com implicações duradouras para investidores, empresas e governos.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.