Análise

Safra: Vale dá de goleada na Petrobras quando assunto é opção de investimento

Analistas realizam comparação entre 2 principais blue chips da bolsa, e constatam que mineradora sai melhor no resultado; companhias só empatam quando questão é preços de commodities

SÃO PAULO – Vale (VALE3; VALE5) faz 4 a 1 na Petrobras (PETR3; PETR4) em avaliação dos pesos pesados do Ibovespa realizada pelo Safra – uma vitória de goleada. Mineradora só empata na perspectiva sobre os preços de commodities, mas ganha quando o assunto é: interferência do governo, impactos da alta do dólar em relação ao real e dividendos. 

Os analistas Leonardo Alves e Lucas Marquiori apontam que iniciarão 2013 com preferência pelas ações da Vale, ao invés de Petrobras, mesmo considerando o desempenho recente das ações (nos últimos 30 dias: VALE5, +0,2%; PETR4, -11,4%), já que acreditam que este movimento deve se fortalecer no curto prazo.

Os papéis das duas companhias têm o maior peso na carteira teórica do Ibovespa, e apresentam juntos mais de 20% de participação. A comparação dos analistas foi baseada nos modelos para as indústrias de Óleo e Gás, Siderúrgica e Mineração, e sob o olhar de quatro perspectivas: influência do governo, impactos da alta do dólar, preços de commodity e dividendos. 

1 – Mão pesada da Dilma (Vale 1 x Petrobras 0)
Uma das maiores preocupações do mercado brasileiro, no momento, refere-se a quais ações podem sofrer com influência do governo, que vem mexendo na base de vários setores importantes para a economia, como o bancário e o elétrico. Mas neste quesito, a Vale tem vantagem, mostra o Safra. 

A Petrobras tem como acionista controlador o governo, que vem segurando o reajuste no preço dos combustíveis para conter a inflação. A estatal enfrenta atualmente perdas em suas operações de refino, já que precisa importar gasolina para abastecer o mercado doméstico e os preços no Brasil estão 10% a 20% abaixo dos preços de importação. 

“Sem um aumento no preço (que deve ocorrer no início de 2013), a Petrobras deve continuar obtendo perdas no setor de refino. Desde o início do ano, esse setor apresentou um Ebit (lucro antes de juros e impostos) negativo de R$ 40 bilhões”, comentaram os analistas. 

Já a Vale, embora seus principais acionistas sejam ligados ao governo – especialmente Previ (Fundo de Pensão do Banco do Brasil) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) -, a mineradora possui entre seus controladores um grande grupo privado – Bradespar (BRAP4).

Apesar de certa influência do governo esteja presente, o principal produto da Vale (minério de ferro) não possui o mesmo impacto que o combustível exerce sobre a economia brasileira, e os analistas acreditam que o interesse do Estado é estimular as exportações ainda mais, em direção a uma balança comercial mais favorável. 

2 – Alta do dólar frente ao real (Vale 2 x Petrobras 0)
A equipe macroeconômica do Safra estima que a taxa cambial (real/dólar) feche o ano em R$ 2,09, e suba até R$ 2,12 ao final de 2013. Neste cenário de alta da moeda norte-americana, a Vale seria a mais beneficiada, uma vez que sua receita é basicamente atrelada ao dólar, enquanto uma grande parte dos custos está atrelada ao real, indicam Alves e Marquiori. 

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Por sua vez, a estimativa é que o déficit de refino da Petobras cresça com a apreciação do dólar, já que os preços internacionais de gasolina irão subir, enquanto os preços domésticos irão permanecer estáveis. 

3 – Preços da commodity (Vale 3 x Petrobras 1)
Segundo os analistas, tanto o minério de ferro quanto o petróleo devem enfrentar um cenário positivo de demanda em uma possível recuperação das economias dos Estados Unidos e China.

Contudo, em relação ao petróleo, o governo da Arábia Saudita parece cauteloso com o impacto de preços altos de óleo sobre a economia mundial, e desde o anúncio do afrouxamento monetário dos EUA no terceiro trimestre, o ministro do maior produtor da commodity no mundo afirmou que o preço-alvo do país é de US$ 100 por barril (brent). Em um cenário positivo para demanda, que poderia levar a preços mais altos, a Arábia Saudita possui capacidade de aumentar a produção, exercendo uma pressão para baixo nos preços, alertam Alves e Marquiori.

Já em relação ao minério de ferro, os analistas estimam que os preços voltarão para o patamar de US$ 115 a US$ 120 por tonelada, representando um “piso sólido” para os preços da commodity. 

4 – Dividendos (Vale 4 x Petrobras 1)
Por fim, eles projetam um dividend yield (dividendo esperado sobre preço da ação) para as ações VALE5 de 4,5% no final do ano fiscal de 2013, ao passo que estimam 2,8% para os papéis PETR4 no mesmo período. 

Os analistas acreditam que a Vale passa por um melhor momento em termos de dividendos, já que os desinvestimentos da mineradora excedem as necessidades do seu plano de capex (investimentos em bens de capital), que estimam ser na ordem de US$ 4 bilhões, e uma redução na dívida líquida da Vale no ano que vem pode se transformar em dividendos mais altos. 

Por sua vez, a Petrobras espera desinvestir US$ 14,8 milhões em cinco anos, sendo a conclusão deste plano essencial para financiar o seu capex estimado para 2012 a 2016.