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SÃO PAULO – Para a surpresa daqueles que acreditavam que a depreciação de mais de 8% do dólar frente ao real em 2006 se limitaria àquele ano, ou ao menos não seria tão significativa novamente em 2007, a divisa norte-americana encerrou o ano intensificando a tendência de baixa registrada no ano anterior.
Reflexo do elevado spread entre as taxas de juros domésticas e de economias avançadas, do elevado saldo comercial brasileiro ao longo do ano e da abundante liquidez internacional que figurou na maior parte do ano, o dólar comercial encerrou 2007 cotado a R$ 1,776, em forte baixa de 16,9% em relação a 2006.
Apesar de tropeços, 2007 mostrou cenário favorável
A despeito do final do ano ter sido marcado pela crise no mercado imobiliário norte-americano, restrição de crédito no mercado bancário e incertezas quanto ao futuro da economia norte-americana, nem todo o ano de 2007 foi caracterizado pelos reveses que o mercado presenciou a partir do segundo semestre.
Exemplo disso foi o desempenho do mercado acionário doméstico. Apesar das dificuldades que tomaram os mercados durante o segundo semestre, o Ibovespa encerrou o ano em alta de 43,66%. A manutenção do risco-país, que mensura a percepção de risco dos investidores internacionais em relação à economia doméstica, em patamares historicamente baixos também corrobora o cenário, no geral, favorável.
Por trás da depreciação do dólar frente ao real encontram-se fatores relacionados às vias comercial e financeira. Uma combinação de especificidades internas, somadas à conjuntura econômica internacional, levaram a moeda a níveis bastante reduzidos em vários momentos do ano.
Influxo pela via comercial
A despeito do superávit comercial brasileiro ter sido inferior ao de 2006, não se pode ignorar o resultado final do saldo. Até novembro, a balança comercial acumulava um superávit de R$ 36 bilhões, e segundo as estimativas do mercado, esse valor se elevará a R$ 40,00 bilhões, quando considerado o mês de dezembro. Fica evidente que o fluxo cambial pela lado comercial da economia foi significativo.
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Ainda atento ao balanço de pagamentos, que evidencia as trocas do país com o exterior, destaca-se a linha de crédito comercial de curto, médio e longo prazo que, com um expressivo aumento de 505% entre novembro de 2006 e novembro de 2007, sinaliza a forte demanda por crédito externo.
O investimento estrangeiro direto e em carteira também se destacam, com avanço de 107% e 135%, respectivamente, na mesma base de comparação. Juntas, as três contas somavam, até novembro, quase R$ 100 bilhões. O resultado global do balanço de pagamentos marcava saldo positivo de R$ 84,4 bilhões até novembro. Cabe destacar ainda o expressivo volume das reservas brasileiras, que contavam com US$ 178,9 bilhões até o dia 26 de dezembro.
Diferencial de juros e cenário externo
Embora o diferencial de juros entre Brasil e, por exemplo, Estados Unidos, tenha se reduzido ao longo do ano (exceto pelos últimos meses) com as autoridades monetárias dos dois países adotando posturas majoritariamente opostas, este ainda continuou relativamente elevado ao longo do ano, atraindo para o país fluxo cambial também pela via financeira, contribuindo para a elevada magnitude da entrada de dólares no mercado doméstico.
As perspectivas de assunção da classificação de risco investment grade, em meados de 2008, embasadas na evolução do quadro macroeconômico brasileiro ao longo dos últimos anos, também contribuíram para o maior influxo de divisas para o país.
É importante lembrar ainda que a tendência de depreciação do dólar ao longo do ano não se limitou ao mercado cambial doméstico. A divisa também de depreciou frente às principais moedas globais, tendo atingido sua menor cotação histórica frente ao euro. Os fundamentos macroeconômicos norte-americanos mostraram alguma deterioração, levando muitos bancos centrais a reverem suas posições em dólares.
O ano em que o dólar se firmou abaixo de R$ 2,00
Em suma, 2007 foi o ano em que o dólar se firmou abaixo de R$ 2,00, depois de ter chegado muito próximo de R$ 4,00 em meados de 2002, quando os temores decorrentes do processo eleitoral brasileiro e as incertezas que este gerava nos investidores abalaram os mercados.
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A combinação da consolidação de um cenário macroeconômico estável, associado à abundante liquidez internacional permitiu que o dólar se mantivesse em patamar bastante inferior àquele que se esperava ao final de 2006 e, salvos os devidos riscos associados ao cenário prospectivo econômico, se depender das projeções atuais, o patamar de R$ 2,00 não voltará a ser uma realidade tão cedo.